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Klaus Henrique Santos

Reside em Sinop-MT e é membro da Academia Sinopense de Ciências e Letras (ASCL), nela ocupando a Cadeira 10, cujo patrono é Jack Kerouac. Bacharel em Comunicação Social - Jornalismo. Publicou Páginas da Escuridão (2012), Enfim, a estrada (2014), Horror & Realidade: contos (Carlini & Caniato Editorial, 2015), No Compasso da Loucura (Carlini & Caniato Editorial, 2017) e A poesia mora no bar (Carlini & Caniato Editorial, 2018).

COMPAIXÃO

Estava na mesa olhando as borbulhas no copo de cerveja. Ergui-o de encontro à luz e quase o derrubei ao ver o rosto de um menino morto ali dentro. Voltei a mim e ele estava sentado ao meu lado, encharcado como no dia em que morreu. 
Olhou-me e sorriu. Seu hálito pútrido exalava morte. Tocou uma de minhas mãos e pude ver o momento de sua partida. Era um sábado à noite e a família estava viajando para visitar a avó de Alex, que havia sido internada às pressas em um hospital da capital, centenas de quilômetros distante da província. Tudo corria bem, quando, próximo a uma ponte, uma carreta tocou a traseira do Kadett Ipanema em que a família estava. O pai de Alex esforçou-se para manter o controle da direção, mas o carro derrapou e a barra de contenção da ponte não conseguiu segurá-lo. O menino foi o único a sair. Os pais e os dois irmãos foram sepultados no carro. Mesmo sendo um exímio nadador, Alex não conseguiu vencer a correnteza, que o empurrou de encontro a uma barreira de pedras. Bateu fortemente a cabeça e desmaiou. Em seguida, as águas também o enterraram. Seu corpo foi encontrado cinco dias depois, preso à galhada de uma árvore.
O garoto lamentou-se pela morte precoce, dizendo-me que estava extremamente só. Desde o acidente, ele não vira mais a família. Queria me fazer companhia, pois disse saber o tamanho da minha solidão. Senti gratidão pelo pequeno fantasma e lhe ofereci bebida, que ele recusou. Pediu apenas que, assim que me fosse possível, procurasse pelo túmulo da família no cemitério, acendesse algumas velas e orasse. Alex anotou algumas frases no meu bloco, sobre o que eu deveria dizer quando estivesse diante dos restos mortais da família. Anotou também os nomes que estariam lá, já que Alex era o nome com o qual ele iria reencarnar. Prometi atender-lhe o pedido e tomei nota de tudo. A amnésia alcoólica, porém, mais uma vez triunfou. 
Hoje, meses depois, encontrei parte das anotações no porta-luvas do carro. Infelizmente, perdi a página onde estavam anotados os nomes da família. Vou para o bar mais tarde, beber sozinho naquela mesma mesa. Talvez o fantasma do menino mais uma vez se compadeça da minha solidão e apareça para um papo. Talvez nesta ocasião ele aceite um drinque enquanto escreve em meu bloco de anotações. 

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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