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Fábio Roberto Ferreira Barreto 
É mestrando em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa (USP) e Professor da rede municipal de São Paulo. 

Márcio Vidal Marinho
É poeta, pesquisador  e Professor Mestre das redes municipal e estadual  de São Paulo de São Paulo.

A MAIORIDADE LITERÁRIA

O Brasil vive no século XXI um dos seus momentos mais icônicos no que se refere à literatura. Desde a virada do milênio houve uma popularização da poesia como nunca visto anteriormente. Os modernistas, que idealizaram um projeto nacional de literatura, esbarraram no baixo nível de escolarização do país, limitando a grande massa a ter acesso, hábito e gosto pela leitura.


No final do século XX, o entusiasmo toma conta do país com o fim do regime militar; porém, as periferias não partilhavam dessa exultação, de maneira que a precariedade nos modos de vida, a violência e o racismo permaneciam intactos nos espaços mais afastados do centro. Para enfrentar esse abandono, a juventude periférica se apropria da cultura estadunidense chamada Hip Hop, que já havia ajudado na conscientização da juventude negra dos EUA a enfrentar as questões do racismo e da violência nos guettos de Nova Iorque.


O Hip Hop é composto por quatro elementos Disc Jockey (DJ), Mestre de cerimônia (MC), Graffiti e Breaking Dance. No Brasil, o rap se tornou o porta-voz das periferias por denunciar em suas letras o descaso, o abandono e os abusos sofridos pela população periférica. Nesse cenário se destaca o grupo Racionais MC’s, considerado ainda nos dias atuais o melhor grupo de rap da América Latina, conquistando diversos prêmios nacionais e internacionais, sendo o primeiro grupo a denunciar o abandono e a miséria em São Paulo.


O direcionamento feito pelo Hip Hop nas periferias atingiu não apenas a cultura, mas todos os níveis da sociedade como na educação, nos estilo de vida das pessoas, inclusive, na economia. Hoje, o rap é o estilo musical mais ouvido no planeta, superando o Rock’n roll. O orgulho de ser da periferia toma conta da juventude que passa a acreditar que é possível realizar coisas dantes nunca imaginadas, como, por exemplo, a própria literatura.


Nesse cenário surgem os primeiros autores advindos da periferia que se colocam no mesmo local de fala que o rap. Seu enunciador passa a ser testemunha do que é narrado em seus versos ou em sua prosa. Se fizéssemos uma linha temporal na literatura brasileira, veríamos que o sujeito periférico nunca teve lugar de destaque nas narrativas nem tampouco nas poesias  –  e, nas raras exceções, esse sujeito é apresentado de maneira jocosa e caricata. Mesmo Antonio Candido, em seu belíssimo Direito à Literatura, não prevê o acesso à escrita literária.


Em 1997 a prosa brasileira ganha novos ares com Paulo Lins, que, em Cidade de Deus, apresenta uma novo enunciador da literatura, o sujeito periférico que não apenas escreve um realismo do que vive, mas, sim, traz uma reflexão de não compactuação com a realidade narrada/vivida. Em 2001, a poesia ganha seu próprio marco com a revista Caros Amigos, que traz uma edição especial intitulada Literatura Marginal, com diversos autores que fugiam de todo o estereótipo dos escritores brasileiros, de modo que em sua maioria são autores negros, todos da periferia e com profissões das mais variadas, desde dona de casa a vendedor de rua, reivindicando enfim, o direito à escrita literária.


Inicialmente o termo Literatura Marginal ganha força, mas aos poucos com diversos estudos feitos pelos próprios autores desse movimento e de intelectuais advindos das periferias o vocábulo dá espaço ao que hoje se autodenomina por Literatura Periférica. Para entender essa mudança é preciso explicar no que esses termos são diferentes.


Literatura Marginal é um termo que apareceu na França na década de 1960 partindo de fenômenos superficiais como nos mostra Robert Ponge em Literatura marginal: tentativa de definição. In: FERREIRA, João Francisco (org.). Critica literária em nossos dias e literatura marginal


Definiremos literatura marginal como a literatura que, num momento dado, aparece à classe dominante (isto é, à classe dominante e/ou a seus ideólogos, seus críticos, sendo o consenso relativamente unânime) como sendo outra, como não lhe pertencendo. (PONGE, p. 139, 1981). 


Na tentativa de apontar as tendências de literatura marginal na França, Ponge (1981) delimita alguns pontos: a) a literatura de mulheres em revolta, na qual inclui Hélène Cixous, Victoria Thérame ou Igrecque, as quais são conscientes da opressão que as mulheres sofrem e, por isso, escrevem e produzem seus livros; b) a literatura proletarizante, que é inspirada nos proletários, que fala deles e através deles, por exemplo, Confessions d’um prolétaire, de Joseph Benoit ; c) a literatura dos indivíduos marginalizados, hippies, beatniks, drogados, misfists, mendigos, homossexuais etc. 


