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Anna Maria Ribeiro Costa
É doutora em História pela UFPE e Professora do Univag. Chegou às terras do povo indígena Nambiquara na Primavera de 1982. Dos índios recebeu o nome Alusu, por conta de seus hábitos alimentares. Nessas terras, conheceu José Eduardo, com quem tem dois filhos: Theo e Loyuá. Vem se dedicando aos estudos sobre os povos indígenas de Mato Grosso, com especial atenção ao Nambiquara.

HALUHALUNEKISU, A ÁRVORE DO SABER
Talensu, origem do Nambiquara

 

Os índios da etnia Nambiquara, localizados em Terras Indígenas a Oeste de Mato Grosso, creem que, na idade mítica, habitavam o interior de uma grande montanha de pedra, Talensu.  A narrativa mítica indica que uma intempérie da natureza, ocasionada pela interferência de Waluru, um espírito malfeitor, provocou uma grande inundação, quando as águas de tantos rios juntaram-se, destruindo o mundo.

Depois de um tempo, o sol, iraladndekisu, e a lua, ilakisu, reapareceram, mas já não existiam seres humanos, somente animais.  No interior de uma pedra, incólume ao dilúvio, de formato semelhante a um urubu de chifre, conforme associam os índios, passou a viver o povo Nambiquara. Ali eram vividas a alegria, a saúde, a beleza, a eternidade. Do lado de fora, pássaros, mamíferos, répteis, insetos e outras espécies de seres vivos grassavam nos campos e matas. Bem próximas à montanha, expressões eram manifestadas em algaravia e ouvidas pelo macaco japuçá, hosxasitisu, também conhecido por guigó, zogue-zogue ou sauá, hábil saltador que, raramente, desce ao solo e possui uma vocalização característica que permite sua rápida localização no ambiente. 

Muito curioso, o macaco passava a maior parte do tempo a esperar que alguém resolvesse sair.  Sol a sol, ali permaneceu de modo que a pelagem de seu lombo ficou avermelhada. Sem obter sucesso, pediu à cutia para roer a pedra com seus dentes afiados, que não resistiram à sua solidez.  Chamou a anta que tentou, inutilmente, quebrá-la.  Chegou o tatu canastra que, com a aspereza de seu casco, tentou lixá-la, mas saiu ferido.  O urubu, em vão, deu voos em direção à montanha para perfurá-la com seu bico.

Ante a desistência dos companheiros, a andorinha-da-mata aproximou-se daquele alvoroço para ver o que estava acontecendo.  Também curiosa em saber quem estava dentro da pedra, tomou à frente, com uma lança.  Os animais que ali estavam resolveram afastar-se um pouco, receosos do resultado.  Voou longe, longe para pegar embalo e obter grande velocidade.  Para surpresa daqueles que estavam do lado de fora, pessoas saíram do interior da pedra, rachada em duas partes, bem no centro.  A andorinha da mata retirou um casal e apontou-lhe um lugar para morar, constituir família; chamou outro casal e encaminhou-o para outra direção.  E fez assim com muitos casais.

Talensu, na concepção dos índios, não se encontra no passado. Está lá e está aqui. Faz parte de uma concepção mítica de um tempo não localizável e que se acha ainda no presente. Acreditam que até hoje existem gentes no interior da pedra e que o pajé, wanintesu, em visitas esporádicas à montanha, consegue vê-las e escutar suas vozes. 

Assim, graças à curiosidade do macaco japuçá, hosxasitisu, muitos índios passaram a ocupar áreas distintas dos campos cerrados, o que levou ao surgimento de diversas pequenas aldeias.

 

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Haluhalunekisu, a árvore da vida

 

O povo indígena Nambiquara crê que, na abóbada celestial, existe uma enorme Figueira, Haluhalunekisu, visível apenas aos olhos do wanintesu, o pajé, único que pode, à tarde, viajar às alturas com o auxílio de uma pena de gavião presa ao orifício do septo nasal. De imensas raízes que envolvem a terra de todos os homens, Halu, halu quer dizer o choro da mulher-espírito, dona da Figueira; nekisu significa árvore. Haluhalunekisu é a ‘árvore do choro da mulher-espírito’ que está no firmamento, no universo e, abaixo dela, o mundo dos homens.

