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Juçara Naccioli 
É graduada em Letras – Literatura e Especialista em Teoria e Prática da Língua Portuguesa, ambos pela Universidade Federal de Mato Grosso. Atua como professora de Linguagem há 23 anos. Poeta integrante do Coletivo Maria Taquara - Mulherio das Letras/MT e Coletivo Parágrafo Cerrado, pelo qual faz leituras de cenas de peças teatrais. Atriz. Professora de Oratória e expressão pessoal. Foi finalista do Prêmio Off Flip 2019 (poesia).

BANQUETE AOS COMENSAIS

Língua em movimento lento, ar tépido, úmido, articulação perfeita. Fluidez do sussurro inteligível pelo carmim infinito. Lábios carmins e lóbulo. Fluidez do inesperado imperativo “Não”. Respiração ofegante, pupila dilatada, estímulo provocado pelas sensações visuais e auditivas. As curvas excitam, o “Não” estimula.
Pulsação. Cérebro latejante.
Ao cruzar o foyer, as formas curvilíneas e a ginga dos quadris avantajados causaram desconforto aos convidados. Quadris desconhecidos, potencializados pelo inebriante rastro de suntuoso perfume. De quem seriam os extraordinários seios que atravessavam o salão?
Sem dúvidas a pele macia e perfumada seria mais saborosa que o jantar servido aos nobres ali presentes.
A boca volumosa tinha inegavelmente valor mais estimado que as placas que seriam entregues como prêmio de reconhecimento ao seleto grupo de intelectuais daquela noite opaca e sem vigor. 
Os olhos semicerrados do requintado salão procuravam   cúmplices para celebrarem o banquete dos comensais. 
Nas proximidades da mesa formava-se instintivamente o balé de movimentos discretos e precisos dos machos dominantes, desejo de atenção da misteriosa dama.
Inúmeros eram os questionamentos que surgiam em torno da degenerada. Estaria à espera de um figurão da alta sociedade?  Ou no aguardo do convite de algum dos presentes? Por que estaria ali entregue a todos e a nenhum? De quem seria o corpo sem dono da festa? Quanto custava?
Ela, elegante, bem ajustada em requintada veste. O longo e comportado vestido trazia o azul, prenúncio da noite enaltecida pela sutileza do prata. Jóia de raro valor.
À espera da taça de vinho discretamente analisava e tipificava cada espécime. Elencava todos, dos mais próximos aos mais distantes, aqueles que ainda estavam sentados à mesa com suas herméticas famílias à tiracolo.
Elite degenerada.
A mesa reservada à jovem senhora parecia estar em posição privilegiada. De lá a visão completa de cada canto do salão. Vista para todas as mesas. Em um zoom preciso o olhar era capaz de captar cada fisionomia desagradada de sua presença. O seu vinho, madame! Posso servi-la em mais alguma coisa? Perguntou o maitre.
O perfume da mulher não dava trégua, tomou conta do ambiente, pairando como névoa tóxica invisível. Feromônio. 
As honrosas senhoras podiam sentir, assim como seus digníssimos, o desejo impregnado no íntimo das suas genitálias. Batimentos descompassados. Entorpecimento. 
Desejavam com fervor sexo demorado e lento, imoral e ilegal com o corpo robusto da meretriz. Queriam tudo e mais. Queriam aquilo que nunca lhes havia sido proporcionado. 
Sem entender muito bem, as adoráveis percebiam que invadiam os pensamentos mais íntimos de seus cônjuges. Queriam o ato ali, o coito puro sob à vista de todos. Dominação. E viam o fim adiantado, a retomada de consciência com ar triunfante, o cansaço de pós-gozo e moral incólume. 
De onde vinham esses pensamentos, de quem eram essas sensações? 
Mentes crochetavam escabrosidades acerca da desconhecida. Resultados de amores frustrados, talvez. Solidão entre universos. Inaceitáveis fracassos familiares. 
A questão não era estar ou não confortável naquele lugar; aliás, as circunstâncias não traziam nada de novidade. A distinta tinha objetivos traçados para a noite. Ao que se percebia já tinha certa afinidade com os olhares de flerte e fuzilamento. Incômodo algum, menos ainda sobre os olhares desafiadores.
Nem as centenas de luzes brancas, nem a suavidade da música clássica orquestrada, nem o som dos brindes das taças servidas dos melhores espumantes e vinhos eram capazes de capturar a atenção dos falos que estavam voltados para ela. De ímpeto, um deles se aproxima.  Se reservou ao direito de não pedir licença e não se apresentar - O que vc quer para ficar comigo essa noite?
Aproximou-se um pouco mais, sentiu o perfume dos cabelos cacheados e volumosos, tocou-lhe a nuca e junto ao seu ouvido sussurrou. - O que você quiser.
Em seguida, colocou o seu lóbulo próximo aos lábios dela à espera de resposta que o satisfizesse.
Língua em movimento lento, ar tépido, úmido, articulação perfeita. Fluidez do sussurro inteligível pelo carmim infinito. Lábios carmins e lóbulo. Fluidez do inesperado imperativo “Não”. Respiração ofegante, pupila dilatada, estímulo provocado pelas sensações visuais e auditivas. As curvas excitam, o “Não” estimula.
Pulsação. 
Cérebro latejante.
Deu um leve sorriso e soltou a nuca. Ambos mergulharam e encontraram-se na profundidade dos olhares. Um brilho incomum do olhar feminino roubou-lhe a alma.
O cheiro do vinho misturado ao perfume dela provocou leve vertigem.
O olhar de castanho penetrante e frio afastou qualquer possibilidade de retomada de diálogo. Ordem cumprida. O homem ficou inerte enquanto a dama atravessava o recinto. 
Silêncio.
No chão de taco, uma onda vibratória de efeito hipnótico causada pelo som fino e seco dos saltos da sandália tomou conta dos espectadores daquele incógnito torso, agora parado à porta de saída.
Soltou um leve sorriso de carmim. Desceu as escadas e foi embora.
Egrégora. 
Para trás ficaram gravatas e cintos afrouxados, vestidos desabotoados. Encontros de corpos nus desconhecidos.
Corpos sem donos.