Gabriel de Mattos
É contista, romancista, arquiteto e professor universitário, enquanto o dia tiver apenas 24 horas. Seu livro A Geringonça, fez parte do Programa Nacional de Bibliotecas de Escola (MEC/2007), em 2011 ganhou o Concurso Internacional de Contos de Ficção Científica Vicente Cardoso, com Canção. Recém doutorado em Estudos de Cultura Contemporânea, vai retomando o mundaréu de coisas que gosta de fazer. 

BORIS EM CÉRBERUS

Não havia muito a ser observado no horizonte de Cérberus. A falta de luminosidade daquele ponto do universo deixava as pequenas elevações do planetóide visíveis apenas como uma pequena variação de cor. Um grande nada.


O que fazia a alegria de Boris 9tevitch.


Aquele ponto era um dos mais próximos da Borda da Sela de Einstein, o final do universo fluido e o início do universo denso. O desafio. O impenetrável.


Até agora.


Boris sorriu. As poucas pessoas que chegavam a Cérberus, ao se depararem com ele, faziam uma cara de quem via um fantasma. De certa maneira Boris 9tevitch era um fantasma. E o mais estranho era o fato de continuar a sê-lo, de continuar sendo visto com assombro por qualquer um que chegasse ao planetóide.


Mas, de fato, qualquer pessoa que chegasse a Cérberus, que passasse pelas provações que a viagem (com estilingues de duração longa e alcances praticamente incalculáveis) exigia dos organismos e das capacidades de assimilação psicológica; qualquer pessoa que concordasse em fazer esse tipo de caminho, não estava muito disposto a voltar às proximidades da Terra para simplesmente contar o que tinha encontrado.


Elas entendiam Boris. E ele as entendia. Ele não participara da Resolução Final da tecnologia do estilingue por fama, reconhecimento ou mesmo dinheiro. Ele queria chegar ali, na Borda da Sela. E contemplar o fim, a Densidade. Elas também queriam alguma coisa que não entendiam, algo que talvez a incapacidade de intelecção dos números complexos não as tivesse preparado. Mas o horizonte de Cérberus era a Imagem definitiva. Deixava de ser abstrata, deixava de ser complexa.


As pessoas choravam quando chegavam ali. Não dava para se ter uma idéia daquele horizonte de forma antecipada porque o último estilingue praticamente deixava o glóbulo ou a megaesfera no ponto de aterrissagem. Só depois que os passageiros desciam da nave é que podiam ter a verdadeira dimensão do início do universo denso.


Dizia a lenda que Boris 9tevitch não chorara quando chegara a Cérberus. A verdade é que Boris caíra num pranto convulsivo quando terminou os últimos cálculos da Revisão Final. A elegância e a inelutabilidade daqueles números deixavam muito pouco para ser inferido. O fim, pela primeira vez, era visível.


Mesmo assim Boris continuava a olhar embevecido o horizonte de Cérberus.


Na verdade, ele procurava uma Brecha.


Era possível. Ainda incalculável, mas possível. Por isso Boris trouxera Neno 89vlad. E Terezza 56. 


Claro, um sem o outro seria desperdício. Os dois formavam aquele tipo de dupla muito comum (mas de difícil reunião) nos meios da pesquisa pura. Neno 89vlad pensava, esboçava as idéias num nível hermético, numa nuvem transitória de teorias e algoritmos. Nessa aparentemente impenetrável barafunda começava o trabalho de Terezza 56. Numa mesa mais desorganizada que a de Neno 89vlad, com um número mais caótico de papéis de vários tamanhos (desde bilhetinhos até fitas de impressora larga), com um eterno cigarro aceso no canto da boca, ela transformava os pedaços de profunda matemática em textos disciplinados e de uma elegante poesia esclarecedora.


Boris já se sentira intimidado por aquela parceria demiúrgica no tempo do Departamento de Matemática de Princeton, ele ainda na flor da genialidade dos 21 anos. E parecia não ter muita diferença entre aquelas mesas de carvalho escuro de New Jersey, e os de aço escovado em Cérberus. Era estranha aquela parceria apenas profissional, que evitava até mesmo palavras. A única coisa que Terezza 56 reclamava era quando Neno 89vlad continuava a escrever suas garatujas apesar da tinta da caneta já estar praticamente invisível. E terminado o período de trabalho, invariavelmente 12 horas por dia, os dois simplesmente deixavam o que estavam fazendo para se dedicar a lazeres também díspares: Neno gostava de beber cerveja no bar da faculdade, contando e ouvindo piadas pesadas e politicamente incorretas, Terezza cultivava um pequeno jardim e continuava dedilhando o computador, agora navegando nas redes sociais.


O que chocava Boris era justamente a falta de senso dos dois em relação às consequências do trabalho deles. A abertura da Resolução Final devia grande parte do seu êxito a eles, e isso não parecia ter afetado o cotidiano ou os horizontes da dupla. Agora, a descoberta da Brecha poderia acabar com grande parte da Cultura Ocidental, pelo menos certos preconceitos que faziam o deleite das piadas preferidas de Neno 89vlad, e isso não parecia afetá-lo.


Boris sorriu para o eterno crepúsculo de Cérberus. Afinal, quem era ele para questionar o destino de outras pessoas. Ele que deixara a Edros no momento em que as primeiras megaesferas entravam em linha comercial. Ele que transformara sua participação na empresa em uma subseção de pesquisa, fincada discretamente naquele planetóide.


Para procurar o que? Nem bem procurar. A descoberta da Resolução Final lhe proporcionara a euforia merecida e desejada. Mas também chegara aos 25 anos, e nesse ponto os números começam a se mostrar tremendamente ariscos, a se fechar. “Como uma jovem fogosa que precisa de um macho em sua plenitude”. Fora Neno 89vlad  quem utilizara essa metáfora?

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