Dauasununsu, ser supremo Nambiquara, conhecedor de todas as coisas, reina na copa do frondoso vegetal. Ele não está só. Nos galhos da figueira, vivem as aves tesoureiros grandes, dawisu, tesoureiros pequenos, sitakakaihru, e curiangos, kwaiasu. Também moram as libélulas, watitinsu, encarregadas por Dauasununsu de fazer chover. Nos primórdios da humanidade, os insetos alados desciam das árvores e espanavam a água da lagoa com os pezinhos para fazer chover na terra. Jogavam água sem parar, prejudicando os indígenas que não podiam caçar, pescar e colher porque a terra estava inundada. As incessantes chuvas provocaram um dilúvio que levou os indígenas à morte, sobrevivendo apenas um velho.

O homem velho, com o auxílio das almas, conseguiu subir até à árvore sagrada e ensinar aos watintinsu a reconhecer as florzinhas novas do capim, a ouvir o estrondo dos trovões e o canto estridente dos machos da cigarra a avisarem a chegada da chuva.  Assim, os watintinsu aprenderam a distribuir chuva com regularidade, sem ocasionar catástrofes ao povo Nambiquara.

Nos galhos de Haluhalunekisu, vive também um gavião, dautatasu, ave de rapina temida tanto pelos pássaros e insetos, que moram na árvore, como pelos experientes wanintesu, que conseguem seguir suas raízes e atingir o firmamento para renovar seus poderes espirituais junto a Dauasununsu.  Quando se ouve o choro do filhote de gavião é sinal de que a Figueira necessita adquirir a vitalidade perdida e seu solo, a terra dos homens, passar por uma limpeza, para que o tempo volte à normalidade.

A vitalidade de Haluhalunekisu, a grande árvore do mundo, faz-se necessária para o equilíbrio do mundo dos índios e não índios. Essa tarefa é movida pelo repertório musical do wanintesu, entoado em sessões noturnas de cura, quando canta “O filhote de gavião está chorando porque debaixo dela está muito sujo”. Essa impureza refere-se ao mau comportamento dos habitantes da Terra.

Também chamada de ‘árvore que segura o céu’, Haluhalunekisu tem o amparo do pajé que deve estar constantemente atento ao canto noturno do gavião. Ao ouvir o guinchar da ave, deve viajar até o vegetal sagrado e sugar seu tronco para retirar larvas que podem fazê-lo apodrecer. Dessa maneira, evitará a morte da Figueira, o que ocasionaria a queda do céu sobre a humanidade.

Os primeiros sinais da insatisfação furiosa de Dauasununsu refletem nas folhas da copa da Haluhalunekisu, quando começam a amarelecer e cair. Todos os indígenas devem preocupar-se em satisfazer os desejos de Dauasununsu, que preza pela fartura de alimento, alegria, bondade e beleza; caso contrário, castigará a todos, indistintamente, com a escuridão. Não há como enganá-lo, pois guarda, em sua memória, todas as ações dos homens.

 

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A origem da morte

 

Aconteceu no ‘tempo de antigamente’, termo que indica um tempo que, por ser tão longínquo, não tem como contar, no entendimento dos Halotesu, Kithãulhu, Sawentesu, Wakalitesu, Niyahlosu, Siwaihsu e Hinkatesu, todos grupos da etnia Nambiquara do Cerrado. Aponta um tempo pretérito, fabuloso ou heroico, no qual existem seres e fatos que exprimem forças das vidas humana, sobrenatural, animal, vegetal.

