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Klaus Henrique Santos 
Reside em Sinop-MT e é membro da Academia Sinopense de Ciências e Letras (ASCL), nela ocupando a Cadeira 10, cujo patrono é Jack Kerouac. Bacharel em Comunicação Social/Jornalismo. Publicou Páginas da Escuridão (2012), Enfim, a estrada (2014), Horror & Realidade: contos (Carlini & Caniato Editorial, 2015), No Compasso da Loucura (Carlini & Caniato Editorial, 2017) e A poesia mora no bar (Carlini & Caniato Editorial, 2018).

JARDIM DO JACARANDÁ MIMOSO

Ao Woodstock Bar

O bar nasceu por si só, feito a magia de todas as coisas inexplicáveis. Primeiro brotou e cresceu no jardim, avançou envolvendo o velho jacarandá e contornando a piscina e, por fim, invadiu a casa. Dali surgiu o corpo administrativo composto por gerentes, chefs e atendentes. Ao serem questionadas sobre a origem do bar, desconversam e juram que o estabelecimento sempre esteve ali, “com atendimento de terça a sábado e a cerveja mais gelada do universo”. 
As mesas em madeira ficam dispostas no gramado do jardim e disputam espaço com estátuas de gnomos, rochas do próprio terreno e incontáveis folhagens venenosas e flores brancas que não foram plantadas, mas que teimam em brotar diariamente de forma organizada ao redor das mesas, uma demarcação feita pela força que alimenta o organismo-bar. 
Descobri o lugar há cerca de um ano. Cheguei no início da noite e, sem notar os presentes, dirigi-me à mesa 10, que fica protegida pelo belo jacarandá florido, na parte central do gramado. Chamou-me atenção a felicidade com que trabalhavam, e a sincronização com que tudo fluía. Uma das atendentes, Isabel, possui um riso que se estende a uma gargalhada inconfundível, que ecoa e contagia o ambiente. Creio que de alguma forma, os pensamentos atinjam uma frequência comum quando adentramos o jardim. Só existe alegria, satisfação e o perfume exalado por aquelas flores brancas, que por si só é embriagante. É tentador permanecer plantado ali e esperar que nossos pés se conectem às raízes mágicas que dão vida ao lugar. 
Frequento o bar assiduamente desde então. Passo por uma velha Kombi abandonada próximo ao portão e vou direto para minha mesa, extasiado de alegria e rindo junto aos que vou encontrando. Antes mesmo de me ajeitar na cadeira, me trazem a Brahma e um copo gelado, prestígio conquistado por um habitué que compartilha sua preferência.
Semana passada estive lá, contemplando o contraste do céu estrelado com a copa do jacarandá, carregado com suas flores roxas nessa época do ano. Uma delas se desprendeu e desceu lentamente ao copo, tingindo a cerveja de um azul arroxeado. O aroma era muito tentador e entornei o copo de uma vez. Enchi outro e tomei, engolindo junto a flor desta vez. 
Naquela noite a Kombi hippie pegou para mim. O motor em absoluto silêncio impulsionou o carro e o vento me acariciou o rosto. Olhei o bar em penumbra pelo retrovisor e notei a ventania balançando a copa do jacarandá e desprendendo as flores, que ao invés de irem ao chão, preferiram ficar em uma ciranda dourada ao redor da árvore. Fechei os olhos e acelerei o carro sem motor. Em algum lugar naquele jardim encantado, Isabel gargalhava.

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