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Gabriel de Mattos 
Está preparando o lançamento de O Primeiro Filho e outras narrativas, que, apesar do nome, é seu nono livro publicado; tem contos, crônicas, histórias em quadrinhos, ensaios... narrativas. Bem anteriores ao Ciclo de Novo Paraiso, do qual faz parte A Pioneira

A PIONEIRA

Sério, não sei o que estou fazendo aqui, nesta chácara envelhecida. Deixei claro que sou um historiador de literatura, não um crítico ou editor. 
Mas o curso superior de Literatura e Línguas (existe isso?) da Universidade de Novo Paraíso do Norte, a gloriosa (?) UNINOPAN, exigiu e aqui estou eu, defendendo a bandeira do curso pioneiro do nortão de Mato Grosso. E o meu emprego, claro.
Então vamos lá, bater um papo com Dona Leonora Teles Schultz, ou Flora Juvenília, poeta pioneira (sério, título que quase foi oficializado pela câmara municipal), romancista bissexta, filântropa, ainda com dinheiro para se cercar de velhos sonetistas e jovens pseudo-hippies. (Acho que estou realmente “envelhecendo mal”, como diz Isobel)
Lembrar de comprar o filtro de linha e outro USB flash drive para Ione.
Como ministro disciplinas (dou aulas, velho!) também para o curso de Jornalismo e Publicidade, preparei uma pauta para a conversa. Eles adoram pauta. Flora Juvenília chegou com o segundo marido, um alto funcionário da Colonizadora, quando só havia uma rua (mal) asfaltada em Novo Paraíso. Fez parte daquele movimento de preencher as necessidades da cidade que crescia mais de 10% ao ano: abriu uma papelaria que vendia livros e acessórios para pintura em cerâmica, objetos de decoração e plantas medicinais. 
Depois ajudou a sobrinha a fundar um Conservatório Musical. Na verdade, um curso de piano, depois teclado. Hoje é franquia de uma empresa do sul, mas começou realmente independente, com os livrinhos esculhambados do Francisco Russo e o Leila Fletcher Piano Curse, bem pioneiro mesmo. Dali veio a ideia de fazer “reuniões culturais”, onde se encontravam os que não tinham estômago para aguentar os três (três!) CTGs da cidade (um até era de tradições catarinenses, dizíamos).
Acabou que Dona Leonora, já com a nova alcunha para se afastar da histórica figura portuguesa, assumiu a liderança de uma certa vanguarda interiorana, reunindo sobretudo a juventude rebelde formada pelos filhos dos pioneiros. Da qual fiz parte desconfortavelmente (produzia pouco, participava pouco, paquerava pouco as garotas) quando era rebelde, quando era jovem.
E nem era muito amigo dela. Mesmo quando ela estava tentando entrar no Conselho Municipal de Cultura, já meio de escanteio depois da fundação da UNINOPAN. E ela já tinha esta chacarona, deixada por um ex-marido que deu tudo para se livrar dela. Ela transformou isso num... sei lá, num Solar de Produção? Colônia de Artistas?
De qualquer forma ela presidia o sodalício (Adoro esse termo, sodalício, parece nome pomposo de bordel caro para velhos depravados)
Hoje é um manicômio. Ops!, escorregão politicamente incorreto: casa de repouso (ou recolhimento?). De qualquer forma uma construção já com cara de velha. Lembro-me do Velho, sogro de Isobel, tentando estabanadamente defender uma história de Novo Paraiso, até indo na Fundação Nacional Pró-Memória, em Cuiabá, buscando apoio para fazer um tombamento de áreas antigas da cidade. Essa construção mostra que o Velho não estava tão errado. Resta a ele a briga pela diretoria de nosso novo Novo Paraíso Golf Club.
Lembrar de comprar a tomada com luzinha e outro pen drive para a Ione.

*


Assusto-me quando o Dorianno abre a porta. Conheci-o quando moleque, andando pela chácara, de shorte rasgado e sem camisa. E, afora a roupa, ele não mudou nada: cabelo comprido, roupa simples, barba por fazer, apesar do diploma de medicina em faculdade boa. E a mesma cara de moleque. Parece ter uns 15 anos, o desgraçado!
- Entra, Mariano. Acho que hoje ela está bem.
Não sei por que Dorianno decidiu se especializar em doenças mentais e gerontologia. Tá legal que nunca foi um cara muito certo, estava mais para o geniozinho fechado em si, o bom aluno rico, ligado ao pessoal da Colonizadora. Mas depois de uma boa faculdade no Sul, não quis ficar com o pai e voltou para Novo Paraiso. Para a chacarona da mãe, primeiro para o Pronto Socorro local e depois para esta... clínica em que transformou o castelo da mãe.
- Esta ala da casa ainda é exclusiva dela. – explica Dorianno – Não é bom afastar uma pessoa de idade do lar dela. As... referências são importantes.
Nem pergunto sobre os outros pacientes da clínica. A maioria colocada ali para abrir espaço para as novas gerações.
Ele abre a porta e encontro Flora Juvenília sentada numa grande poltrona que parece um vaso de cerâmica marajoara. Ainda tem o ar de matrona-líder, de presidenta do sodalício, de mulher procurada para conselhos.
- Obrigado, Dorianno. Dispensado. – Nem bem olha para o filho. Espera que ele saia – Você sumiu, desapareceu. Comprado por aquela faculdade.
Não sei se me reconheceu de tanto tempo atrás ou se adivinhou minha missão.
- Mas eu te perdoo. – ela concede – Temos outras preocupações, na verdade, outra realidade. 
- Qual realidade? – Tento entrar no jogo.
Ela se aproxima, sussurra: - Cinema. 
Abro o caderninho onde anotei algumas perguntas. Ela me segura a mão.
- Deixe de usar essas coisas antigas, cadê o seu palmtop atualizado? Já tem coisas mais modernas, mais ágeis. – Ela cruza os braços, majestosa – Já me decidi, não estou gagá ainda: o Solar – ela faz um gesto que abrange toda a chácara – vai ser um complexo de produção cinematográfica. Já tem um pessoal daqui de perto que faz filme de morto vivo, terror. E com estas salas enormes, faremos vários cenários, futuristas ou neoclássicos. E então... – nota minha boca aberta – televisão, vídeo, transmissão pelo éter para todo o mundo!
Parei com a caneta no ar. Ela se acalma e me olha com seu ar superior, bem superior.
- É isso, vá e informe no seu jornal. Dispensado.

*

Nem procurei Dorianno. Para quê? Na verdade, gostei do tirocínio da velha senhora. Tem um fazendeiro que chegou do sul que é casado com uma antiga atriz de pornochanchadas, aquelas antigas, ingênuas, sem sexo explícito. E tem um professor também que despencou para cá que vive ameaçando fazer um filme. E tem o grupo daqui de perto que faz filme de zumbi e quer fazer filme de ação, com explosão e tiroteio...
Entro no meu carro velho, conformado em escrever algumas obviedades sobre Flora Juvenília, e até pensando em vender a ideia dela. Preciso voltar a propor coisas, inventar novos problemas.
Minha filha me falou hoje de manhã que ela não está conseguindo se conectar. Perguntei se era um problema de banda larga (na falta de termo melhor