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Klaus Henrique Santos
Reside em Sinop-MT e é membro da Academia Sinopense de Ciências e Letras (ASCL), nela ocupando a Cadeira 10, cujo patrono é Jack Kerouac. Bacharel em Comunicação Social/Jornalismo. Publicou Páginas da Escuridão (2012), Enfim, a estrada (2014), Horror & Realidade: contos (Carlini & Caniato Editorial, 2015), No Compasso da Loucura (Carlini & Caniato Editorial, 2017) e A poesia mora no bar (Carlini & Caniato Editorial, 2018).

A CANTORA

Estava no bar quando ela chegou. Pedi mais uma cerveja enquanto a observava montar os equipamentos. Distraiu-se e quase derrubou o violão. Olhou-me e sorriu. Retribuí o cumprimento erguendo o copo. Éramos velhos conhecidos, mas nunca havíamos conversado, a não ser pelos bilhetes em que eu lhe pedia músicas. Pedi D’yer Mak’er por tantas vezes, que ela acabou incorporando a música em seu repertório. Pergunto-me se sabia quem lhe repetia incessantemente o pedido.
Era uma bela noite e o bar estava lotado. A cantora estava ainda mais linda do que de costume e a vi flutuar pelo bar. A voz dela fazia isso, possibilitava que flutuasse. Não há por que duvidar. 
Começou cantando Engenheiros, foi a ACDC, Janis Joplin e, quando o garçom me trouxe a décima cerveja, iniciou minha canção preferida do Led Zeppelin.
Meses depois, estávamos em uma turnê pelo mundo. Eu a acompanhava, apenas admirando e fazendo anotações. Planejava um livro sobre a vida da cantora. Bebia minha cerveja, ela cantava e eu anotava, assim por incontáveis luas. Perdia-me naquele sonho real e com ela vivia na estrada, viajando. Embriaguei-me num show em algum ponto equidistante da América do Sul, e dei por mim deitado nu em uma confortável cama de hotel. A cantora abriu a porta do aposento e entrou, também nua. Trazia-me uma bandeja de café da manhã, com pão e cerveja. Não falava comigo e, ao invés disso, cantarolava D’yer Mak’er. Abrimos as cervejas e brindamos. Nosso doce-amargo beijo de cerveja aconteceu. Algo macio, porém, cobriu-me o rosto. Não conseguia respirar e me tiraram daquela realidade.
Tarantino, o gato do bar, ronronava sobre a mesa e se encostava em mim, procurando carinho. Estava de volta à minha mesa solitária. A cantora já havia partido há muito tempo, mas, em algum lugar, nossa turnê mágica continuava.