© 2019 - Revista Literária Pixé.

  • Facebook

Jack Scarpelli 
É escritora e sócia fundadora da produtora Cérberos Filmes. Roteirista e diretora da série documental, O Muro, que circulou o país em TV’s públicas, em 2017, e da série de comédia Insustentáveis, previsão de estreia no segundo semestre de 2019. Além do trabalho com foco em roteiro, atua como videomaker e fotógrafa. cerberos.com.br     ig:j.scarpelli

MICROLOMANIA

O megalomaníaco só enxerga a própria grandeza. O devoto conclui conforme a sua religião.  A religião aumenta em poder quando contempla a multidão. Multidão também é combustível de ideologias, um tipo contemporâneo de religião.  Uma cega ideologia fez nascer o genocídio. Genocídio é morte em grandeza numérica. Para alguns, instrumento de controle da temida superpopulação. A população entope estreitas cidades. Cidades são feitas de muitos prédios. Um prédio megalomaníaco, arranha-céu. O céu é o que se vê do universo. O universo cabe na cabeça de um alfinete. O homem se acha imenso por dentro, assim imensifica seu domínio por fora. A imensidão por dentro, egomania. A imensidão pra fora, civilização. As coisas imensas ocupam muito espaço, mas as coisas pequenas e sem importância escondem uma imensidão. O homem se acha pequeno por dentro, assim vê a dimensão do mundo lá fora. Ver exige mais que olhos, exige tato.


Microlomania: Mania pelas coisas pequenas e desimportantes, ou de fazer coisas pequenas e sem importância, sem culpa alguma, pois elas são importantes demais pra você, muitas vezes só pra você mesmo, mesmo.
 

 

 

 

 

 

ORAÇÃO AO TUMULTO

Que meu delírio seja por excesso, meu excesso seja razoável, o razoável sinuoso, sinuoso o próprio caminho, posto que a reta é prerrogativa do sóbrio caminhar, meu estradar é ébrio no andar- sou tropeço- sou-me reflexivamente tumulto sufocante. Que sufoque até ver além das coisas cheias de grandeza, engolindo assim os substantivos desprezados, as miudezas escondidas no silêncio, para cada dia tornar-me mais desimportante, mais próxima da matéria dita inanimada, mais próxima do paraíso em que tudo carece de sentido, por ser o próprio sentir em si.
 

 

 

 

 

ESTRADA

 

Duas estradas se encontram,
Tornam-se uma,
Depois se bifurcam
Não existe mapa.