Na aldeia, havia uma mulher velha, bem velha, de cabelos brancos, sem dentes em pele e osso. Vivia reclusa em sua casa, cansada. Sempre deitada, pensava no filho que saía diariamente para caçar e, ao retornar, não podia contar com suas tarefas de assar beiju de mandioca e preparar carne. Não aceitava sua condição de velhice. Decidida a mudar aquela situação, caminhou lentamente para a beira do córrego. Levou em seu cesto-cargueiro uma cuia de cabaça, sementes de urucum, colar e cinto de contas de coco tucum.

Quando chegou, ainda que muito cansada, arrancou sua pele enrugada, como se fosse uma roupa. Seus cabelos brancos e ressecados saíram junto à pele. Agachou-se, banhou-se com água que escorria da cuia de cabaça. Após o banho, a pele da mulher velha apareceu nova, seus cabelos negros e lisos ganharam vida como de menina-moça. Pintou seu corpo com tinta vermelha das sementes de urucum, enfeitou-se com o colar e o cinto de contas pretas do coco tucum, a pérola negra do cerrado. A belezura da mulher vestia seu corpo. A mulher, nova e bonita, pendurou a pele velha em um arvoredo perto do córrego, onde havia se banhado com a água encantada.

Quando voltou à aldeia, ensinou às mulheres velhas a trocarem de pele como a cobra e a lagartixa sabem fazer. Desse dia em diante, ninguém mais morreu. Recomendou às crianças que não mexessem na pele velha que estava esticada no arbusto, próxima ao córrego.

O filho da mulher, agora vestida de pele nova, ao voltar da caçada, surpreendeu-se ao encontrar sua mãe tão jovem e bonita a preparar beiju e a alimentar o fogo à espera da carne para cozimento. Enquanto isso, as crianças seguiram curiosas para a beira do córrego a procurar a pele velha da mulher nova. Com seus pequenos arcos de embira, arremessaram flechas de talo de buriti na pele velha.

A algazarra da meninada chegou aos ouvidos da mulher nova que saiu correndo para ver o que estava acontecendo. Tarde demais: encontrou sua pele velha toda perfurada. Ali mesmo chorou, chorou, chorou. Aquele choro comprido que costuma ser ouvido em cerimonias de falecimento. Chorou porque sabia que havia perdido a oportunidade de permanecer eternamente forte, jovem e bonita.

Logo depois da morte da pele velha da mulher, apareceram a doença, a velhice, a morte. Indistintamente, acometiam crianças, jovens e adultos. Até mesmo aquelas mulheres que trocaram de pele.

 

 

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A origem da roça

 

No mundo Nambiquara, povo indígena habitante de terras a Oeste de Mato Grosso e Sul de Rondônia, a origem da roça e da domesticação das plantas comestíveis e utilitárias vêm do tempo ab initio, desde o início, lugar da temporalidade do mito. Ab initio ou idade mítica ou tempo de antigamente, este cunhado pelo Nambiquara do Cerrado, são concepções de tempo que revelam ideias de renovação, de recomeço, de restauração de determinada ordem social.

No início do mundo, o povo Nambiquara não conhecia a agricultura. Vivia da caça, pesca e coleta de insetos, cogumelos e tubérculos nativos. Mas, tudo mudou quando pai e filho saíram para caçar, ao amanhecer, em direção à floresta Yenkatensu. O menino, quando chegou, ouviu um som desconhecido, sem identificar de onde vinha. Perguntou ao pai, mas ele nada ouvia. Parecia que aquela melodia era somente para os ouvidos do menino. Tomou conta de seu corpo a ponto de não querer mais voltar para casa. Insistentemente, pediu ao pai para deixá-lo naquele lugar, onde estava o som; que ele voltasse sozinho à aldeia e explicasse à família. Inconformado, chegou só à aldeia e com o cesto-cargueiro vazio às costas. A tristeza passou a morar com a família.

Uma lua se passou. Atendeu ao pedido do filho em retornar à Yenkatensu na companhia de seus irmãos, avós, tios, primos, enquanto as mulheres permaneceram na aldeia. Quando chegaram ao local, tudo estava muito diferente. A vegetação era desconhecida. E o menino não estava ali...

