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Klaus Henrique Santos
Reside em Sinop-MT e é membro da Academia Sinopense de Ciências e Letras (ASCL), nela ocupando a Cadeira 10, cujo patrono é Jack Kerouac. Bacharel em Comunicação Social/Jornalismo. Publicou Páginas da Escuridão (2012), Enfim, a estrada (2014), Horror & Realidade: contos (Carlini & Caniato Editorial, 2015), No Compasso da Loucura (Carlini & Caniato Editorial, 2017) e A poesia mora no bar (Carlini & Caniato Editorial, 2018).

UM TRECHO DO CONTO “PARALELOS”


A aldeia de Inaiê ficava próxima ao rio que um dia o homem branco chamaria de Teles Pires. Era interligada a outras comunidades mais à nordeste, por meio de largos e imensos caminhos. Seguindo o curso do rio, por incontáveis luas, ficava a antiga aldeia dos ancestrais, onde em um tempo muito distante foram levados pela Cobra-Canoa para ali se estabelecer. Vinha de lá o conhecimento que a todos garantia a farta alimentação que brotava da terra. Mais de mil anos depois, o homem branco encontraria porções daquelas terras férteis e as chamaria de “terra preta de índio”. O conhecimento para produzi-las, porém, se perderia durante o extermínio em massa dos nativos. Mas isso ainda demoraria quase mil anos para acontecer e Inaiê agora contemplava o preparo da terra. 
Faziam dezenas de fogueiras ao redor da aldeia. Os troncos, velhos e novos, eram empilhados a grande altura e logo cedo o fogo começava. Carcaças de animais e frutos apodrecidos também eram atirados ao fogo. Durante a noite, a fogueira virava um braseiro incandescente da cor do sol poente. 
Inaiê observava do alto de uma árvore. Um dia distante alguém comeria um daqueles frutos e jogaria a semente no rio. As águas a levariam para o outro lado da margem, onde se prenderia ao barro argiloso. Brotaria ali um enorme cajueiro que alimentaria os peixes e os homens. Séculos depois, a árvore morreria afogada quando uma enorme barreira de pedras feita pelo homem represasse o rio. Seriam quase dez séculos até que as águas dissolvessem o último pedaço do tronco do cajueiro que ainda ia nascer, mas do alto daquela árvore, Inaiê tinha relampejos e via tudo, enquanto lágrimas amargas deslizavam por seu rosto e se misturavam às águas esverdeadas do rio. Sabia ela que o seu corpo um dia estaria no braseiro e o seu espírito na floresta, cuidando de seu povo. Inaiê era a personificação do paralelo dos tempos, a começar por seu nome, manifestado na fogueira sagrada quando de seu nascimento, antecipando ao surgimento do próprio grupo que lhe daria significado, algumas centenas de anos depois. Naquele instante, queria que em algum dia, depois do futuro de dor e sofrimento, alguém escutasse os gritos que ecoavam do passado pedindo a salvação. No tempo de agora, mal sabia dizer em quantas vidas viria da floresta para viver com seu povo sem a consciência do tempo presente, para que sua mensagem viesse através de mãos estranhas e materializadas por meio de figuras desconhecidas e em símbolos que ainda seriam inventados. Conseguia ver um homem fazendo isso, dentro de uma oca de pedra. Ele suava e pintava a mensagem em um ritmo frenético. Inaiê gritou e despencou da árvore quando percebeu que dentro do seu olhar, o homem a observava. Era o homem que partilhava com ela o mundo dos sonhos e lá via o que já se passou, enquanto ela via o que estava por vir.