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Helvio Moraes
Possui Mestrado (2005) e Doutorado (2010) em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP. Realizou estágio de doutorado na Università di Bologna. Atualmente é Professor Adjunto da Universidade do Estado de Mato Grosso - UNEMAT, credenciado (docente permanente) no Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários - PPGEL, com sede em Tangará da Serra. De fevereiro de 2015 a fevereiro de 2016, foi visiting professor junto ao Dipartimento di Scienze Politiche e Sociali da Università degli Studi di Firenze, Itália. Publicou o livro A Cidade Feliz (Ed. da Unicamp, 2011), que compreende o estudo e a tradução comentada da utopia de Francesco Patrizi da Cherso. Na carreira artística, lançou recentemente o álbum musical “Profano Absoluto”.

NOTAS SOBRE O TRÁGICO 
DE MEADOS DO SÉCULO XX À CONTEMPORANEIDADE

Uma das grandes reviravoltas nos estudos sobre o trágico no século XX e na contemporaneidade foi a definitiva inserção dos impasses e infortúnios do homem comum e da vida cotidiana como temas centrais e incontornáveis para uma concepção trágica de mundo. Esta nova perspectiva desbarata uma longa e consolidada teoria do trágico que, pelo menos até meados do século XX, defende com veemência a ideia de que o protagonista trágico deve possuir estatura nobre (que os tradicionalistas radicais leem como “ocupar uma posição social de eminência”), deve passar pela experiência de um conflito extremamente doloroso e incomum, jamais originado, dada sua singularidade e intensidade, dos acontecimentos frequentes de sua vida cotidiana. As bases para se pensar o trágico na experiência da vida comum já haviam sido abertas por alguns romancistas e intelectuais do século XIX, como Lessing, Thomas Hardy e Herman Melville, para citarmos apenas alguns. Contudo, creio que a tríade de dramaturgos estadunidenses composta por Eugene O’Neill, Tennessee Williams e Arthur Miller, foi capaz de consolidar esta ideia, no espaço mesmo onde a noção de trágico se desenvolvera e se firmara, e ao redor do qual as discussões mais acaloradas orbitavam: o teatro. Não por acaso, o mais jovem dos três, Arthur Miller, publicou no The New York Times, em fevereiro de 1949, um importante ensaio intitulado “A Tragédia e o Homem Comum”, uma defesa vigorosa da possibilidade de compreendermos o trágico num mundo onde não mais existe um centro aglutinador e uma figura humana a personificar o sentimento trágico de mundo. O trágico, em sua visão, estende-se a qualquer personagem que “esteja pronto para entregar sua vida, se necessário, para garantir seu senso de dignidade pessoal”. Em uma passagem esclarecedora, que terá ressonâncias em estudos posteriores, Miller afirma crer que o homem comum é “tão apto como assunto para a tragédia em seu sentido mais alto como os reis. Sendo assim, isso deve ser óbvio à luz da psiquiatria moderna, que baseia sua análise em formulações clássicas como os complexos de Édipo e Orestes, por exemplo, que foram encenados por seres nobres, mas que se aplicam a todos em semelhantes situações emocionais”. A luta total e sem reservas, baseada na “vontade indestrutível do homem de alcançar sua humanidade”, deve ser, para Miller, o “fio brilhante da nossa história”, que nos conduz ao único lugar a que ela pode nos levar em nosso tempo: “o coração e o espírito do homem comum”.
Esse choque entre uma visão tradicionalista, com seus heróis monumentais e aristocráticos, e uma visão mais “democrática” do trágico perdura ao longo de todo o século XX, a ponto de Terry Eagleton, num estudo que data de 2003, dedicar todo um capítulo à questão, concluindo que os “heróis e heroínas trágicos podem agora ser encontrados flanando em qualquer esquina, pois o destino de cada indivíduo torna se, em princípio, tão precioso quanto o de todos os outros, e a sua crise histórico-global ameaça abalar a minha também. Para a modernidade, sem dúvida, alguma coisa, mais do que isso, pode ser necessária. Para alquimiar os metais básicos da vida diária no ouro puro da tragédia, talvez seja necessário pegar esses homens e essas mulheres e empurrá-los ao extremo limite de sua capacidade de resistência”. Partindo, portanto, desta mudança de perspectiva, exponho a seguir os principais pontos que dela decorrem e que podem ser fartamente encontrados na produção literária da contemporaneidade.


1) Tragédia e experiência (pessoal e coletiva). Raymond Williams abre seu monumental Tragédia Moderna com uma série de questionamentos sobre a relação entre tragédia e experiência. Para o autor, é preciso investigar a relação entre a tradição da tragédia e o tipo de experiência que estamos sujeitos em nossa própria época. Ao contrário de receber passivamente aquilo que foi sancionado pela tradição, é preciso compreender a “estrutura de sentimento” do momento histórico em que vivemos e, a partir dela, definir as novas configurações do trágico. Como, por exemplo, negar tragicidade à vida de homens e mulheres reduzidos ao silêncio e à ignorância por uma estrutura social que opera cada vez mais pela exclusão? Como não aceitar a tragicidade ao fundo da violência e das formas inauditas de opressão, em um século lacerado por tantos conflitos de proporções mundiais? 