O que percebemos com isso é que para fazer Literatura Marginal não precisa vivenciar ou vir dos espaços narrados, mas, sim, se sensibilizar e expor isso nos textos, utilizando seu espaço na literatura para representar um grupo ou situações. Mas para ser um autor da Literatura Periférica é necessário advir dos espaços periféricos e vivenciar o que é narrado. Um exemplo é o poema de Mário de Andrade, Ode ao Burguês, que faz um ataque direto à burguesia brasileira, de maneira alguma para agradá-la, mas para criticá-la enfaticamente. Esse poema do paulista está dentro da Literatura Marginal. Temos, ainda, o tão conhecido e apreciado poema de Manuel Bandeira, O Bicho, que relata a miséria humana de maneira tão brilhante; porém, ao compará-lo com o poema do poeta Sérgio Vaz, Gente miúda, veremos nitidamente o local do enunciador da literatura da periferia.


Enquanto o eu-poético de Bandeira narra uma situação inédita aos seus olhos e ao final confunde o homem com bichos, tirando dele sua humanidade, em Gente miúda, o eu-poético de Vaz, que narra a mesma situação, dá nome ao personagem, Daniel, que vive nas ruas das sobras do capitalismo e morre depois de 35 anos como se nunca tivesse existido. Dando ao personagem vida, identidade, humanidade, além da visão crítica-social de entender que aquela situação não é aleatória no mundo, mas parte do processo financeiro global.


Diante disso, estabelecemos parâmetros do porquê Literatura Periférica e não Marginal, que também é importante para a literatura, mas é mais abrangente que àquela que vem das periferias. Qualquer escritor poderia ser marginal em algum momento de sua obra, mas isso não aconteceria com a periférica, pois é preciso vir desse espaço e se entender parte dele para ser um autor da periferia.


Em 2001, Sérgio Vaz, um dos maiores nomes da literatura brasileira da atualidade, e Marco Pezão fundam a Cooperifa. Transcorridos dezoito anos, há muitas razões para soprar as velas e comemorar o nascimento de uma nova concepção de literatura em nosso país, na qual os excluídos não são apenas objeto de tematização – muitas vezes estereotipada –, mas sujeitos de suas escritas e, por conseguinte, de suas histórias. Se Michèle Petit afirmara, em seu Os jovens e a leitura, que na periferia “estava danificada a capacidade de simbolizar”, a literatura periférica possibilitou mais do que dar vez e voz a um segmento da população deste país: inaugurou uma era em que a capacidade de sonhar, por meio de uma potente expressão artística, passou a se constituir como direito inalienável de todos e não apenas de um seleto grupo social de nosso país. A literatura periférica nasce, cresce e se fortalece, embasando-nos em Antonio Candido, em reconhecer a “necessidade universal de ficção”; ou, afinal, como lembra o poeta Sérgio Vaz, em artigo publicado pela Folha de São Paulo no início deste ano, “o povo gosta de ler, só não sabe que gosta”.   


De acordo com pesquisa publicada pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, da UnB (Universidade de Brasília), mais de 70 % dos livros publicados por grandes editoras brasileiras, entre 1965 e 2014, foram escritos por homens (leia-se, quase exclusivamente, brancos, héteros, quarenta anos ou mais, com ensino superior, cristãos). Ainda de acordo com o estudo, aproximadamente 90% das obras literárias são de homens desse perfil. Embora não se possa apontar uma única causa para as crises enfrentadas pelo mercado editorial e por grandes livrarias, como Cultura e Saraiva – haja vista a questão ser muito complexa, merecendo atenção de diferentes segmentos da sociedade –, parece evidente que mudanças se faziam necessárias nesse cenário. Aliás, talvez o fato de a produção e a circulação de livros independentes seguirem em alta, nesse momento, seja uma comprovação – não mais uma hipótese – de que a literatura periférica fez bem não só a seus autores, que puderam se expressar, mas à sociedade brasileira como um todo, uma vez que passou a ter a chance de ver o Brasil sob outras óticas: da empregada doméstica, do negro oprimido pela violência policial, do homossexual discriminado pela sociedade, do pobre privado de escola e dotado de conhecimentos...


Para quem estiver tomando contato com a literatura periférica pela primeira vez ou estiver trilhando seus primeiros passos, vale observar que as atuais lufadas desse movimento literário têm suas primeiras brisas décadas atrás. Em outras palavras, apesar de se demarcar o início do Século XXI como o nascedouro do movimento da literatura periférica, é pertinente registrar que alguns de seus expoentes já vinham produzindo no século passado. O próprio Sérgio Vaz, por exemplo, estreia com Subindo a ladeira mora a noite em 1988. Nesse livro, alguns de seus poemas já apresentam as características que o consagrariam como um dos maiores nomes dessa estética. Distanciando-nos mais ainda no tempo, podemos lembrar de Maria Carolina de Jesus. Ela nem sequer supunha chamar de literatura periférica – ou literatura negra –, mas, ao lançar Quarto de despejo: diário de uma favelada, em 1960, teria encarnado todas as características de uma autora dessas estéticas.  O mesmo se pode dizer sobre Solano Trindade e suas poesias, desde os anos de 1930. 