Quando cada uma das plantas foi examinada, entenderam o que havia acontecido. O menino estava ali, mas de outra maneira. Sua cabeça foi transformada em cabaça; os cabelos, nos estigmas da espiga de milho; as lêndeas, em sementes de fumo; as sobrancelhas, em algodão; as orelhas, em feijão fava; os olhos, na semente da abóbora; os dentes, em grãos de milho; as mãos, em folhas de mandioca; o sangue, em urucum; o fígado, em taiá; os testículos, em cará; os ossos das pernas, em araruta; as unhas dos pés, em amendoim; os músculos, em massa de mandioca; a urina, em bebida à base de mandioca. Sua alma, na melodia mágica da flauta, wãilhu, encontrada em meio à plantação.

Até hoje, quando se preparam para as atividades agrícolas, os homens entoam suas flautas em homenagem àquele menino que foi atraído pelo som mágico e encantador da flauta, que deve estar sempre longe dos olhares femininos. Acreditam que ficarão doentes e morrerão. As mulheres contentam-se em ouvir os instrumentos musicais e, quase sempre, adormecem ao som entoado pelos músicos, na companhia de seus filhos menores. Contudo, sem que sejam chamadas à atenção, em decorrência aos cochichos e gracejos, algumas vezes, mocinhas costumam ficar agitadas, quase em excitação, procurando adivinhar a identidade dos músicos e, de brincadeira, simulam sair da casa. 

O Nambiquara crê que, anualmente, durante as atividades agrícolas, o menino da flauta retorna à aldeia para visitar seu povo. Ao ar livre, homens enfileirados, em passos sincronizados e firmes, entoam a flauta sagrada para agradecer por sua transformação.  Seu espírito é alimentado pelos tocadores que, com uma cuia de cabaça, katesu, despejam chicha de mandioca através do orifício existente no instrumento. Desde então, a agricultura passou a ser, junto à atividade coletora, a base de sua sobrevivência e está fortemente relacionada ao menino que, no tempo de antigamente, foi atraído pelo som mágico e encantador de uma flauta, wãilhu, que o transformou em plantas comestíveis e utilitárias para seu povo. 

 

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Siuintyalusu: assombração das matas escuras

 

As perfurações do septo nasal e do lábio superior e seus respectivos adornos são códigos identitários do povo indígena Nambiquara. Atualmente, habita diversas aldeias de um território descontínuo, de ocupação milenar, a Oeste de Mato Grosso e Sul de Rondônia, na Serra do Norte, Vale do Guaporé e Cerrado. Seus mais de trinta grupos possuem particularidades que se fazem presentes em sua cultura material e imaterial.

Os grupos do Cerrado, Halotesu, Kithãulhu, Sawentesu, Wakalitesu, Niyahlosu, Siwaihsu e Hinkatesu, acreditam na existência de um número surpreendente de seres sobrenaturais, de índoles boa e má. Suas moradas são as montanhas, nascentes d’água, buritizais, brejos, cachoeiras, lagoas e rebojos. Mas, podem sair de seus lugares e confrontar crianças, jovens e adultos em suas casas, nos lugares de caça, de pesca e de coleta.

Dentre os seres sobrenaturais que assustam, perseguem, matam e devoram pessoas, está o temido Siuintyalusu, ser malfeitor do mundo da noite, da escuridão. De estatura extremamente alta, sua cabeça possui apenas um fio de cabelo, enquanto sobrancelhas, axilas e barba são fartas de pelos.  Tem testa estreita, de cor branca, nariz afilado, boca pequena, dentes pretos. Suas mãos possuem dois dedos; seus pés são avantajados e exibem dedões tão grandes que os demais tornam-se minúsculos. Partes de seu corpo assemelham-se às dos animais: orelhas e braços como as do macaco coatá; pênis como do morcego.

