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Gabriel de Mattos 

É arquiteto, professor universitário, autor de O Primeiro Filho e outras Narrativas, além de Volcanya Blues (com Ricardo Leite, o Ric Milk) entre outros, vem contando aqui na Pixé as lendas da imaginária Novo Paraíso do Norte.

O CRIME DE DONA ASTROLÁBIA

Yarandu. Yarainduh quando é um estrangeiro. Um estrangeiro que aparece aqui no Hotel Esplanada Tropical. Geralmente perdido, porque os achados descem no campo de pouso, que o pessoal da Colonizadora chama de Aeroporto. Aeroporto, há!
O senhor me entenda, não quero dar uma impressão equivocada. Sou apenas o segurança... Chefe de Segurança aqui do Hotel... do Hotel-perto-da-rodoviária! E trabalho de noite, que a noite é mais insegura, e acabo encontrando pessoas. O problema é que umas pessoas primeiro me contam coisas, desabafos, e depois outras pessoas perguntam, perguntam, escavocam. E eu, Yarandu, seu criado, fico no meio.
Como no caso da Dona Astrolábia. Caso que trouxe polícia da capital aqui para Novo Paraíso do Norte, naquele tempo que isto era um fim-de-mundos, um nada em construção. Na verdade, nem Novo Paraíso ainda: Arroio das Antas, um vilarejo esquecido... escondido, no meio da Amazônia. Da Amazônia ilegal!, que era o que era isto daqui.
Era da família Carrilhão, que tinha um fazendão aqui em cima, maior que o povoado de Arroio das Antas. A Colonizadora não conseguiu comprar a vila, fez a cidade de Novo Paraíso mais perto da estrada, da BR 163. 
Dona Astrolábia Carrilhão era a solteirona da vila, alternando a janela do sobradinho da família com as missas na igreja velha. Todo mundo falava que ela ainda era bonitona, mas histérica e estranha. Era só do confessionário para a janela. 
Mas aí apareceu aqui o Marcio Aurélio. Meio torto da vida, mas da família da Colonizadora. Dizem que veio fugido de lá do sul, enroscos com menina donzela e desfalque em investimentos familiares. Mas, mesmo assim era família, e da Colonizadora. Como já tinha desafetos até nuns primos daqui, acabaram locando ele em Arroio das Antas. Na praça. Perto do sobradinho dos Carrilhão.
Márcio Aurélio só vinha para as terras da Colonizadora para cobrar dos parentes um lugar nessa-merda-de-projeto-pioneiro e frequentar o esboço de bordel, que já tinha se estabelecido nas proximidades do núcleo original (que virou o centro da futuramente progressiva Novo Paraíso do Norte). Mas cedo descobriu que ia ficar de escanteio ou nas bordas do filé mignon da nova cidade.
Acabou que Marcio Aurélio trouxe os amigos tortos dele lá do sul e começou a mexer com tráfico de drogas. E acabou crescendo assim, longe do núcleo original, mas fornecedor daqueles venenos calmantes ou estorpe... estupi... estupefacientes (viu, conheço os termos legais!). Aí, com o passar do tempo, ele mesmo se afastou dos parentes da Colonizadora.
Mas isso tudo na mutuca, escondido. E ficou em Arroio das Antas. E muita gente diz que por causa de... Dona Astrolábia.
Aliás, lábia tinha ele, o Marcio Aurélio. E começou a cercar Dona Astrolábia, para desespero tanto do povo da Colonizadora quanto dos Carrilhão. Mas a solteirona acabou mesmo aceitando o flerte do sulista.
E aí são as conjecturas... como dizem.
O fato é que numa noite, finalmente, Dona Astrolábia foi convidada para a casa nova que Marcio Aurelio tinha feito na vila. Casa bonita, de material fino, onde ele “se escondia dos problemas”, como disse para ela. 
Dona Astrolábia nunca tinha conhecido um homem assim, que conversasse com ela, que fizesse a corte. E nessa noite ela contou. Contou tudo. Que não era solitária porque queria ou gostava; que vivia retraída porque, bem, há muito tempo, quando ela era inocente, o velho tio advogado na capital a levara para o quarto e fizera... aquelas coisas, sabe.
- Eu não gostei, eu não sabia... e não foi uma vez só. E ele sempre deixava bem claro que agora não adiantava mais, que ela não ia arrumar ninguém para casar. Que ninguém casa com quem já foi inaugurada. Dizia assim: inaugurada! E acabou que ele mesmo começou a dizer que eu era louca, e meus pais me mantiveram afastada. Eu chorava muito, Marcio Aurelio, chorava...
Marcio Aurelio nada falava.
- Mas agora eu encontrei você, e me disseram que você é vivido, e eu acho que você não se importa com isso, que agora seus parentes vão fazer uma cidade melhor que Arroio das Antas, e a gente pode começar de novo, novo tempo... porque eu te amo, Marcio Aurelio.
Marcio Aurelio não falou nada. Atacou.
- Já que está inaugurada, vamos aproveitar a porta aberta!
A arma que apareceu no cenário ninguém sabe se era dele ou dela. Mas Dona Astrolábia descarregou duas vezes em Marcio Aurelio. Descarregou pelas várias solteironas enganadas e abusadas pelos figurões das famílias, descarregou pelos sonhos semeados e destruídos pelos covardes que assistem, ou querem aproveitar também, descarregou pelas meninas velhas que são essas mulheres de olhos secos que exibem suas desesperadas esperanças nas janelas dos sobrados e dos puteiros. Descarregou e voltou pra casa a pé, com o revólver fumegando na mão crispada.
Bom, é claro que nem Carrilhões nem o povo da Colonizadora, queriam muita propaganda sobre isso. Não adiantou vir polícia da capital: virou acerto entre traficantes ou similar. Melhor enfiar Marcio Aurélio num lugar discreto no novo cemitério da nova cidade; e nem no mausoléu da família, mais para longe da entrada ornamentada.
Dona Astrolábia, essa guardou o revólver, exigiu seu pedaço do patrimônio familiar; dizem que negociou bem. As meninas Carrilhão é que defenderam ela, que peitaram os mais velhos, que não deixaram que esquecessem, que começaram a desconfiar dos ramos políticos, judiciários e até eclesiásticos da família. E mesmo o povo miúdo de Arroio das Antas contava a história como estória, como lenda. Ela ficou um tempo numa casinha dela, ajudando quem pedia, contando sua sina, exigindo das visitantes que exigissem mais da vida e dos outros, que sempre tinha um revólver que aparecia para calar as injustiças. Depois sumiu num ônibus, daqueles primeiros que colocaram aqui na rodoviária.
E se a gente não sabe onde ela foi parar, a gente imagina, a gente deixa ela na imaginação. O que eu sei é que já tem um povo aí mais ao norte que está rezando, fazendo novena para Dona Santa Astrolábia do Norte. Se você quiser tenho até aqui no bolso a oração aprovada pelo sínodo...