São de Solano Trindade (que completaria 111 anos em julho deste ano) os versos que ajudam a entender uma das dimensões estéticas da literatura periférica: “Senhora gramática, perdoai os meus pecados gramaticais/Mas se não perdoardes/ Eu errarei mais”.  As escolhas lexicais, o emprego de neologismos, a argúcia e o esmero no trabalho com a palavra são opções e, ao mesmo tempo, estratégias muito sagazes de poetas, escritores, contistas, dramaturgos, romancistas do movimento literário periférico. Longe do preconceito linguístico com que se tenta discriminar as obras de representantes da literatura periférica, bem como distante do olhar míope de alguns acadêmicos, que insistem em não reconhecer o valor artístico dos textos produzidos nesse vertente, trata-se de um conjunto de obras singulares na transgressão da palavra. Embora se encontrem estilos diversos, em comum entre essas manifestações, no conjunto da literatura periférica, identifica-se um estilo de fazer arte que demarca seu lugar de fala na escolha de assuntos e, sobretudo, no como se trata deles.


Ao recebermos o convite para colaborar com a PIXÉ, o júbilo e o cagaço foram inevitáveis. A honra de apresentar uma antologia, paradoxalmente, traz a responsabilidade de incluir alguns nomes representativos e não fazer o mesmo procedimento com muitos outros. Para comemorar uma data tão importante, a maioridade do movimento literário mais expressivo do Século XXI, nesta edição, selecionamos vinte e um autores e autoras da literatura periférica para o deleite do público leitor da revista. Embora tenham características caras ao movimento da literatura periférica, os autores e autoras destacados têm marcas bastante particulares. São textos que, sem deixar de posicionar sua autoria e sua estética periféricas, apresentam variações temáticas e estilísticas instigantes. Entre prosas e poesias, suas palavras, estética e estilisticamente potentes, são de protesto e crítica social, de reflexão histórica e sociológica, de emancipação feminina negra e de orgulho de matrizes africanas, mas também de afetividade e lirismo sentimental, de reflexão introspectiva e de sensibilidade poética. 


Trata-se de uma simbólica mostra de pequena parte de um grande movimento. Dela constam autores, possivelmente, mais conhecidos pelo leitor comum como Allan da Rosa, finalista do Jabuti 2018 e detentor de alguns prêmios importantes, Émerson Alcalde, um dos idealizadores do famoso Slam da Guilhermina e campeão brasileiro, Rodrigo Ciríaco, idealizador dos Mesquiteiros, que se engaja na promoção da literatura a estudantes de escolas públicas em São Paulo, mas, também, de outros bastante conhecidos – e reconhecidos –  na cena da literatura periférica, tais como: Akins Kintê, um dos poetas mais potentes da literatura periférica e da literatura negra, quiçá, do país na atualidade; Luz Ribeiro, artista multifacetada, grande  poetisa e primeira slammer campeã brasileira; Ni Brisant, grande como poeta, promotor do gosto pela leitura e  pela escrita de literatura e, agora, editor; Elizandra Souza, dona de potente escrita, forte presença nos meios culturais da periferia e uma das idealizadoras do Sarau das Pretas; Márcio Ricardo, poeta, slammer e rapper, que coordena o CAPS, a famosa roda de poesia criada por Maria Vilani; Márcio Batista, poeta e um dos nomes mais importantes da Cooperifa; Augusto Cerqueira, poeta e cronista de estilo peculiar, que idealizou o Sebo do Augusto; Michel Yakini, que, além de transitar entre gêneros dos versos e das prosas, é um dos idealizadores do Sarau Elo da Corrente; Lorena, jovem voz negra do circuito literário; Jéssica Angelin e Mayana Vieira, que apesar de novas, já fazem barulho no Sarau das Mina. Ademais, temos: Nelson Maca, uma voz baiana que ecoa pelo Brasil a partir de sua Blacktude; Meimei, voz forte do Distrito Federal; Zainne Lima, uma real promessa da literatura brasileira; Thata Alves, artista multifacetada e articuladora cultural; o rapper Gaspar, que também é um potente escritor e um grande divulgador da cultura Hip Hop; Jairo Periafricania, rapper que faz parte da Cooperifa e envolvido em várias iniciativas pela promoção da leitura e da escrita;  por fim, uma justa e póstuma homenagem a Tula Pilar, a poeta que, antes de partir, deixou entre nós o grito contra a opressão da cozinha da Casa Grande.