Siuintyalusu, que traz em seu peito uma luz, não pronuncia palavra, grunhido algum. Entidade valente, ainda que não flexione cotovelos e joelhos, consegue andar e voar. É assustador vê-lo tocar o chão com os pés para tomar novo impulso para continuar voando. Somente índios mais experientes conseguem perceber, de longe, sua presença, quando escutam a movimentação de seu voo ou do balanço dos troncos das árvores que se agitam com seu pouso. Dançarino, exibe sua cabeça com cocar de palha de buriti e seus tornozelos com chocalho de coco, também de buriti. Possui uma uãru, flauta, que deve ser vista e ouvida somente pelo wanintesu, o pajé. Se outra pessoa escutar adoece e pode morrer, dependendo da doença que contrair.

Casado, com filhos, Siuintyalusu gosta de bichos de estimação: cria lagarto, quati, gavião, marimbondo, coatá e cobras pequenas. É à noite que ataca, quando invade aldeias e carrega mulheres, de preferência, menstruadas; crianças podem acordar assustadas, por sentirem que o ser sobrenatural está por perto ou por terem sonhando com ele. Nesses casos, mães costumam colocar sua palma da mão sobre a fronte do filho e soprar, da cabeça aos pés.

Pajés poderosos podem espantá-lo ou matá-lo. Espada, machado de pedra, flecha de ponta arredondada ou espingarda são usados pelo pajé para matar Siuintyalusu. Mas é preciso acertar seu peito com espada ou seus joelhos com flechas, únicas partes mortais. Porém, quem pensar que ao morrer, ficará livre do monstro para sempre, está muito enganado! Macacos coatás podem transformar-se em Siuintyalusu se forem caçados à noite e seus corpos levados para a aldeia para serem preparados e ingeridos. Somente no dia seguinte, com Sol no céu, o animal abatido deve ser recolhido pelo caçador.

Dizem os indígenas que Siuintyalusu é o mais perigoso entre todos os seres maléficos que percorrem suas terras. Faz sua casa no oco de grandes troncos das árvores, nas matas escuras. Perigoso andar próximo dessas árvores, porque ele está sempre à espreita. Desce rapidamente e, como um pássaro, agarra a pessoa incauta e leva-a para sua casa para devorá-la. Para evitar confrontos com o monstro, o melhor a fazer é ouvir a sabedoria dos pajés que, ao redor das fogueiras acesas, ensinam boas maneiras.

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Mulher, mel e urucum: encantamento paronímico Nambiquara

 

Para os grupos indígenas da etnia Nambiquara do Cerrado, as palavras mulher, txusu, mel, tusu, e urucum, txusu, são pronunciadas de forma semelhante. Esse encantamento paronímico designa três substantivos comuns que, na cosmologia dos índios, encontram-se repletos de simbolismo. A mulher, dentro da concepção mais ampla que essa palavra abrange, é o próprio princípio da vida, no sentido de poder gerar filhos, perpetuar a espécie humana; o mel corresponde à mais pura doçura que um alimento pode oferecer, necessário ao ânimo, à alegria; o urucum representa o sangue do menino que se transformou em plantas comestíveis e utilitárias, imprescindíveis à boa saúde espiritual e corporal e o sangue menstrual.

Pelos homens, a mulher é enaltecida por sua jovialidade, beleza, disponibilidade e doçura.  O ideal amoroso masculino nutre-se da associação desses atributos à aptidão em cumprir tarefas cotidianas no espaço da aldeia e, fora dele, aos méritos coletores, ou seja, pelo modo como as qualidades constitutivas do produto de seu trabalho manifestam-se.  Grande parte do labor doméstico feminino é praticada na casa e arredores, quando preparam e armazenam alimentos, confeccionam peças ornamentais, cuidam e brincam com suas crianças.  Fora daí, em expedições pelo cerrado, coletam matérias-primas, frutos, tubérculos, insetos (inclusas as larvas) e produtos da roça.

