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Jacinaila Louriana Ferreira
É casada, mãe de dois filhos, apaixonada pela família e pela literatura. Possui graduação em Letras pela Universidade do Estado de Mato Grosso, pós-graduação em Docência do Ensino Superior, professora efetiva na rede estadual de ensino, SEDUC/MT. Escritora de poesias e contos, já participou de doze antologias e recentemente participou juntamente com seis escritoras negras mato-grossenses da obra Rasuras Negras, está em fase de lançamento de sua primeira obra solo, o livro Nuances. Mestranda em Letras pela UFRN/UNEMAT campus de Sinop/MT.

DO MOVIMENTO À AÇÃO, DA COR À LIBERDADE

Luciene de Carvalho transborda em suas poesias a ressignificação da temática negritude, visto que, é possível ouvir batuques de tambores ao ler seus textos. Ouço sua voz como açoites que buscam por justiça, vozes e Irinéias que esperam incansavelmente na janela, por um lugar, pelo direito de amar. Vejo o direito, a fala, a beleza, a cor, a igualdade, a linguagem, elementos primordiais negados, sugados e apagados no percurso histórico, do branco e do preto, que sem querer inferiorizou-se, pois, chicotadas ainda ardem e nos traz lembranças; flashes que até então impedem alguns da luta. Mas a autora, engajada na batalha, tem como armas de luta, o DNA do cabelo pixaim, os corpos negros que se movem incessantes em busca de afugentar preconceitos, estereótipos malvados perdurados por gerações que se escondem nos eufemismos soltos, explosivos e dolorosos.


Luciene leva e elava-nos ao permitir um passeio por toda extensão do navio e finalmente libertos brindamos fora dos porões e algemas malditas que por tanto tempo acorrentou na ignorância aquele que possui a superioridade do nada, da falta de cor, de melanina e compaixão.


 Os belíssimos versos da poetisa soam como se entoassem canções anunciando momentos sublimes de paz interior, da posse de si e de seus atributos pessoais, antes negados e vergonhosos, hoje tão nossos. A poeta transita entre o caos que desumaniza e cria múltiplas identificações, escancara, desmascara o racismo, desfaz o drama, entra em cena e torna-se dona da liberdade que nos move, da palavra que impulsiona e inspira.


Paulo Sayeg nos encanta com uma arte que invoca, provoca luta constante de uma negritude sofrida, histórica e sedenta por recomeços, sua arte é livre, é forte e destemida, pois iguala-se ao povo representado, cujas esperanças se renovam na cor vibrante, no requinte e se concretiza no vínculo de diálogo que estabelece com o real. 


A valorização do preto e todo contexto histórico e religioso nos convida a observar os quadros da realidade. E quanto mais se passeia pelos contornos de uma pintura que fala com o propósito de convidar ao despreconceito da arte imitando a natureza humana, mais encontramos as raízes de um povo massacrado, mas que liberto foi, por seus deuses, crenças e sede por uma liberdade sem aspas, livre de normas que limitam, e principalmente as que limitam o ser de SER, único em seu lugar no mundo. 


Na poesia, Luciene desenha estrofes dignas de ação, e na arte plástica a cor que materializa a luta, comparo aos traços fortes de Paulo Sayeg, pois as duas linguagens se complementam e tornam único o sentido de comunicar, provocar, humanizar e transformar por meio da arte. O elo dialógico que une as escritas verbais e não verbais aqui presentes, é o mesmo que nos rege, a expressão, movimentos, e principalmente, LIBERDADE.


É uma ficção real, a realidade omitida por muitos, tratada como ilusório, porém colocadas em evidência, entre versos e nuances, palavras e tintas, a completude da leitura, o preto na busca pela identidade que aos poucos revela-se entre traços e poesias, ações e movimentos. 

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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