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Klaus Henrique Santos 
Reside em Sinop-MT e é membro da Academia Sinopense de Ciências e Letras (ASCL), nela ocupando a Cadeira 10, cujo patrono é Jack Kerouac. Bacharel em Comunicação Social/Jornalismo. Publicou Páginas da Escuridão (2012), Enfim, a estrada (2014), Horror & Realidade: contos (Carlini & Caniato Editorial, 2015), No Compasso da Loucura (Carlini & Caniato Editorial, 2017) e A poesia mora no bar (Carlini & Caniato Editorial, 2018).

ESTATUETA 

Seguros de que a ausência de programação resulta nas melhores aventuras, decidimos agora, neste sábado à tarde, passar o restante do final de semana na cachoeirinha. Às pressas reunimos os apetrechos para o acampamento. No porta malas do Fiat, as barracas, colchões, a grelha e os engradados de cerveja. O vinho, o cigarro e a comida vão conosco na cabine do carro.
A “cachoeirinha” é na verdade um complexo de três pequenas cachoeiras de um riacho rodeado por mata, que desagua no rio Teles Pires. Ninguém além de nós sabe do lugar, o que garante total liberdade e privacidade. Por egoísmo misturado à preocupação ambiental, nunca revelamos ou fotografamos o nosso refúgio sagrado. 
Organizamos as barracas no solo pedregoso às margens da segunda queda d’água, onde um pequeno lago se formou, represado naturalmente. Com o entardecer, organizo a fogueira delimitando o espaço do fogo com as pedras maiores. Ao retirar uma delas, percebo uma pequena estatueta entalhada em forma humanóide despontando para fora da terra. Levo o artefato para a cachoeira e o banho nas águas escuras. O correr das águas parece retroceder quando a toca e noto uma pequena pedra esverdeada em uma fissura entre o tronco e o pescoço. Ao tocá-la, a estátua desloca-se e, por uma fração de segundos, assisto o lugar à minha volta revelar-se imensamente maior, quando o curso d`água atingia muitas vezes mais o tamanho de agora. Ao ajustar novamente a estatueta, retorno para o presente. 
Não revelo a descoberta aos meus e sigo com o objeto pela trilha, de volta à estrada. Passo pelo carro estacionado próximo a um pontilhão e faço novo caminho até a margem do rio. Nessa época do ano, o nível baixo da água revela as grandes rochas do leito. Em alguns pontos é possível avançar dezenas de metros rio adentro sem sequer molhar os pés. É isso que faço, amparado pelo luar que ajuda a enxergar as pedras certas a pisar. 
Escolho uma rocha para sentar e contemplar a estatueta e ao mesmo tempo encaixá-la nas constelações que avisto no céu. De tempos em tempos, ouço ao longe os pesados caminhões passando pela ponte de concreto poucos quilômetros ao sul daqui. 
Quero visitar novamente o mundo paralelo e desloco o eixo central da estatueta. Subitamente o céu tornar-se púrpura. Olho ao redor e me deparo com o rio completamente seco, apenas com suas pedras milenares envoltas em areia. Retorno à mata e não há sinal da trilha que me trouxe. Decido caminhar até a grande ponte e dali buscar a estrada de acesso à cachoeira. Estou fascinado pela vegetação que vou encontrando, composta por folhagens arroxeadas e o que suponho serem flores de cor âmbar, além de árvores em tamanhos descomunais. Após a longa caminhada percebo que a ponte não está lá e, para meu desespero, não há qualquer vestígio de que um dia tenha estado. Descanso brevemente e retomo a viagem pelo leito seco do rio. Não tenho como precisar há quanto tempo estou vagando e nem se o conceito de tempo existe aqui, onde quer que este lugar esteja. Estanco ao ouvir batuques e avistar ao longe a claridade de uma fogueira, rodeada de seres desconhecidos. Percebem minha presença, o barulho dos tambores cessa e dá lugar a vozes inumanas. Caminho para a margem oposta na esperança de mover o centro da estatueta e voltar, mas só agora percebo que as minhas mãos estão vazias. 

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