Desde pequenas, as meninas são preparadas para inúmeros afazeres que executarão num futuro bem próximo, pois se casam, quase sempre, na idade púbere, ao término da cerimônia de reclusão da primeira menstruação. O costume de prender uma menina-moça, waintasu, em uma casa específica, no período da menarca, por um ou mais meses, está registrado na narrativa mítica, quando a mãe resolve castigá-la por não lhe obedecer.

A mãe pedia para a filha para buscar água.  Pedia-lhe para pegar lenha, atiçar o fogo, cozinhar. A menina não atendia nenhum de seus pedidos. Tudo o que a mãe queria da filha, não obtinha êxito. Muito zangada, prendeu a menina em uma casa, somente para ela.  A todo instante, a mãe entrava na casa para dar-lhe banho.  A filha chorava de frio, tanto que acabou morrendo. Desse dia em diante, quando ocorre a primeira menstruação, Nambiquara passou a prender mocinhas em casas destinadas somente para essa finalidade. Mas, não as mata de frio.

O período de reclusão da menina púbere, wayuhlitasu, tem a função de protegê-la dos espíritos maléficos que a cercam. O odor do sangue catamenial atrai seres sobrenaturais que desejam sua vida. Deixá-la reclusa impede que seja atacada pelo espírito do gavião, dauptátasu, que fica à espreita para beber seu sangue e levar seu espírito para o céu.

Além do gavião, o espírito da arara vermelha, ãlãatikisu, habitante das cachoeiras e nascentes dos rios e que aprecia em demasia o fruto do buriti, é igualmente temido. Contam os índios que esses espíritos agridem moças menstruadas que, em desobediência, banham-se nos rios desacompanhadas.

 

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Vozes dos animais

 

Para o povo indígena Nambiquara, habitante de terras indígenas localizadas ao Oeste de Mato Grosso, a diversidade das línguas encontra-se registrada nas páginas de sua mitologia, guardadas nas memórias de gentes velhas. O rosto, a casa da memória sxiyensu (sxi = casa; yensu = rosto), é concebido como uma evocação ao tempo pretérito da narrativa mítica, de modo que todas as pessoas, com seus modos de viver, incorporam seu saber, sentir e pensar ao território onde habitam. Na cabeça, nekisu, representada na mitologia por uma cabaça, está a possibilidade do uso da linguagem para a comunicação entre as pessoas.

Não é espantoso para os indígenas da etnia Nambiquara que existam muitas línguas faladas por povos indígenas ou não. Isso porque associam aos diversos sons emitidos pelas aves, mamíferos, répteis, insetos. Essa crença vem de tempos longínquos, quando uma mulher velha ensinou a dois jovens o modo de comunicação das aves e dos mamíferos, todas guardadas na cabaça-memória.

Esses moços, depois de fazerem suas flechas e facas afiadas de lascas de bambu, chamaram a mulher que entendia a língua dos animais para ir caçar com eles. No caminho, encontraram uma perdiz e uma seriema. Pediram para a mulher velha, que com dificuldade conseguia acompanhá-los, imitar o canto da ave perdiz. E ela, sem dificuldade alguma, conversou com a ave: aluterali... aluterali...

Depois de abaterem muitas perdizes, os moços pediram para que a mulher conversasse com a seriema, bem próxima deles. E a mulher conversou com a ave:  Tala... tala... Os três voltaram para a aldeia com seus cestos-cargueiros às costas, com o peso das aves abatidas.

Até hoje, desde pequenas, graças à sabedoria da mulher velha, crianças indígenas aprendem a identificar as vozes das aves, dos animais, dos répteis, dos insetos, como também seus costumes. Dos animais que habitam sua região, tudo sabem.

 

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O coaxar do sapo

 

O povo indígena Nambiquara do Cerrado acredita que a história do coaxar do sapo aconteceu há muitos e muitos anos. Em dias tão longínquos dos de hoje, que não dá para contar. De jeito nenhum. Nem com a infinidade dos números. Foi no ‘tempo de antigamente’, kaninaitã, como costumam dizer, época em não se conhecia a agricultura e os seres humanos, aves, mamíferos, répteis, peixes, anfíbios, insetos conversavam entre si.

