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Klaus Henrique Santos

Reside em Sinop-MT e é membro da Academia Sinopense de Ciências e Letras (ASCL), nela ocupando a Cadeira 10, cujo patrono é Jack Kerouac. Bacharel em Comunicação Social - Jornalismo. Publicou Páginas da Escuridão (2012), Enfim, a estrada (2014), Horror & Realidade: contos (Carlini & Caniato Editorial, 2015), No Compasso da Loucura (Carlini & Caniato Editorial, 2017) e A poesia mora no bar (Carlini & Caniato Editorial, 2018).

O MENINO QUE TINHA A CHAVE
DA BIBLIOTECA PÚBLICA

Faceiro e serelepe, o menino passava as tardes quentes em um parque a poucos quarteirões de casa. Às vezes, a molecada da vizinhança se juntava, mas na maior parte do tempo divertia-se com a própria imaginação. Foi num desses dias solitários, quando descia de um cajueiro na parte central do parque, que encontrou pendurada em um galho, a chave da Biblioteca Pública da Província. Era uma pequena chave de cobre, com um chaveiro em couro novinho e que levava marcado o endereço do lugar. Olhou ao redor na vã esperança de encontrar alguém, mas o surgimento do objeto parecia mesmo coisa armada. Corajoso feito os desbravadores da região, decidiu pela aventura urbana.

O local era longe de casa, mas o menino sabido cortou caminhos em terrenos baldios, casas abandonadas e seguiu explorando as ruas da Província guiada por uma bússola imaginária. No esgotar de duas horas, chegou ao enigmático prédio que guardava os “objetos do demo”, como costumavam se referir aos livros por aquelas bandas. No correr de seus dez anos, o menino ouvira os pais e os demais provincianos falarem exaustivamente sobre o quão perigosos eram os livros, mas decidiu arriscar-se e ver por si próprio antes de maldizer aqueles aglomerados de papel, tinta e cola, os quais mal conhecia. 

Para grata surpresa do menino, encontrou naquelas páginas exuberância e vida que jamais pensou existir. Descobriu que a beleza do mundo não estava toda contida no parque em que passava os dias. Descobriu-se pequeno, menino e humano.

Não contou a novidade em casa, nem para os pais nem aos irmãos. Iam dizer para largar daquelas besteiras. Os dias se alternavam no parque e na escola, onde disfarçava a compreensão das letras. Após o jantar preparado por mamãe, ia para a biblioteca e passava as noites a correr entre as estantes e a encenar passagens dos livros que lia. Interagia com os personagens, comia, ria e chorava com eles.

Muitos foram os homens de bem a comandar a Província , mas nenhum deles se deu conta de que a chave da biblioteca estava com ele, afinal, naquele lugar, o único conhecimento que interessava era sobre as commodities que brotam da terra. Livros, só os básicos da escola, os que falassem de santos inventados e aqueles produzidos sobre os próprios provincianos. 

O menino cresceu com a chave e virou homem, na biblioteca. Foi quando contou o segredo que a ninguém interessava, a uma colega, Dora. Levou-a para uma noite de leituras à luz de velas na biblioteca. O vinho, que agora ele bebia, se encarregou dos pormenores e entregaram-se ao amor carnal ali entre os livros. Repetiram o feito incontáveis vezes, muitas delas inspirados pelas descrições encontradas em livros eróticos ilustrados. Não demorou para que os pais da menina descobrissem a afronta, ocasião em que surraram-na e ameaçaram de morte o menino pecador.

Sem a companhia de Dora, seu grande amor, o menino começou a ir também durante os dias à biblioteca e notou que a responsável nunca estava por ali. Retornou nos dias seguintes e tudo permanecia na mesma. Aparentemente, a bibliotecária também havia se esquecido do local, em desuso há décadas. O menino percebeu por fim, que a exceção dele e de sua amada, todos na Província haviam se esquecido de que aquele prédio no centro era uma biblioteca. Fez uma faixa e anunciou os livros na porta de entrada, imitando os vendedores de lojas de eletrodomésticos das imediações, mas ninguém olhava. Os livros eram invisíveis e o menino blasfemador, indesejado.

Revoltado, trancou-se na biblioteca. Em casa avisou durante algum tempo onde estava, mas foi aconselhado a plantar algo que valesse dinheiro. Desistiu do mundo exterior e se encerrou em seu mundo. Decorou as paredes com escritos e está se alimentando somente de livros há anos. Um ataque de traças causou-lhe grande aflição, mas conseguiu exterminar a praga. Anos antes já havia superado o desligamento de energia elétrica do prédio inútil. 

Passaram-se as décadas e num entardecer de agosto de algum ano da graça, o menino já idoso, expirou entre os livros. Há quem relate ouvir conversas de pessoas naquele prédio abandonado no centro. Dizem que o local já pertenceu à prefeitura, que estocava ali materiais inúteis nas lavouras. Contam que um menino morreu lá dentro certa vez, mas antes cometeu o sacrilégio de dizer em casa que a terra não era plana e acabou expulso. Por receio em libertar da biblioteca a loucura que acometeu o menino ou alguma praga que ameace as plantações, a chave foi atirada em uma mata e o prédio lacrado. Assim deverá permanecer por todo o sempre. Amém!