2) O protagonista como vítima trágica. À antiga noção do herói consciente de seus atos e responsável por suas consequências, a nova teoria do trágico, ao privilegiar os conflitos do sujeito comum, acaba por contrapor uma noção radicalmente diversa, embora não exclusiva: a do protagonista como vítima trágica. Um amplo conjunto de textos literários dos mais variados gêneros desenhará a imagem de uma ordem social não apenas iníqua e equivocada, mas como uma estrutura dinâmica e poderosa que pode destruir tanto quem a ela se contrapõe como quem dela participa, indistintamente. Em muitos desses casos, a sociedade não é o inimigo que o protagonista tenta combater, uma vez que sua experiência trágica deve-se ao fato de justamente aceitá-la como boa ou ideal, ou pelo menos desconhecê-la de certo modo. Sendo assim, o protagonista é antes vítima trágica, ainda que lute por manter-se vivo, do que o agente que mede forças com uma força que lhe oprime e lhe supera. Tal é o caso de Willy Loman em A morte de um caixeiro viajante, de Miller, que, justamente por incorporar o “sonho americano”, acaba sucumbindo a ele. Em certo sentido, a noção aplica-se também a romances distópicos como Nós, de Zamiatin, e 1984, de Orwell, cujos protagonistas, durante boa parte de suas vidas, jamais questionaram a ordem social vigente. Há um momento de crise e rebeldia, mas tal é a força do sistema, que eles rendem-se, praticamente aniquilados. Por fim, o mesmo pode ser dito da situação hedionda de Ruth, Kathy e Tommy em Não me abandone jamais, de Kazuo Ishiguro, apenas três de um contingente enorme de clones criados para suprir futuras deficiências orgânicas de “não-clones”. A possibilidade de se compreender o protagonista como vítima trágica coloca em xeque outra célebre noção da teoria do trágico: o reconhecimento. Para os conservadores, é preciso que o protagonista trágico, em algum momento da narrativa, tenha consciência do resultado de seus atos e aceite a punição pela transgressão feita à lei ou a determinado limite que lhe foi imposto. Na teoria clássica, podemos perceber que este é o ponto culminante do enredo, a partir do qual dá-se a queda do herói. Aos protagonistas que cito acima tal noção não pode ser aplicada. Às vezes, morrem ou continuam suas vidas miseráveis sem ter a mínima consciência da tragicidade da situação em que se encontram. Em casos assim, cabe a quem está de fora, o leitor ou o espectador, compreender a dimensão trágica da narrativa.


3) Convulsões políticas e sociais. Outra manifestação do trágico, a partir de uma estrutura social perversa, ocorre em algumas narrativas que se fundamentam sobre convulsões sociais. Raymond Williams salienta que, observadas e sentidas como passado, as convulsões sociais ganham contornos épicos, que acabam por se sobrepor, pelo ocultamento de sua face trágica. Para o autor, a revolução bem-sucedida instaura uma nova condição necessária da vida, que legitima e enobrece o sofrimento passado; é a origem de um corpo social renovado, e, assim, não trágica, mas épica. Contudo, o movimento revolucionário em si, desde os fatos que lhe deram origem até a sua conclusão, e não apenas um momento de crise aguda, é repleto de histórias de resistência, confronto, silenciamento, opressão e sacrifício que, compreendidas na imanência do presente revolucionário, revelam seus contornos trágicos. Terry Eagleton, ao comentar o livro de Williams, afirma que o autor consegue, com a noção de revolução e todos os termos que a ela se vinculam, como desobediência, insubmissão, etc., “traduzir uma das linguagens trágicas mais antigas – a noção de sacrifício – no mais premente dos termos contemporâneos, pois sacrifício [...] relaciona-se com a necessidade de nos rendermos ao que vemos como inexprimivelmente precioso […] em nome de algum valor maior; e jamais será possível dizer se a barganha terá valido a pena.”


4) O contraste entre uma esfera pública tragicofóbica e uma esfera privada tragicofílica. Hans Ulrich Gumbrecht afirma que as sociedades contemporâneas possuem instrumentos que lhes “permitem remover todo e qualquer potencial de tragédia do espaço público”, transferindo o problema para a esfera privada. Ainda que virtualmente, a sociedade cria instrumentos e recursos que atendem a inúmeras demandas do sujeito contemporâneo, desde a assunção de um novo corpo e uma nova identidade sexual até um novo modo de se lidar com a questão da “culpa”, criando instituições públicas e práticas legais que a substituem – a compensação financeira em casos de divórcio, a atribuição de responsabilidade ao Estado por crimes antes atribuídos ao “sujeito delinquente”, etc. Como resultado, questões cruciais que deixam de ser expostas e vividas em espaço público parecem tornar-se pesadelo quando deslocadas para o espaço da intimidade, como prova o crescente interesse pelos procedimentos terapêuticos da psicologia e da psicanálise.