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Karina Oliveira 
É paulistana de sangue baiano, é jornalista e comunicadora. Graduanda em Letras pela Universidade de São Paulo, viu na arte da escrita poética seu lar pessoal. Já atuou como repórter e redatora. Hoje, gravita entre o universo das pautas, dos contos e da poesia.

O CÃO

“Espere aí, na porta”, dizia a velha à criança, como se existisse uma linha imaginária que as separavam. De um lado, a pequena, filha da inquilina, aguardava, sem se mover, do lado de fora da casa, num pedaço pequeno de quintal, que mais parecia um corredor. Do outro, a dona da casa, que, por dentro da residência, ditava as regras.
“Não entre” era a frase mais falada. Acostumada, a criança já nem dava a intenção de que fosse entrar. Como um cachorro, foi adestrada para respeitar os limites invisíveis de onde poderia pisar, mas ansiava que, se se comportasse bem, poderia conhecer os mistérios interiores daquela casinha. O que teria lá dentro? Um mundo secreto de adultos gigantes? Ou escondiam um bicho-homem com ares grotescos? Não sabia. Apenas imaginava.
Mas, mesmo que pequena, seu coração sentia a rejeição dos grandes; a seriedade na voz, mesmo dizendo em tom sereno com um sorrisinho no final. Isso, às vezes. Na maior parte, era um firme e estridente “espere aí fora!”.
“Mas por que até o cachorro da casa pode entrar e eu não?”, pensava a criança. Não entendia.
E a mesma frase era dita pela filha da dona da casa, ainda criança, que, como um espelho, refletia as mesmas palavras com o mesmo tom impetuoso: “espere aí fora. Não entre”. E como um cão, com o rabo entre as pernas, ela saía triste e aguardava no quintal.