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Jorge Bazzo Axkar
É cuiabano, nascido em 1990. É advogado graduado no Mackenzie-SP e mestrando em Antropologia pela UFMT. Fotógrafo ocasional. Poeta e letrista quando o querer reclama (ou vice-versa). Já se aventurou no teatro. Gosta de um samba.

ESTURRICO

Xô falar um negócio pro sinhor: homi nenhum se faz peão de verdade só por montar em riba do cavalo, dar umas ‘vortinha ansi’ e laçá uns baguá meio manso. Isso é cena!
[Tudo barriga verde esses azia! Tudo berola. Só sabem é cozinhar o galo.]
Ainda mais pra essas bandas de cá.
Aqui o homi é forjado debaixo do sór. Na base do esturro da onça. A fibra e a coragem de um homem é medida com base nos esturricado de onça que ele já ouviu no meio do matagá. E de como ele reagiu. Corre pro cê ver...
Já ouviu o esturrico da onça? É um negócio que sai da boca do bicho, avoa nos ar e quando chega no ouvido da gente, a gente ouve é com os pelo do braço. Percorre toda a espinha. Sobe e desce. E vai até as ponta dos pé e dos dedo.
Mas eu falando assim pro ceis, ceis não vão ter noção do que que é de verdade não. Só vendo mesmo pra saber, só sentindo os choque que dá. As eletricidade tudo. Não carece muito de explicação.
A primeira vez que isso se sucedeu comigo bem de perto foi quando eu era gurizin. Teve outras também, mas quase sempre se escuita mais de longe, vindo ecoando - como que som do mato mesmo - junto com jacaré e os pássaros. E das prosa que os compadres contam na volta da lida.
Mas dessa vez aí de eu menino foi bem ansi: eu saí um pouco mais do descampado, pra modo brincá com os Aracuã que se grupavam na beira da represa. Ficava de mutuca assobiando e jogando semente de carandá no lado deles só pra distrair. Coisa besta, coisa de curumim. 
Naquela época lá tinha uma queimada do cão destruindo e atrapaiando tudo.
Uns par de campo verdinho ficou tudo preto, as casca de árvore parecendo carvão de braseiro. Tinha controle não.
Os fogo ia se espaiando sorto de modo que as pintada foi se desembrenhando das casa dela e se achegando nas casa nossa pra arruma o que comê.
A senhora minha mãe ficava me alertando pra não saí muito do currá mas eu não dava ouvido não moço. Guri cê sabe como é.. Tudo embirrado, despelhotado..
Então rapaz, tava eu lá né. Miudinho, gurizinho.. Só o pau da goiaba.
Todo jacú, amontoado no capão, rindo das trapaiada dos bicho, inocência pura.
Quando seu moço...
Deve ter sido nem o tempo que uma fruta madura se sorta do pé e estrambucha no chão. É muito ligeiro.
- Só que também parece que os segundo passa devagarinho, e a gente consegue prestar atenção em tudo. Os detalhe se abrilham nos olhos nosso. -
[- Já vou terminar patrão, tenha um cado mais de calma. De que que vale passar por um sufoco desse se não puder contar direito pro cê?? -]
Veja lá, nessa rapideiz toda que te falei, nessas meiada de meiada de segundo eu senti uma baforada aqui no cangote da nuca, ouvi como um respiro. Virei pra trás, vi a bicha lá: em toda a sua glória e esplendor – magnífica (a bicha é canhana memo).
E a danada vai chegando que você nem se apercebe...
Ela olhou pra mim bem nos zóio, entrou dentro da alma minha, e deu um esturrico que dizem que se ouviu até lá no Barnabé. PAI DO CÉU! Mãezinha saiu trupicando lá do fundo de casa, derrubando a bacia das roupa tudinho, os Aracuã saiu tudo avoando e eu, eu parecia que um raio tinha caído em cima da minha pessoa.
Só que é aí que cê vê quando o cabra é bão mesmo. Eu fiquei parado, firme. Não mexi nem os zóio, nada. Medo eu senti, não hei de negar pro cê. O coração bateu na boca. Mas eu aparentei calmeza. Não tinha o que fazer, eu nem sabia. E nem adiantava saber também. O proceder. Na hora essas coisa tudo fica pra trás. As teoria e tudo. Na hora é você e a danada. Você e o que resta de sua vida na conta de Deus.
Eu fiquei paralisado feito bicho que se faz de morto pra salvar a vida. Tipo estáuta. Lembrei de tudo minhas memória pequena. Mas fui menino-homem, fraquejei não.
Aí o bicho fez “meio que ansi” com a cara, virou de lado e debandou pro seu rumo.
Quando eu vi que ainda tava vivo eu corri duro menino, ‘mais’ duro... Rufei pé!
[Varei é reto.  Com força...]
Cheguei no quintal as perna tavam mais mole que furrundú quando ainda tá no tacho, saído do fogo. Mãezinha foi mais braba que a dona onça, e me deixou de molho por uns dias. Sem brincar nem banhar no rio.
Mas aí minha fama já tava feita... Já tinha corrido por tudo quanto é recanto esse assunto e as pessoas tudo falava que Dito Sereno era guri porreta, sujeito-menino de coragem.
Mas ó, eu não me envaideço com essas coisa não. Não sou disso. Sei bem que foi Deus-Pai-Jesus-Nosso-Sinhô que me guiou, teve piedade e livrou eu menino daquele destino. Ou foi a onça, que me apercebeu como filhotim de gente que eu era e pensou que eu não haveria de fazer mal argum, não era ameaça pra ela. E nem armoço. [Haveria eu de ser criado e crescer, como os filhotinho dela.]
Por que você sabe moço, os bicho tem as ética e as moral deles.
Muito homi nem sabe dessas coisas, mas os bicho tudo tem.
[Às vêis foi Deus que deu as idéia pra onça. Às vêis foi um cadinho dos dois: Deus e a danada. Às vêis foi de mim também. Vai saber... Mas uma coisa a certeza tem comigo: humirde eu nunca hei de deixar de ser. A humirdade leva o homi longe.]