7.jpg

Giovani José da Silva 
É antropólogo, professor de História e, atualmente, leciona na Universidade Federal do Amapá, onde também é acadêmico da Licenciatura em Teatro. É autor, em parceria com Anna Maria R. F. M. da Costa, de Histórias e culturas indígenas na Educação Básica (Autêntica, 2018).

DURILA BERNALDINO, MINHA MEMÉ KADIWÉU

Dentre todos os indígenas Kadiwéu que conheci ao longo de oito anos (1997-2004) de convivência diária, sejam homens ou mulheres, nenhum deles me impressionou tanto e deixou tantas saudades quanto Durila Bernaldino. Ela era uma senhora centenária, aparentemente frágil, muito lúcida e, principalmente, a maior conhecedora dos saberes e tradições Kadiwéu.


Tive o privilégio de conhecê-la assim que cheguei à aldeia Bodoquena, Reserva Indígena Kadiwéu, localizada no município sul-mato-grossense e ao longo de nossa convivência conversamos muito, em línguas portuguesa e indígena. Embora fosse uma referência para os índios de toda a Reserva, Durila não era uma “pura”, como os indígenas se referem àquelas pessoas cuja ascendência vem diretamente dos antigos “cavaleiros”.


Ela contava que havia sido raptada ainda menina em sua aldeia Ishir e criada entre os Kadiwéu para ser uma “cativa” (categoria existente para designar os índios procedentes de outras etnias ou “misturados”). Quando isso teria ocorrido? Creio que por volta de 1900, data que constava em sua certidão de nascimento apenas por uma formalidade (exigência do INSS, que não conseguia registrar datas anteriores nos documentos de aposentadoria), já que se presumia que Durila teria nascido em 1884, dezesseis anos antes!


Era uma mulher que havia conhecido três séculos diferentes (XIX, XX e XXI) e que eu tive a honra de ter como vizinha e “memé”. Tal expressão Kadiwéu remete à figura do avô ou da avó e Durila se tornou minha “meme” quando me deu o nome pelo qual sou conhecido até hoje entre os Kadiwéu: OYATOGOTELOCO. O nome significa “a luz que brilha longe” e foi dado a mim após um sonho que a anciã indígena tivera, maneira usual de “batismo” feita por alguém como ela que tinha a atribuição de dar nomes indígenas às pessoas da aldeia e a alguns forasteiros (ecalailegi).


Segundo Durila, os Kadiwéu encontraram um menino que tinha uma fenda no peito, na altura do coração, por onde saía uma luz, como se fosse uma lanterna. Essa luz não guiaria os Kadiwéu, mas os ajudaria a encontrar caminhos que poderiam ser percorridos por eles próprios, mesmo à noite. Tenho orgulho do nome Kadiwéu que recebi de Durila, que nos deixou em 2009, perto de completar 125 anos! Seu último nome em língua Kadiwéu jamais poderá ser novamente pronunciado (ou escrito), uma vez que entre os indígenas os nomes dos que se foram para a aldeia da memória devem ser deixados no passado...

© 2019 - Revista Literária Pixé.

  • Facebook