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José Eduardo F. M. da Costa 
É indigenista. Especialista em Antropologia e Mestre em Geografia pela UFMT. Em 1979, mudei para Mato Grosso para trabalhar com os povos indígenas. Por muito tempo morei nas aldeias Nambiquara e Potiguara. Nesses anos de vivência conheci outras etnias. Na caminhada, o encontro com Anna, o multiverso, a dádiva de compartilhar amizades e ancestralidades. E as miragens e sonhos foram clareando...

PEDRAS QUE ENLAÇAM ESTRELAS AOS SETE CANTOS DO MUNDO

Próximo à cidade de Cuiabá acha-se o Morro de Santo Antônio ou Toroari. Toroari é a representação do baito, casa central de um território de vivências Boe-Bororo, cujo esteio principal é simbolizado pelo jatobá, árvore dos heróis míticos Méri (Sol) e Ári (Lua). É a passagem que interliga o mundo subterrâneo (subaquático) ao terrestre e aos celestiais. O eixo Leste/Oeste divide ao meio a aldeia e o baito e estrutura duas metades exogâmicas, Ecerae, os donos dos cantos, ao Norte, Tugarege, os cantadores, ao Sul. O caminho solar compõe a trama da vida e da morte, o eixo da ancestralidade e dos progenitores míticos. Este caminho é interseccionado pelo eixo dos espíritos, cujos mais significativos se apresentam como felídeos: os do Zênite são luminosos, humanizados e benéficos, os do Nadir são sombrios, perigosos e selvagens. Cada metade é constituída por quatro clãs, e estes se dividem em subclãs que orientam-se pelos pontos cardeais e vinculam-se às diferentes linhagens maternas que definem o legado material e simbólico de seus membros. O território forma um rizoma sustentado pelas linhagens maternas, associada a diversos heróis culturais, um continuum tempo-espaço. 


O morro Toroari está vinculado à inundação universal. Merire Póro, “a porta do Sol”, sustentou o fogo de um tição em suas mãos e do alto do Toroari fez a fúria das águas recuarem. Ninguém sobreviveu ao cataclismo. Merire Póro se uniu a uma cervídea ou guaçuetê e repovoou a terra, restabelecendo a cultura Boe-Bororo. Num segundo aspecto do mito foi Jerigi Otojiwu quem se salvou da inundação e, igualmente, com um tição, fez as águas abaixarem. Seu assobio persistente nas auroras fez aparecer outro índio portando um tição para em seguida emergirem todos os índios da casa central, baito. Jerigi está associado à estrela Rigel da constelação de Orion e à caça. Guaçuetê é vinculada à constelação de Centauro. Pobógo Imédu, a Alfa, e Pobógo Arédu, à Beta, de Centauro, as quais integram a constelação Cruzeiro do Sul como uma única constelação, denominada pelo Boe-Bororo de “Perna da Ema”. A Guaçuetê expressa o aspecto feminino e o cultivo da terra.


As constelações para os Incas e para diversos povos ameríndios podem ser formadas pelas manchas escuras do céu, como a constelação Zorra, raposa, ou pelos brilhos das estrelas, como a Cruzeiro do Sul e Orion consideradas Chakanas, isto é, são vistas como cruzes piramidais. Orion, o construtor de pontes e jaguar celestial, é reputado como a mais importante constelação incaica, pois ao percorrer o eixo Leste-Oeste confere completude aos dois hemisférios celestes. É morada de Wiracocha, que presenteou o soberano Inca com Sirius ou Wilka Wara, estrela sagrada, com intuito de proteção e sabedoria. A constelação do Cruzeiro do Sul é sempre observada ao lado da constelação da Lhama, visualizada pelo contorno da mancha escura mais próxima. Seus olhos são as estrelas Alfa e Beta da constelação de Centauro e na mitologia andina responde pelo ciclo cósmico das águas. É a mãe das almas. A Lhama celeste, ao beber as águas da terra, regula as chuvas e impede o dilúvio. 


O alinhamento astronômico de Orion separa a capital incaica em duas metades, ao Norte (superior), os habitantes comprometidos com a guerra e o governo, e ao Sul (inferior), com a religião e agricultura. Cusco, com um padrão urbanístico semelhante a um jaguar, em seu centro fica o templo Coricancha ou do Sol sustentado por um pilar central, Tunu, representação da montanha ou árvore mítica andina. No templo, os Incas cultuavam o Sol, Inti, e sua esposa, a Lua, Killa, além de Vênus, e de outros astros e estrelas. Do templo emana, em direção aos quatro pontos cardiais ou Suyus, linhas telúricas e espirituais, Seques ou raios que interligam os lugares sagrados, moradas de entes guardiões, Huacas, alcançando os confins do império. Caminhos patrilineares. 


Acredita-se que uma das linhas ou caminhos, a do Tunu Acap (El’Dorado) alcance a Chapada dos Guimarães. Para observação dos astros e do sol zenital, pelos caminhos os Incas construíram os Suqanqas, pilares de pedras, altares astronômicos com função agrícola e cerimonial. É o jogo de sombras e luz, necessário à leitura dos signos da cartografia sociocósmica. Em Coricancha, Orion também representa passagem, ascenso (zênite) e descenso (nadir), entre o celestial, o terreno e o inframundo (subaquático), eixo central que interliga o quinto Suyu, o mundo sutil, aos seres humanos e não humanos, capaz de transmutar o caos em cosmo. 

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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