O sapo cunauaru, de coloração cinza escura, cansado, muito magro e sem condições de se movimentar, ao encontrar seu companheiro no meio do caminho, pediu para que o levasse para um oco de pau. Explicou que estava muito doente. O sapo prontamente aceitou ajudar seu parente e carregou-o em suas costas até um tronco de árvore, onde havia um buraco fundo e escuro. Antes de ir, deixou uma cuia com água. E lá ficou o sapo enfermo que, logo, logo pôs-se a coaxar para o sapo solidário.

O sapo solidário, indiferente ao coaxar do sapo adoentado, seguiu seu caminho, a pular e engolir insetos até se fartar. Aborrecido, de dentro do oco do pau, perguntou ao companheiro se gostava de sua voz. Empanturrado de insetos, displicentemente respondeu que sua voz era feia e fina.

Mas o sapo adoentado, que precisava demonstrar que recuperara suas forças e que estava tão forte quanto o companheiro solidário, esforçou-se ainda mais. E de dentro do lugar oco, demonstrou com exibição sua voz. Novamente, quis saber a opinião do sapo que continuava deitado de barriga cheia. Mais preocupado em continuar sua perseguição aos mosquitos, afirmou que sua voz estava grossa e bonita.

O sapo vaidoso, passou a morar e a nidificar no oco da árvore, onde sempre tem água. Na época das chuvas, todos podem ouvir sua voz: kuãru, kuãru, kuãru.

 

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Quando o mundo acabou. O urutau, a mulher Sol e o homem Lua

 

Urutau, uma ave de hábitos noturnos, também chamada de mãe-da-lua e emenda-toco, alimenta-se de animais de pequeno porte como morcegos, lagartos e pássaros. Mas tem preferência por insetos que consegue capturar em pleno voo. Não se assusta com facilidade e não se acostuma ao ambiente citadino. Quando pousado, sua postura estática e sua plumagem deixam-no camuflado, confundido com um pedaço de madeira ou galho de árvore, por isso, é também conhecido por camaleão dos céus.

Os indígenas da etnia Nambiquara, habitantes de terras localizadas ao Oeste de Mato Grosso, acreditam que o urutau, utisu, é a ave responsável pela regularidade do dia e da noite. No tempo de antigamente, que não se pode contar de jeito nenhum, o dia morava dentro de uma cabaça branca e a noite morava dentro de uma cabaça preta. 

O grande pajé era o dono das cabaças.

Sim! Ele mandava nas cores do céu, onãnkosu. Na cabaça branca, ele guardava o dia; na cabaça preta, a noite. Todo fim de dia, ele guardava a mulher Sol, ujenakisu, em sua cabaça branca e, do interior da cabaça preta, retirava o homem Lua, ilakisu. Era hora de todos pararem de trabalhar. Hora de contar histórias, de dormir.

No dia ensolarado. O pajé precisou ausentar-se da aldeia. Como faria para recolher a luz da mulher Sol? Quem libertaria a escuridão do homem Lua? Lembrou do urutau que, por suas características, era o mais indicado para ficar de posse das cabaças e controlar as cores do céu. Chamou a ave para explicar o momento correto da entrada da mulher Sol e da saída do homem Lua em suas respectivas casas de cabaças. Mostrou-se entendido no assunto e prontamente aceitou a importante missão.

Com as cabaças em seu poder, sentiu-se o próprio pajé. Faceiro com a tamanha responsabilidade que lhe foi atribuída, levou os recipientes para o toco de uma árvore. À espera da hora de recolher a mulher Sol, descansou. Mas, ao movimentar-se, percebeu que uma das cabaças produzia um som, semelhante a um chocalho. Era a cabaça da noite. Chocalhou o recipiente do dia com as duas asas. Nenhum barulho. De novo pegou a cabaça falante e mal agitou, produziu o mesmo som. E, curioso como ele só, resolveu destampar a cabaça antes do acertado com o pajé.

