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Júlia de Carvalho Hansen
(São Paulo, 1984) é poeta e astróloga. Autora de livros publicados no Brasil e em Portugal, o mais recente deles é Seiva veneno ou fruto (Chão da Feira, 2016). Mestre em Estudos Portugueses pela Universidade Nova de Lisboa, é formada em Letras pela Universidade de São Paulo. Os poemas abaixo são de Romã, livro inédito de Júlia de Carvalho Hansen, a ser publicado pela Chão da Feira em 2019.

FOGO CRUZADO

Queria escrever com ódio o teu desaparecimento
erguer fúrias e avanços como fazem
a lava, os tsunamis e os delirantes.
No entanto mandei outro e-mail
falando do vermelho dos pássaros do Índico
como no jazz o drible da constância é a própria duração
de umas gotas de chuva na nuca
região fadada à incorporação de entidades
às tensões musculares, aos arrepios
à necessidade da cabeça se curvar
coisas talvez que te lembrem na vida
do que gostas — é tudo movimento
e é importante que tu não desapareças de vez.
Ter um anzol, um ponto de regresso, farol
esquecer que, no fundo, os suicidas têm sempre razão.
Quando você foi visto há 150 quilômetros de casa
rumo à Moldávia, Botswana, Brasil
ou qualquer um desses lugares que só existem nas aventuras
dos teus livros lidos desde menino
percorrendo a eletricidade do teu corpo
— disseram os que te viram — cacos de vidro
arames retorcidos no lugar das ideias
uma grande incapacidade de ser insensível
somada ao egoísmo que todos temos.
Que tornou argamassa o horizonte?
Antolhos é o nome do acessório de tapar a visão
dos animais a carregar fardos maiores do que eles.
Ou qualquer coisa assim na tua face
os 150 corpos mutilados
mortos estampados nas capas dos jornais
eu espero que você não tenha visto
no longo caminho pra longe de si
as notícias dos últimos dias.
  

 

 

 

 

FERRUGEM

Em muitos dos dias que são quaisquer
água com gás às vezes me lembra você
embora o girar que despressuriza a garrafinha
tenha levado o seu nome embora da minha boca
 
numa lenta dissipação como derretem
os teus sopros no ouvido de outro alguém
ou o assobio que não sai dos teus lábios
quando a noite chega e você não tem ninguém.
 
Chocolates guelras e serpentes eu beijei
a tua língua tinha às vezes gosto de papel
como a praia da enseada às vezes o horizonte
é nítido e fica azul como o dia de amanhã.
 
Foram anos assoprando o esquecimento — eu escrevia
mas às vezes alguém esquece de amarrar os sapatos
tropeçando em cada esquina, curva
onde você não estava.
 
Aposto as vezes que você acorda com os trovões
te fazem cerrar as pálpebras como os gatos
saltaram no momento em que a luz oscilou
a boca do porvir se abriu
 
por dentro de mim com seu hálito
de garganta, o seu bafo de sol
oxidou meu coração
brilhou.
 

 

 

 

 

EXÍLIO

 

Já estive tão certa de mim.
Hoje me levanto vertiginosa como uma fibra de trigo
como um girassol plantado ao acaso um catavento
o meu pensamento roda com o passar do tempo
em que ficamos sem nos ver.
 
No tempo em que ficamos sem nos ver
perdi alguns amigos — voltei a cozinhar.
Mas houve um dia em que eu fiquei tão triste
pra você ter ideia meu celular corrigia saudável por saudade
e eu me comovia com o passarinho encolhido atrás de uma flor
e a flor mesmo através do vento mexida e revigorada.
Uma coisa estúpida de tão pequena.
 
Como eu. Fiquei tão triste que a boca me caiu da boca
depois tão amarga a boca passou dias a desencalacrar
um ou dois nomes de dentro de mim já
seria o suficiente uma ou duas ausências
mas em pouco menos de um mês perdi
57 milhões de habitantes a boca da noite caiu
era uma dentadura quem diria uma dentadura.
A constituição não sabe se há de aguentar este corpo.
 
Ficou tudo tão triste que saí pra tomar sorvete.
Fiquei com medo de contar isto pra mais alguém
tão nublado o tempo, podem me apontar: há contradição
entre se estar tão triste e sair pra tomar sorvete
uma problematização sobre a qual este poema passou raspando.
Agora vou mergulhar como um parafuso.
 
Isto desde o começo é só pra contar que na esquina em que nos despedimos
alvoroço e delírio um casal tão mais jovem que eu mais jovem que você então
nem se fala o quanto se beijavam com a língua da ênfase
tentei invejá-los — mas não consegui, o meu espírito foi sequestrado
pela alegria do chocolate na minha língua, eu não sei o que é gianduia
você certamente saberia me dizer mas não diria exatamente
não sei se por insegurança ou charme quem sabe piscaria lentamente
os olhos e se afastaria — eles não.
Eles foram embora abraçados.

 

 

 

 
PLURAL

Não, não vá pensar na falta de propósito da vida esta noite
sua ambição seria delinear um abismo
pois modéstia você não encontra nem quando vai ao fundo
nem vá saltar as incertezas num punhado de fumo
a marejar os horizontes, os sentimentos e as calcinhas
e as meias trocadas de gaveta com elas
tudo um pouco mais bagunçado do que deveria
em nenhum canto desta casa há fogo
talvez encontre nos fósforos que você roubou dum restaurante
de peixe fresco e trouxe da Califórnia um sentido
talvez observar na faísca a dilatação da fenda
acendesse a capacidade de se iluminar
pelo sabor do vento que foi o primeiro toque
toque que a vida fez no seu rosto lembrança
quando seu corpo era só o luto
de alguém que em ti morreu
talvez este alguém vivificado pelo vento
talvez o acúmulo de nuvens da cor da cidade no céu
talvez você seja capaz de juntar um girassol a dura noite
tornar proibido que pessoas com menos de 25 anos possam alguma vez ser tristes
porque isto te faz sofrer
e no fundo é uma ambição ser simples
num gesto mágico
estou tão apaixonada pela densidade de cada coisa
que quero atravessá-las todas com os meus lábios
mas não quero que você traga nenhum peso para dentro
nisso
nem o cansaço nem o medo mas traga um pouco de rigor
a beleza das plantas carregando gestos de saúde
e o fato de que você não consegue ver ninguém
como um mestre
porque estamos todos perdidos mesmo
de nós dois, dos dias
talvez você possa acolher o instante
e tornar-se frágil
faz parte dessa sabedoria
assim como você aprendeu nos livros
a ouvir o que você sente
os órgãos também estão cheios de saúde
como os seus amigos que respiram todos os dias
todos os dias têm tantos gestos de saúde
que não acreditariam em você falando tanto
consigo mesma na segunda pessoa
e tão multiplicadas as vezes no plural.