José Pedro Rodrigues Gonçalves
É médico, escritor e poeta que observa com rigor o que escreve, numa demonstração de responsabilidade pela qualidade quase poética daquilo que produz. Em Tragicomédicas, seu primeiro livro, resgatou as histórias de seu tempo de estudante de medicina no Rio de Janeiro e de parte de sua vida profissional em Cuiabá. Em Bauxi reconstruiu poeticamente a cultura rural do interior de Mato Grosso em meados do Século XX. Em sua terceira obra assume o lado cientista, em um livro de textos que trata do cuidado com a vida. Da Cura para o Cuidado apresenta uma nova forma de olhar a atenção à saúde, lançando luz sobre as vulnerabilidades humanas, locus originário do adoecer humano. Agora, em Lavapés, resgata um Bairro esquecido, um dos berços da cultura, das artes e do esporte em Cuiabá durante o Século XX, mostrando a origem real do seu nome, a fonte que, embora aterrada pelo asfalto, ainda permanece em silêncio, aguardando o seu ressurgimento naquela mesma esquina. 

NEM PINK FLOYD,
NEM SAI DE CIMA

Pink Floyd canta The Wall – 
um clipe de uma hora e meia de duração... 
...eu penso na vida, 
no mundo e no wall que Pink Floyd canta.
 O muro que separa os homens.
The control, 
como a música fala, 
como fala de tantas coisas 
a respeito do humano não humano, 
desumanizado, 
que imagina o mundo ao seu modo 
e não vê o mundo dos homens, 
nem os homens no mundo. 
O controle da educação deseducada, 
que torna cada ser um meio-ser 
ou um não-ser, 
non sense, 
nem pense que estou enganado... 
A besta vê a besta ser o homem 
e o homem se tornar a besta do apocalipse, 
da elipse e do eclipse 
que enubla a visão do ser 
que não quer ser nem deseja ver.
Há uma flor que come flores, 
carnívora, 
devora, 
adora devorar o ar tão poluído, 
atrevido o ar de ser um bom mocinho,
no ninho da serpente, 
e a gente se imaginar ser, 
do ar o dono, 
do mar o abandono 
e o nono cavaleiro do apocalipse da elipse. 
The wall, 
the control sobre todos, 
nós todos, 
todos nós desesperados 
pelos nós em nós somos atados, 
amordaçados 
pelo control do wall de Pink Floyd.
The wall fala da vida, 
do mundo, da droga da droga, 
até da sogra viúva pela guerra nos vilarejos 
do mundo globalizado pelo desejo 
do controle da mente humana desumana.
Há um resto de mobília, 
uma trilha sonora do ruído, 
do barulho, do baralho, 
do carcará sanguinolento que come sangue e não bebe vinho, 
um sozinho guerrilheiro na imensidão do planeta, 
da planta que mais alto se levanta 
e se cala pela bala que abala a vida 
ávida de morte. 
Há a má sorte do norte, 
de ter poder e não ser o que se deseja 
ou se almeja ao beber cerveja bem gelada no colo da amada. 
The control assume o controle 
da imensidão
do não servir aos desejos dos seres 
e, também, dos dizeres disciplinados 
dos meninos ensimesmados 
pela vaidade da idade ainda não definida. 
A vida da cidade na idade da vida, 
da vontade, da comida não comida 
pela fome que não tem nome nem renome, 
o homem mesmo compadecido 
e envaidecido resolve 
pelo revólver 
fazer o certo bem de perto 
na cabeça de qualquer um
...bummmm, 
acabou-se o que era doce, 
minha gente, 
olhe de frente e entenda 
que a tenda não atende 
nem pretende mais atender 
a proteção do coração humano.
Ah! Pink Floyd nem sai de cima 
de nossa cabeça sem cabeça 
que só pensa no que não se pensa 
nem deve ser pensado, 
o cansado ser humano,
desumanizado, 
desagregado, 
sem grego nem troiano, 
deve, no final do ano, 
tornar-se o que nunca foi.
Uma migalha de palha para empalhar 
a parelha de ovelha deslanada, 
nem lã e sem mais nada, 
passando frio como menino 
em julho ou agosto,
sem vergonha no seu rosto, 
nem posto nem dividido, 
mal pago, mas não perdido, 
conforme diria a gíria do girino 
quase um felino de tanta felicidade 
ou facilidade de se perpetuar 
no dividir sem nenhum esforço.
Eu dividido, 
ardido, comovido, corrompido, 
rompido o corpo de tanto trabalho, 
o malho, o carcará com alho 
bem temperado e ouvindo música, 
sentindo a mísera da verde relva 
de sob a rede de intrigas, 
brigas, formigas 
e outras figas desencontradas, 
nem sempre atrapalhadas 
pelas tresmalhadas proles 
do engole e desembucha na casa da Xuxa 
ou seria da Maria de qualquer coisa?
Lembrei-me de outra Maria, 
Maria do Liberdade, 
daquela periferia da cidade muito pobre, 
onde encobre com poucas tábuas, 
simples, desencontradas, 
sua miséria sem nome, 
sua fome desmedida, 
sua vida clandestina, 
sua sina de Maria, 
filha de sonho e de pobre. 
Volta e meia, meia volta, 
solta a cabeça no voo e sai voando de novo 
como saindo do ovo ou da ideia do povo 
que sonha com tanta coisa, 
mas que coisa tão sonhada, 
seria asa pra voo ou ovo pra ser comido? 
Coisa de pobre the control, 
the wall para inglesver, 
um verbo novo criado 
pelo cuidado de ser
um falador de estrangeiro 
carregado de dinheiro, 
the wall...
...que coisa seria isso, 
frango preto com chouriço, 
ou caniço de pescaria, 
perna fina de Maria, 
seus ossos tíbios sem cálcio?
The control, the wall, 
o muro descontrolado, 
desesperado e perdido, 
o muro no meu caminho, 
meu desalinhado muro, 
caindo pelas tabelas, 
pelas velas deste escuro. 
É muro que só limita 
o limite de uma mente, 
da mentalidade livre, 
bem controlada e dobrada 
na sua dignidade, 
cidade fortalecida pela ferida na carne, 
no cerne da consciência, 
na ciência de mandar pelo verbo controlar.   

 

Em 5 de agosto de 2011

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