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Everton Almeida Barbosa  
É filho de nordestinos vindos da região rural da cidade de Pombal, no sertão da Paraíba, para Cuiabá na década de 70. Vive em Tangará da Serra/MT. Nasceu em Cuiabá e se especializou em Literatura, desde a graduação e mestrado na Universidade Federal de Mato Grosso, até o doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais, sendo professor de Literatura na Universidade do Estado de Mato Grosso desde 2006. É também músico. Foi instrumentista e diretor musical da Cia. de Teatro Mosaico (Cuiabá) e membro do grupo vocal Candimba (Cuiabá). Hoje coordena o projeto Corpo & Cordas, de música, poesia e contação de histórias, na UNEMAT em Tangará da Serra.

CARTA AO CAPITAL

Caro amigo,

Andando-se três léguas
sete dias por semana
com dez litros na cabeça,
a água fica mais cara

Arando-se três alqueires
sete dias por semana
com dois bois levando relho,
o milho fica mais caro

Catando-se três arrobas
sete dias por semana
com dois sacos na cintura
o pano fica mais caro

Caro amigo,

Que mistério há
nas torneiras que não secam
nos garrafões de vinte litros
cheios e lindos
como balões azuis
de festas de aniversário?

Que mistério há
em tantos frutos sem época
nas prateleiras dos mercados
limpos, lustrosos
como maçãs sutis
de polpas envenenadas?

 

Que mistério enfim
nessas roupas que se gastam
assim que saem das butiques
chiques, fugazes
como uma pele gris
trocada por estar morta?

Caro amigo,

Não há falta de limites sem carência
e crédito sem lastro é doce ilusão
O suor é a medida do que se faz com o corpo 
A dor é a medida do que se faz com a alma 
A dor sua, a minha, a dor alheia

Deixo-te um abraço, um carinho
Deixo-te o que não tem preço
Dou-te tudo o que é de graça
pra te saciar e vestir

E, por favor, não agradeça
meu caro, a caridade

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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