Fernanda Maluf 
É cuiabana com alma mineira, com mais apreço à leitura do que à escrita, cuidando das asas e criando a coragem a pão de ló para me jogar nesse abismo psicodélico. Casei-me com a Psicologia há uma década, e hoje curtimos uma bela lua-de-mel junto com a nossa amante, a Economia, e meu marido, Hugo, companheiro, amassador e assador do pão de ló.

PASTEL NO CEMITÉRIO

Sento no banco da pracinha da av. São Sebastião. Passa uma carreata de carros num buzinaço, não dá pra identificar o motivo. Pessoas agitam uma bandeira preta, vestem uma camisa preta. Pensei que talvez pudesse ser um cortejo fúnebre animado, vai que era pedido do falecido. Vou deixar um recado pra fazerem isto também, já que já tenho até a música pra hora do enterro. Enfim, os retardatários do buzinaço passaram gritando “Aeee Mixtooooo” e aparentemente o Mixto Esporte Clube tem algo importante hoje.
De repente, estaciona um carro – que achei que era da carreata -, saem uma mulher e seus 3 filhos, e ela me pergunta “você sabe onde está a placa do cemitério?” “Qual cemitério, minha senhora?” “O desta praça! Ela foi o cemitério dos combatentes cuiabanos na guerra do Paraguai, vim mostrar aos meus filhos a história da cidade.” Fico paralisada pensando que trago minha cachorrinha pra passear num cemitério, além de frequentar a feirinha de comidas também. Que falta de respeito a minha. Digo que do outro lado da praça tem uma placa em homenagem aos combatentes, mas nada dizendo sobre o cemitério. “Acho que foram enterrados na Ipiranga, no cemitério do Porto”, digo. “Não, menina, eles foram enterrados aqui…” Um dos meninos aponta pra uma cruz e diz que deve ter algo escrito ali, mas se dão conta que é da creche católica da rua. Vão até o monumento que mencionei, e lá não tem alusão alguma ao cemitério. Os meninos começam a rir dizendo a mãe é doida, colocam o cachorro, que um deles levava no braço até então, pra farejar alguma ossada perdida, vira farra. E a pobre da mãe indignada procurando a placa do cemitério. Deus me livre se ela acha, fico sem o pastel de quinta-feira.

 

 

PEQUI COM MELANCIA NA ANTÔNIO JOÃO

Sábado de manhã e o sol rachando a cabeça me acorda do atraso que consigo evitar para chegar ao centro a tempo de comprar enfeites de Natal. Fiz o compromisso de decorar o restaurante do marido, mesmo sem muita ginga pra isto. Por sorte, minha mãe oferece uma carona até lá, que não fica tão longe assim de casa, mas o clima cuiabano me castigaria consideravelmente. Além disto, muito provavelmente o centro estaria superlotado e, pra meu alívio, estava mesmo: tenho uma felicidade sem fim (e sem explicação) de passear no centro em meio à multidão. Entro na Kidori da Getúlio e já vejo a fila enorme do caixa, mas não me intimido, porque afinal já estava em pleno paraíso para quem gosta de bugigangas. Começo a revirar a estante de pequenos enfeites atrás dos perfeitos, e começo a ficar frustrada por não encontrar exatamente o que eu queria. Começo então a empilhar pacotes de algo parecido com os penduricalhos dos sonhos, ainda com uma ponta de esperança de achar melhores. Não encontro. Por falta de habilidade, capacidade motora ou apenas um sopro universal, derrubo meia dúzia dos pacotes no chão com um movimento mal calculado e, ao buscá-los, vejo exatamente o que eu queria na prateleira de baixo, meio escondido, com cara de que alguém escondeu lá, pra ninguém mais pegar. Olho ao redor para ver se alguém se manifesta, porque eu mesma ficaria bem puta da vida se alguém pegasse o meu “escondido”, ninguém liga pra mim, troco todos os pacotes, saio feliz da vida da loja. Meu telefone toca, falo com dificuldades com a minha amiga incrédula de eu estar no centro àquela hora, tenho a conversa interrompida por um carro de som, gritos vendendo chip da VIVO, até por um cheiro intenso invadindo meu cérebro: um balde de pequi está ali perto, ao sol. Uma gota de suor desce pelas minhas costas, quase sinto alívio. Decido chamar um Uber, tá caro. Chamo um 99, tá longe. Mas fico com ele, época de Natal, grana curta. Vai demorar 15 minutos para chegar, então entro para tomar um suco na Pastel&Cia. Meu telefone toca novamente, é a motorista da 99. Disse que o GPS dela falhou e não sabe onde estou exatamente. Explico, e ela me pede para esperar na frente da igreja porque não quer ser multada. Com um pouco de dificuldade provocada pelo burburinho da rua, convenço-a a parar perto do ponto de ônibus. Peço um suco de melancia, o rapaz que me atendeu tem um beijo tatuado no pescoço, demoro a entender que é um desenho e também a des-fixar o olhar. Moralismo retrógrado? A essa altura? Sou interrompida em pensamento por outro atendente, que pergunta se já pedi, digo que sim, agradeço, e ele começa a puxar papo sobre como a minha voz é bonita e se eu canto, ao que respondo que não, e ele começa a falar que a voz dele é muito fina, mas ele canta bem sertanejo, queria ensaiar mais, quer uma palhinha? Seguro o riso e digo que não, obrigada, o estabelecimento está cheio e talvez não gostem. Ele pede pra eu ficar à vontade e fico ansiosa esperando meu suco, já que a motorista se aproxima. Faltando 1 minuto para ela chegar, sai meu suco, e eu tento tomar muito rápido, o que provoca um congelamento do meu cérebro, seguido por uma breve puxada no maxilar, uma vez que tinha tanto açúcar que decantou no fundo do copo. Deixo o copo (e o chorinho) em cima do balcão, o carro chegou. Uma senhora muito simpática, conversadeira, e eu já achando tudo muito engraçado até que ela emenda, quando chegamos ao destino: “será que você poderia por favor me avaliar bem? É que ontem recebi só 1 estrela por ter impedido um casalzinho de fazer sexo no banco de trás, ah vão tomar banho né, expulsei no meio da rua mesmo, meu carro não é motel. Beijo minha linda, se cuida! E não esquece minhas estrelinhas!”

