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Gabriel de Mattos 

Recentemente publicou O Primeiro Filho e outras narrativas, além da história em quadrinhos Volcanya Blues, esta em parceria com Ricardo Leite, o Ric Milk. Vai desenvolvendo aqui na Pixé o universo da fictícia Novo Paraiso do Norte.

O HOTEL PERTO DA RODOVIÁRIA


Yarandu. Yarainduh quando é um estrangeiro. Um estrangeiro que aparece aqui no Hotel Esplanada Tropical. Geralmente perdido, porque os achados descem no campo de pouso, que o pessoal da Colonizadora chama de Aeroporto. Aeroporto, há!
Mas Yarandu, seu criado.
O Verillo, gerente aqui do Esplatropi fala: seu malcriado. Mas o que ele queria, eu sou o Encarregado da Segurança? Pelo menos no meu olerite, já li.
Veja bem o senhor, avalie: eu sou alocado no Hotel Esplanada Tropical, mas estou na folha de pagamento (com direito a olerite) da Colonizadora, que é dona do hotel e da maioria das coisas aqui de Novo Paraíso do Norte. O Verillo me cobra subserviência porque eu estou no seu hotel; mas agora pasmem: o Verillo é sócio da Colonizadora. Bem sub sub sócio, mais porque tem um parentesco com o Velho, que é quem ainda controla Novo Paraiso, a Colonizadora e o Hotel. Verillo fala que não é bem assim, que as novas gerações é que controlam a máquina, e que de fato o Hotel é dele. Mas de fato o Verillo não é da nova geração, é quase tão velho quanto o Velho.
E está aqui jogado no hotel-perto-da-rodoviária (que é como conhecem o Esplatropi), com o apoio de Segurança deste que vos fala.
Claro que preferiríamos estar na pousada perto do aeroporto (ah!), onde a granfinagem fica rapidamente antes de ir para os resorts no coração da Amazônia Legal. Mas é o que sobra para nós que crescemos nos galhos baixos da progressiva Novo Paraíso do Norte. O Verillo não foi atrás de trazer investimentos lá do Sul para cá; eu por minha vez fiquei de um lado pro outro, a disposição de quem precisasse.
Cresceu a cidade, engruvinhamos nós.
Eu até conversava com o Verillo, ele só acordou quando o Velho achou que tinha que controlar a porta-de-entrada que era a Rodoviária. Já tinha aparecido um monte de pousadas, de casas aqui perto onde qualquer um alugava um quartinho. Começou a ter até casa-de-tolerância; aí o Velho falou que tinha que controlar. Eu comecei como fiscal da prefeitura fechando essas biroscas e mesmo casas de famílias, que só queriam aproveitar a proximidade para ganhar uns trocados.
O Hotel Esplanada Tropical foi construído rapidamente, naquele sistema de fazer primeiro e consertar depois. Virei segurança do canteiro de obras, o Verillo veio de má vontade organizar a construção (na verdade espionar para o Velho).
- Eu posso ajudar depois, na decoração, na cenografia, não na hora de levantar parede e abrir buraco para cisterna e esgoto! – Queixava-se Verillo quando ficava comigo até tarde da noite, bebendo e acompanhando concretagem. É, ele é meio esquisito, cheio de cenografia mesmo. Por isso é que acho que acabou ficando no Esplatropi.
Eu também. Já estava meio cansado dessa coisa de fiscal, capanga, marreta, braço duro, cara feia.
Apanhei e bati a minha cota, cheguei naquele ponto em que dá para prever chuva ou frio porque a costela mal curada começa a doer.
Aí me deram um daqueles coldres de passar na frente do peito, com um 38 cano curto, perigoso. E eu fico na frente do hotel-perto-da-rodoviária, acompanhando o horário de chegada, sabendo quais os ônibus que trazem problemas, que vem com gente fugida ou assustada. Principalmente do Maranhão, que eu tenho birra, de onde só vem garimpeiro. (Nem vem mais, e o Verillo disse pra mim uma vez que Maranhão é na Amazônia, como o Piauí. Imagina!)
E fui eu que dei a ideia da Brigada, que antes era gente do meu tipo, que esperava o ônibus parar e tocaiava: desceu alguém com olho de procurar encrenca ou de não saber para onde ir, a gente embarcava em outro carro pra seguir em frente – pro Acre ou pro Amazonas. Depois a coisa sofisticou (influência do Verillo): são as meninas do curso de Serviço Social que abordam os meio perdidos que chegam na Rodoviária. Mas o destino é o mesmo: se não tem nada acertado por aqui, volta para a estrada, cortesia da prefeitura.
O Verillo pegou um quarto suíte no último andar e fica a maior parte do tempo lá trancado, bebendo e vendo televisão. Às vezes chora, às vezes desce e conversa comigo. Sempre reclama, do hotel, da rodoviária, de Novo Paraíso, do Brasil, do mundo...
Eu vou ficando, não aprendi a beber desse jeito que desconserta o mundo. Só fico com dor de barriga. Não acontece mais nada aqui no hotel-perto-da-rodoviária, nada como aquela vez em que o pessoal do Projeto Rondon foi perseguido pelos garimpeiros (ou por outras pessoas...), ou a vez em que um grupo de prostitutas passou a caminho de uma cidade que ainda nem era cidade (precisaram de um Segurança: minhas duas semanas mais felizes, se é que me entende o distinto). Ou ainda a vez que chegou o cara que queria fazer um filme com dezenove mulheres no mato, mas só tinha catorze, e ficaram em três quartos aqui no hotel.
Não consigo dormir mais de quatro horas por noite, e espalhadas. Fico aqui na frente do hotel, olhando a Rodoviária, que não tem mais chegadas noturnas. O coldre na frente do peito me machuca o sovaco, o 38 está sempre pronto. Não sei pra quê.