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Guamá de Belém

Não tem um registro biográfico seguro, já que suas biografias são divergentes. Nasceu como personagem, lançado no conto, no campo, no mundo (“Quando dei por mim, estava na estrada, jogado no trajeto que, nem tendo sido traçado, já era trilhado”). Ator, cantor, compositor, dramaturgo, palhaço, vagabundo, mora pelas estradas de Mato Grosso, pousando, ocasionalmente, em Cáceres, Chapada dos Guimarães, Cuiabá, Vila Bela da Santíssima Trindade ou Rondonópolis. São os pontos principais de estalagem, mas outros locais podem ser albergues para o artista errante. Por onde viaja, apresenta-se, em bares e outros estabelecimentos, como cantor, palhaço ou apresentador (“Dentro do estômago da economia, minha arte é minha valia”). Depois de muita insistência, ameaças, chantagens e uma irrecusável oferta financeira (o valor não será divulgado) Guamá de Belém concedeu uma entrevista para REVISTA PIXÉ. O retrato de Guamá que publicamos sem autorização foi encomendado à Franz Rohr de Souza Ferreira e feito às escondidas, durante a entrevista concedida em maio de 2019.

ENTREVISTA EXCLUSIVA!
GUAMÁ DE BELÉM ROMPE O SILÊNCIO E FALA DE LITERATURA

PIXÉ: Por que a negação de Inviável esperança?
GUAMÁ: Inviável esperança é um livro muito imaturo, precipitado mesmo. Foi escrito em um momento de entusiasmo e publicado sem ter o devido merecimento (em termos de construção, de linguagem). Deveria ser muito mais trabalhado. Um livro que exigiria décadas de esforço de composição e retoque. Às vezes vem incerta vontade de retomá-lo, porém isso exigiria um domicílio estável, uma biblioteca, um tempo considerável...

PIXÉ: Por que o título Confins?
GUAMÁ: Não porque o personagem-autor esteja atravessando “confins”, como poderia parecer de imediato. E sim porque “todos os lugares são confins”, como foi percebido por Shirlene Rohr de Souza e Marauá Rios e Ilhas, que assinam, respectivamente, a orelha e a quarta capa. E o próprio conto “Confins”, que dá título ao livro, fornece as melhores respostas a essa pergunta, respostas polissêmicas, o que é ainda melhor.

PIXÉ: O nome “Guamá de Belém” é verdadeiro?
GUAMÁ: Tão verdadeiro como as palavras. O nome completo é: Guamá Lira de Belém. Há uma música aí. Há uma mítica, pois o rio (Guamá) e a cidade (Belém) não são apenas aquilo que diz o conhecimento estabelecido: são forças de água e de terra, de árvore e de ar, de fogo e de mistério. Guamá é também um bairro de Belém: pois isso não é a fusão metonímica de tudo, do rio e da cidade, num complexo indefinível de formigueiro humano, de humano enigma? Quando perguntam por que a lira desapareceu do nome, a resposta é que minha lira fica guardada, recôndita, vibrando, de dentro para fora, a música em mim, a música em si.


PIXÉ: Por que viver na estrada? Por que essa opção?
GUAMÁ: Viver na estrada não é uma opção, é uma condição. A estrada está em tudo. É a estrada que é. De repente o conforto do lar se viu perdido no meio da estrada, no caminho, na real linha da vida. Édipo em busca de explicação. Édipo depois da revelação. Édipo a caminho. Édipo em Colono. A leitura de Sófocles não mostra somente um destino; Édipo rei indica, ou pinta, multilinhas, o dever de vagar, a errática condição. A estrada é uma metáfora poderosa, mas além de metáfora a estrada é a realidade.

PIXÉ: E Mato Grosso? 
GUAMÁ: Mato Grosso é: floresta, cerrado, pantanal, zonas urbanas. Mato Grosso é sertão. Terras, pedras, águas que escorrem, calor, ar – correm os passos, seguem os cursos, transcorrem as vidas. O cenário está na superfície da Terra. Fotos, vídeos, entrevistas, desenhos, mapas, rascunhos de textos e planos para filmes: quem sabe não teremos mais arte? Teatro de palco aberto, mundo-palco. Nas andanças, nas danças dos encontros, possibilidades estéticas têm se revelado. Amauri Tangará, conversando sobre Dicke e sobre tiques artísticos e sobre truques técnicos, em termos cinematográficos, levantou alguns delírios. Perseu Azul criou um coletivo, chamando gente para um movimento. Muitos músicos têm irradiado notas e acordes, pelas noites, pelos bares, pelas praças. A arte não desiste. Outro dia, um sonho se deu, de déu em déu; e era um filme assombroso. Olha só. Quero ver as imagens que a Revista Pixé vai lançar, a partir destas palavras em grafite. Sabe essa coisa de pintar doidices em muros imaginários?