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Giana Benatto Ferreira
É cronista e contadora de casos do cotidiano, começou a escrever após completar 50 anos de idade. Tem seis livros publicados – individual e coletâneas – em prosa e poesia. Nas redes sociais fala sobre maturidade, artes, meditação.

CALÇOLA DE ALGODÃO DA PODEROSA


— Estou com medo! O homem é louco por aventuras e esses franceses o apoiam. Senhor! Quantos planos, desenhos, horas em claro, confabulações foram feitas para ele sair do chão.
Até eu fui desenhado justamente para ele não precisar se distrair dos comandos de seus bólidos aéreos me buscando no bolso da calça para saber que horas eram, trocou minhas correntes por pulseira e os invejosos de plantão.
Sou super diferente. Louis Cartier, amigo pessoal de Alberto, ficou frenético quando observou o desenho e aceitou o desafio. Meus primos, les autres montres, já circulavam nos braços da realeza francesa, há muito tempo, em preciosas joias femininas, rodeadas de pérolas e fios de ouro. Mas, empregar como ferramenta de trabalho, modelo masculino, unindo couro à caixa dos mecanismos das horas, isso Alberto inventou. E, estou eu aqui agora, em expedições de levantar voo, em uma gerigonça que treme e parece que vai vergar quando a velocidade aumenta.
Alberto é fera. Parece que nasceu com um botão de dar corda que não gasta nem descansa.
Se não está no hangar mexendo no seu novo brinquedo voador, está estudando para construir outros equipamentos estranhos.
Sai, vai a encontros filosóficos, de arte, encontra amigos. Com eles estabelece planos de ação e discutem ventos, atmosfera, mecânica. Ele lhes explica sobre asas, velocidade, ser mais pesado que o ar para subir. De tempos em tempo, puxa o paletó e me olha atentamente. Diz que está na hora de ir, que precisa descansar, e todos em volta ficam fascinados com minha beleza. Me acho especial, embora saiba que Louis está vendendo a ideia de Dumont e melhorando seu faturamento. Trabalhar com couro lhe abriu uma nova possibilidade na relojoaria. Antes as argolas de prata, ouro faziam parte do seu dia-a-dia, diferente de agora, onde costurar pedaços pequenos, ajeitar para que os pinos que prendem o relógio a pulseira, é uma arte.
Ele, Alberto, é especial e considera minha companhia imprescindível. Tentem imaginá-lo dirigindo em seu automóvel na pista de corrida tentando ver as horas sem estar olhando para o pulso. Não tem como. Talvez um dia consigam assentar um relógio em um dos seus carros para ele saber as horas sem tirar as mãos e atenção do volante. Por enquanto, nem pensar (estou pegando o jeito dele, tendo ideias malucas)! Quando voa em seus balões de hidrogênio, velejar no espaço fica ainda mais fácil comigo em seu pulso. Os braços erguidos cuidando da entrada do ar quente no balão são perfeitos para somente virar o braço esquerdo e me olhar.
E se você me perguntar por que sou usado no braço esquerdo, eu explico. Se as pessoas destras reclamam até de escovar os dentes empunhando a escova com a mão esquerda, não consigo vê-las dando corda em mim, ou em algum outro relógio, com a mão esquerda, já que o botão de corda para que funcionemos fica do lado direito do aparelho. Ainda que fosse para o lado esquerdo, seria muito difícil. Além de tudo, hoje em dia, é estranho ser canhoto. Parece que algo não está correto, então sigo no braço esquerdo de Alberto, facilitando seu trabalho diurno de me fazer funcionar e ser pontual.
Hoje estou com medo. J’ai pair du voler! Desde julho estamos fazendo testes para essa 14ª máquina do gênio sair do chão. Tivemos tentativas e falhas sérias. Hoje ele acredita que será diferente, pois já trabalhou em tantas modificações que espera ter sucesso no voo, daqui a pouco.
Estamos sendo olhados e seguidos pela multidão que se juntou no Campo de Bagatelle, aqui em Paris (seja um francês – pronuncie: Parri). Em poucos instantes, o segundo protótipo do 14, agora chamado 14Bis, vai subir. Tem que subir. Continuo com medo.
A Ave de Rapina - Oiseau de Proie – como se referem ao 14Bis precisa fazer jus ao nome e ao trabalho de Alberto. A sensação de estar no céu é boa e não entendo porque tenho medo.
Talvez porque desconhecer o que ele pensa, que novas aventuras inventará enquanto estiver nas nuvens, quão alto vai chegar e se as pessoas também, um dia, desejarão voar.