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Janet Zimmermann 
É natural de Catuípe/RS e residente em Campo Grande/MS.Tem, publicados, três livros de poemas: ‘Asas de jiz’ (Life Editora); ‘Pétalas Secretas’ (Editora Patuá) – vencedor do Prêmio Guavira de Literatura/Poesia/2017; e ‘três / poetas / uma / via / : / aldravia’ (Life Editora), em parceria com os poetas Paulo Robson de Souza e Sylvia Cesco. Participou de sete antologias brasileiras, sendo que a última, “A Glória desta Morena” (Life Editora), lançada em 25/08/2020, é uma coletânea de contos organizada pela escritora Sylvia Cesco em homenagem à memória da grande Maria da Glória Sá Rosa. Tem poemas publicados em: “Mallarmargens”, “Amaité”, “Recanto das Letras”, “Pensador”, “Confraria do Baixo Belô”, “Isso é MS” e colabora com as revistas “Pixé” e “Piúna”/UBE/MS. Está em “As Mulheres Poetas na Literatura Brasileira”, projeto do poeta Rubens Jardim, e nas listas “Poetas do Rio Grande do Sul” e “Poetas de Mato Grosso do Sul” no portal de Poesia Ibero-Americana Antonio Miranda. Administra o blogue literário ‘Polyantho’ e, além de escrever vários livros, faz trabalhos de revisão e formatação de textos literários. É filiada à União Brasileira dos Escritores de Mato Grosso do Sul.

INSIGHT

uma mecha de crespo cabelo pendia sobre um lado do rosto. o resto se escondia sob o lenço azul floreado, amarrado levemente abaixo do queixo. seu olhar distava em milhas e milhas além do nariz. era um olhar pacífico, quase meditativo. o vento morno meneava suavemente a mecha charmosa e o lenço hollywoodiano. no céu azul desbotado parecendo filme antigo e colorizado por computador, asas de mar formavam nostálgico fundo. lembro-me bem de um detalhe sutil: ela não movia o rosto, apenas os cantos dos lábios que sorriam levemente para alguém ao qual não pude ver. o que seus olhos miravam parecia não pertencer a este mundo e denotavam aliviada felicidade... a imagem do dia foi esta, a de um ser sereno com um lenço fino sobre os cabelos e um sorriso ameno, parecendo final feliz de história. sabe, até parece que já vivi aquele lenço, aquele cabelo, o rosto e o nariz que não bem reparei, e o olhar pleno... pensando bem, a imagem que vi breve e claramente, era sim, um final alegre de parte da história. resta-me lembrar do desenrolar ao começo. mas, pensando melhor, acho que não vou querer esmiuçar a intimidade daquela mulher de distante olhar, vai que apareçam dores de amores ou algum trauma existencial, sei lá, já bastam as águas que pesam e descompassam minha marcha neste campo de miséria. deixemos assim... super valeu a pena. amei a bela visão da felicidade. afinal, no final, é isso o que conta, o que vale o conto e a poesia que ronda o mistério... o resto de uma vida inteira e sua singularidade, melhor é deixar segredado no cofre do tempo. levarei o semblante luminoso, congelado na memória. só não me perguntem por que me vi assim,
olhando o infinito
com os cabelos ondulados
debaixo de um lenço azul estampado
com uma mecha solta do lado
num dia de céu aclarado
e feliz, tanto, como nunca
me soube a paz
neste lado infestado d’aves
neste olhar distante da nave
de cabelos lisos ao vento
sem lenço
relembrando o infinitésimo cheiro
do perfume do amor verdadeiro

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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