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José Danilo Rangel 
Nasceu em Itaitinga, interior do Ceará, em 1984. Em 1993, mudou-se, com a família, para Porto Velho, Rondônia. Embora gostasse muito de ler, detestava a poesia. Muito literal, não entendia o motivo de alguém “dizer uma coisa querendo dizer outra”. Em 2006, contudo, apaixonado, escreve um soneto. E o declama. Começava ali a relação que dura até hoje, entre ele, a poesia e a musa. De lá pra cá, participou de muitos saraus, editou uma revista digital e teve poemas publicados em diversas coletâneas. Atualmente, produz zines e cordéis, distribui “livrinhos de poesia”, no projeto “Poesia Grátis” e mantém perfis literários nas redes sociais. Todo domingo, em sua página do Facebook realiza a live “Poeta ao Vivo”, onde lê poesia, indica livros, entrevista convidados, etc.

SOBRE FURAGEM

Acabei de ler o livro de poemas da amiga Divanize Carbonieri, Furagem, o título. Comento aqui alguns motivos de ter gostado. Bastante. Ressalto que não sou crítico literário, sou poeta e leitor (e fã da poeta), então, vou falar o que me pegou. Sim, vai ser um discurso parcial. Talvez muito. E em tópicos:

01. CURTA E GROSSA
Os poemas são curtos, a autora não é do tipo que se derrama, ela concentra a força do que diz em poucos versos. Em Furagem, ninguém quer te vencer pelo cansaço, quer te pegar desperto e acertar a tua cara.

02. SEM SINAIS
A autora não usa sinais de pontuação, não há vírgulas, nem pontos, nem travessões, só palavras. Será que ela não sabe usar? Será? Sabe sim! Sabe tanto que prescinde. Ela maneja tão bem o texto que a gente vai lendo e se ligando nas pausas, no ritmo, no que está sendo dito.

03. FAUNA
Não lembro de ter visto flor ou planta nos poemas, lembro de um coqueiro, mas no mais, é bicho! Tem bicho que arranha, que morde, que ameaça, tem montaria, tem caramujo, peixe, víbora, lobas, etc. Fora isso, lâminas, objetos perfurocortantes e muita contundência.

04 SORORIDADE
Furagem é dividido em três partes e Couraça foi a que mais me chamou a atenção. Os poemas aí falam de ser mulher, e autora fala tanto como vítima quanto como quem entende a lógica que vitimiza. Não que o tema não respingue em outras partes, mas é aí que fala mais abertamente, com a raiva apontada para um alvo mais bem definido. Assim, a sororidade não aparece como apoio, surge nos momentos em que Divanize revela/expõe/denuncia (e avacalha um pouco) a lógica da opressão que pesa sobre os ombros dela e das mulheres em geral, a forma como ela retrata isso, com fúria e um tanto de deboche é espetacular. Eu até ri (de nervoso).


05. DOMA (Trecho)
a doma das mulas
começa cedo nas
salas das casas
doces devem ser
todas as moças
meninas mansas
para aceitar bem
o açoite no lombo
mas umas são lobas
(...)

06. O LIVRO É LINDO
O livro é lindo, bem acabado, folhas de qualidade, tem um cheiro bom, está em promoção e, pelo menos pra mim, chegou muito rápido. A capa é bonita também. A editora Tanta Tinta é outra que merece uma salva de likes.

07. O CONFLITO (TEM QUE TER)
Há um conflito, um em específico, uma tensão que vi, que senti, entre o modo como a autora se quer mulher e o modo como o mundo a quer mulher, mansa e amansada, bicho domado, mula. Ela até fala que fora esporada (vide Redoma). O lugar da mulher, seu enjaulamento, é questionado várias vezes, já que ela tem que se espremer inteira para caber lá; se espremer, se cortar, se calar e amputar as partes a mais.

08. RUGIDO
homem pode escrever coisa sem sentido
vai ser sempre celebrado
palminhas nas costas
premiado
minha cabeça oca foi escavada
até o fundo
o fundamento todo da histeria
é afirmar não ser história
o balbucio
o rugido
o grito
de quem está enjaulada
atrás de janelas
tomadas de
tijolos

09. JUSTA MEDIDA
Uma das dificuldades em escrever poesia com causa é ajustar forma e conteúdo, muitas vezes, a predominância do intento poético apaga a causa, noutras vezes, a preocupação em defender argumentos claros e objetivos, suprime o poético. Isso não acontece em Furagem, Divanize verseja sobre a situação da mulher em nossa sociedade com grande desenvoltura. Dá gosto de ler.

10. FEZ LETRAS
Não sei vocês, mas eu quando sei que a pessoa faz Letras ou é formada em Letras e diz que escreve poesia, já penso logo: Lá vem... Divanize é Doutora em Letras, apesar disso, não escreve enigmas insolúveis. Bem, tem alguns poemas que requerem mais atenção, mas é questão de se familiarizar com a obra, nada que uma segunda leitura não resolva.

11. NA REDE
Tem bastante coisa da Divanize espalhada na internet e no meio disso, vários poemas de Furagem, outros do Entraves (que já procurei e li). Então, a gente pode ler e ter uma ideia do que vai encontrar no livro. Só que, quando a gente pega o livro, acaba encontrando muito mais.

12. CRIA ESPANTOS
Lembrei de mais uma coisa, a poeta fala de corpos grandes e gordos, fala de feiura, coisas cotianas, mas de modo muito original, tão renovado a partir da linguagem, tão outro, a ponto de fazer a gente ver aquilo de outra forma. Talvez ela dissesse que seu discurso é histérico porque afirmaram
“não ser história
o balbucio
o rugido
o grito
de quem está enjaulada
atrás de janelas
tomadas de
tijolos”

Mas ela sabe que é, por isso, balbucia, ruge e grita!

E por fim,

13. FEIURA

nunca seremos bonitas o suficiente
insidioso é que as belas são apenas papel
colorido repleto de fotos retocadas
no ímpeto de se levantar acorre a lembrança
você não é bonita então se acanhe
não arreganhe os dentes nessa bocarra
escancarada e mantenha-se calada
na cara a cútis arranhada do último
surto de ansiedade uma crise soterrada
você não é bonita e não pode pronunciar
palavra cultivada na lavoura da valia
a acusação da feiura será erguida sempre
que falhar a autocensura e emergir a ousadia
de ocupar a tribuna e se tornar protagonista

Na verdade, tem um extra.

14. ELA TEM FACE
A poeta tem perfil no facebook então, a gente pode adicioná-la e mandar um monte de pergunta, tietar, enviar poemas, bater um papo, elogiar de novo, enfim...

FURAGEM é uma grande obra. Recomendo.

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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