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Ireneu Bruno Jaeger

Ocupa a cadeira nº 1 de Academia Sinopense de Ciências e Letras. É um dos fundadores da mesma. É professor aposentado da Universidade do Estado de MT. Publicou  poesias,  crônicas literárias e um romance. Recebeu Moção de Aplauso da Câmara de Vereadores e da reitoria pelo histórico da UNEMAT do Estado e do Campus de Sinop. Ao todo publicou 14 obras. É catarinense de nascimento e mato-grossense de coração desde 1977.

E MURCHOU...

A morena viu um lírio branco que tinha brotado encima de um monte de barro. Era o dia 25 de janeiro de 2019. O sol se escondera atrás de uma nuvem.


Levanto, mas não ligo a TV. Estou enfadado de tanto ouvir esquerda x direita. Como se não houvesse outro caminho.


Mas aí eles me imploram: Veja. Mas que horror. Meus olhos se ofuscam.  No meio daquela cena dantesca ouço Castro Alves gritar:” Ondes estás , Senhor Deus dos Desgraçados? “ A resposta é um ruído ensurdecedor de helicópteros. A televisão mostra: Um senhor engravatado tenta explicar o inexplicável. Fala difícil: a jusante, a montante e as pessoas a pé fugindo do monstro barroso.” O´Céus, por que não apagas este borrão?!” Este borrão são peixes,  bovinos,  humanos... desumanos “onde estais?”. Havia casas...havia.


Mergulho no mais profundo abatimento. Com a ponta da manga da camisa consigo enxugar uma lágrima que furtiva tenta escapar.


Questiono: como podem ser doces as águas do Vale do Rio Doce?


Nuvens voam pelo chão como revoadas de moscas.


Anoitece. Lá no ocidente monstros cismam.


“Em cismar,  sozinho à noite, mais... horror encontro lá. Minha terra tinha palmeiras onde cantava o  sabiá.”


E a mulher viu que a flor branca tinha caído. Ajuntou-a e colocou num copo de água fresca.


O ar é uma bruma cinzenta... bruma suave  chorosa. E a noite escancara a fauce escura desdentada. Deserto humano.


A mágoa aperta o peito preste a partir em pedações pesados. A natureza sofre e de chofre um raio acende um lampejo de esperança.


E a mulata canta o Luar do Sertão, numa melodia triste, chamando pelo amado. É um punhal fincado fundo na escuridão.


Chamam para ver a TV. Mas vale a pena? Vale? Repórteres com alma enlameada de abrolhos tentam decifrar um mundo inclemente. Vale a pena ficar ouvindo? Vale?


A cantora viúva tristonha sente um langor  abrasar-lhe  a pele e a alma quando sabe do pior. O que é pior: vivo ou morto?


E o deus de Castro Alves responde: Tudo ama. O amor é de vivos e mortos. Minas ama e sofre. Quem  ama, sofre. O Brasil sofre e em preocupações e se aquebranta.


Vamos ver a flor branca. Ela mudou de cor. Ela murchou.