Klaus Henrique Santos

Reside em Sinop-MT e é membro da Academia Sinopense de Ciências e Letras (ASCL), nela ocupando a Cadeira 10, cujo patrono é Jack Kerouac. Bacharel em Comunicação Social - Jornalismo. Publicou Páginas da Escuridão (2012), Enfim, a estrada (2014), Horror & Realidade: contos (Carlini & Caniato Editorial, 2015), No Compasso da Loucura (Carlini & Caniato Editorial, 2017) e A poesia mora no bar (Carlini & Caniato Editorial, 2018).

JACK KEROUAC

Li, em uma reportagem do The Washington Post, a respeito de um drinque que leva o nome do pai dos beats. Com rum, tequila, suco de cranberry e limão, forma-se a bebida Jack Kerouac. Ter um drinque com o próprio nome é uma grande homenagem. Fiquei feliz por Jack e, pela primeira vez em muitos anos, num misto de oração e meditação, enviei-lhe boas vibrações.  


Liguei para o dono do bar e fui informado de que o tal suco de cranberry estava em falta na província. Eu precisava muito daquele drinque e rodei por vários lugares à procura do ingrediente. Por fim, encontrei em um empório que vendia polpa de frutas. Zarpei para o bar em meu Peugeot barulhento.


Tomei lugar em meu banco junto ao balcão e estendi a receita ao dono do bar. Ambrósio me atendeu prontamente, pois há tempos sabia da minha vontade em saborear aquela bebida. 


Sempre preferi cerveja, mas o tal Jack Kerouac me cativou, feito os escritos do meu escritor predileto. Até a décima dose, concentrei-me na composição da bebida e na mistura dos sabores. Alternadamente, tomava algumas doses puras de rum. Fixei meu olhar no copo e fiquei alheio às pessoas que estavam à minha volta, à música, ao bar e ao ponto do universo em que meu corpo se encontrava. Ao olhar para o lado direito, qual não foi minha surpresa ao ver ali o fantasma de Jean-Louis Lebris de Kerouac, com o sorriso contagiante que tanto encantou em vida. A luz passava pelo contorno de seu corpo, que agora era uma grande sombra de luz. Não encontro definição melhor a não ser esta: uma sombra de luz. 


Meus olhos ficaram marejados ao ver o semblante daquele anjo. Havia tanto a ser dito, mas só me enchi de uma satisfação plena e conversei silenciosamente com aquela alma iluminada. Como numa abençoada dose da sagrada bebida, nossos pensamentos se conectaram e as imagens e os sons de tudo, absolutamente tudo nos ficou muito palpável (Deus, como me faltam as palavras para descrever a viagem mágica que foi esse encontro!), algo parecido com a menina que me mostrou a essência da poesia, mas com Jack havia a prevalência da divindade sem os desejos carnais. bebemos. Olhávamo-nos e entornávamos copos e mais copos do drinque. Vi as viagens intermináveis e seus percalços, ao passo de que ele olhava para os meus caminhos e sorria. Tirou de um de seus bolsos um manuscrito e o desenrolou. Ficou em pé e começou a falar e declamar. De tempos em tempos eu olhava enquanto um cigarro sem filtro queimava uma das pontas daquele manuscrito. O ritmo de sua voz acelerou e ele entoava um mantra sagrado dos anjos iluminados que vieram a esta Terra para nos guiar no caminho da evolução. Cantei junto a ele e fui escrevendo nos guardanapos que estavam no balcão. Ele tocou minha mão e nada mais havia do espectro que vira até então. Havia calor, pulsação, sangue nas veias do fantasma. De alguma forma, ele estava reencarnado ao meu lado. Pegou o bloco no bolso da minha camisa e escreveu uma frase. Fiz a seguinte e lhe devolvi. Kerouac deu uma longa tragada no cigarro e com apenas um toque de suas mãos mágicas, o bloco se encheu de uma história, cuja essência transcendental me libertou de imediato. Foi então que entendi. Havia, naquilo, a grande certeza do vazio sagrado.  


A libertação provém do ato em deleitar-se no vazio e seguir na estrada eterna do sentir, movendo-se no ritmo mágico e das forças do universo. Haverá sempre estrada para todos e o grande ato sagrado é oferecer carona especialmente para o desconhecido.


Estava com olhos fixos no copo vazio. Meu bloco estava no balcão com anotações em língua inglesa. As palavras foram desparecendo enquanto as lia. Tomei uma última dose de rum e fui para casa. Feito Jack, pretendo morrer aos 47 anos, mas não sem antes dedicar-lhe o sonhado grande livro arcanjo. 

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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