 

 

 

 

 

QUARTIER HABOUS

 

Chegaram três pares de olhos minúsculos ao nosso lado, 2 segundos depois de sentarmos meu recém-marido e eu num café no Quartier Habous, região de armazéns de roupas, quinquilharias e comidas em Casablanca. Quando a mais velha chegou mais perto, de sua boca saiu algo incompreensível para mim, mas entendi o gesto inconfundível em forma de concha que fazia com as mãos. Ao olhar atentamente, reparei que ela levava um lenço para cobrir os cabelos, por mais que aparentasse ter no máximo uns 7 anos. A do meio tinha algo vermelho ao redor da boca, como um resquício de picolé bem aproveitado. Já a menor de todas vinha bem sujinha, no colo, e faltava-lhe um dos sapatos. As outras andavam com chinelos, apesar do frio. Comecei a procurar algo em meu porta moedas, e não sei onde estava com a cabeça em misturar todas as moedas possíveis dentro dele. Durante os dez mais longos segundos de busca por algum dinheiro que lhes servisse, o dono do café chega para retirá-las dali, e a mais velha aponta para mim e, penso eu, disse “aquela mulher vai me dar algo”. Ele, muito incomodado, espera que eu por fim alcance algo naquela bolsinha de Aladim, entregue a ela, que me retribui com um sorriso. Não passa muito tempo até que essas meninas voltem ao café, pelas mãos de uma senhora. Ela as faz sentarem-se do lado de fora, onde nós estávamos, e entra porta adentro. O dono volta a aparecer e com as mãos (e algumas palavras duras) as expulsa de lá, mas sempre com um semblante de piedade, tentando ser um carrasco, mas de coração partido. Talvez para ele as crianças incomodem os clientes. A senhora reaparece dizendo que estão com ela, e pede algo a ele, que volta em menos tempo com o pedido delas que com o nosso: três pães doces e três leites fumegantes, além de três copos de água fria. As meninas esperam até que o leite se esfrie um pouco para começar a beber, mas não a pequena, que quer a todo custo tomar o dela. Só não queima a mão porque a mais velha toma dela a xícara, retira a espuma de cima, tira um pouco do leite para o seu próprio copo e derrama um pouco de água lá dentro. A pequena então toma seu copo nas mãos muito feliz, e começa a beber o leite e a comer o pão, muito grande para as suas mãozinhas. A mais velha toma o pão de suas mãos e corta-o em pedaços, e a pequena, que está afundada na cadeira, pézinhos balançantes por não tocar o chão (um descalço e outro de tênis), rindo sem parar atrás da mesa muito maior que ela, consegue então pegar um pedaço inteiro com a mão e molhar no leite. Enquanto todo este movimento ocorre, a do meio conta uma história fazendo caras e bocas, o que me faz pensar que criança é igual em todo lugar do mundo. Exceto que para algumas o mundo já é áspero desde o princípio. Ao final, elas terminaram o lanche, saíram pela lateral, e a mais velha deu a volta pelas mesas para entrar no café. O dono então a parou com uma pergunta, e ela apontou à senhora benevolente, fazendo um sinal de agradecimento à distância. Ela pediu que a menina se aproximasse, deu-lhe um beijo e um abraço, enquanto as outras duas deram um tchau do lado de fora. Na saída, um rapaz ainda lhe deu uma moeda, tirada rapidamente do bolso, mil vezes mais ágil que eu. Foram embora as três conversando alto, a pequena no colo da do meio, e vi que brincavam de esconder entre as lojas do mercado. A senhora, que estava acompanhando o marido, que estava acompanhando a televisão com os olhos o tempo todo, ficou parada apoiada nos braços, olhando o nada por algum tempo, talvez pensando o mesmo que eu. Agora elas estavam cuidadas, mas e depois?

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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