Com precaução para evitar um mal, abriu só um pouquinho a tampa de sabugo de milho para saber o que produzia barulho. Eram contas miúdas de coco tucum, pérolas negras do cerrado, ideais para a confecção de colares que protegem dos maus espíritos. Fechou!

Mas, as horas pareciam não andar. A mulher Sol a pino. Sacudiu novamente a cabaça da noite. E as contas de tucum cantavam... A ave cobiçava um colar para ornar seu pescoço. Destampou de vez a cabaça do homem Lua para obter as contas de coco tucum, a imaginar um precioso colar em seu pescoço. De dentro da cabaça, o homem Lua saiu abruptamente e ocupou toda a abóboda celestial. O urutau tentava em vão puxar a escuridão para o interior da cabaça. Enquanto isso, os homens que caçavam perderam-se no mato com a chegada inesperada do homem Lua. Na aldeia, as pessoas estavam amedrontadas.

Em pavor, gorjeou: uuuuu-ru-tauuuuu, uuuuu-ru-tauuuuu.

De longe, o pajé viu a escuridão caminhando em sua direção. Antes de chegar à aldeia, foi ao encontro do urutau que envergonhado entregou-lhe as cabaças. Exaltado, o pajé tentou colocar de volta na cabaça da noite a escuridão do homem Lua. Mas, foi inútil.

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Saíkisu: as crianças-estrelas

 

Nealusu, um velho Nambiquara, e sua mulher moravam em uma casa longe da aldeia, longe dos demais índios. Eram apenas os dois no meio do cerrado, a cultivar mandioca nas matas ciliares. Ninguém, além dos velhos, possuía mandioca. Isso causava muita revolta nos parentes da aldeia distante.

Inconformados, planejaram roubar mandioca do casal avarento. Na expedição, homens e mulheres encontraram um percevejo do mato, apetitosa iguaria presente no cardápio Nambiquara. Como não identificaram ser um disfarce de Hayeru, um espírito maléfico, levaram para comer com beiju feito com a farinha de mandioca dos velhos. Mal sabiam que, ao chegar próximos à casa de Nealusu e sua esposa, seriam mortos e moqueados pelo percevejo do mato.

Na aldeia distante, diante à demora dos homens que foram em busca do tubérculo, outra expedição foi organizada. E, novamente, os homens foram pegos pelo inseto comedor de gentes. Pela segunda, não obtiveram êxito e pelo mesmo fim foram mortos. Por várias vezes, tentaram chegar inutilmente até a aldeia do casal plantador de mandioca. Até que chegou um dia em que não havia mais homens e mulheres adultos na aldeia. Somente crianças.

Primeiro, foram as crianças maiores que seguiram os pais. Mas não escaparam da malvadeza do inseto. Na aldeia, restaram as crianças menores que, desconfiadas do desaparecimento de todos, resolveram não repetir aquele fadário que atingia a todos. Ao invés de integrarem a última expedição, decidiram morar no céu. Foram buscar cipó-escada bem comprido para conseguirem alcançar a lonjura do céu.

E as sete crianças, a caminho do céu, repetiam: – Vamos para o céu! Vamos para o céu! Vamos para o céu! Subiam, subiam, subiam até que viraram estrelas, Saíkisu ou Plêiades, um punhado de cuias pequenas penduradas em uma cordinha de fibra de tucum do campo.

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O jacaré e a menarca

 

Os grupos Mamaindê e Negarotê, da etnia Nambiquara, edificam suas casas em uma parte das terras férteis do Vale do Guaporé, entre os rios Pardo e Cabixi, em Mato Grosso. Seu território é responsável por nutrir seus membros com o trabalho da caça, da pesca, da agricultura, da coleta, dos rituais, das sessões de cura, do divertimento, do nada fazer.

Vem do tempo mítico, do ab initio, o hábito de festejar a menarca. Com esmero, homens e mulheres cuidam de todas as etapas de tão importante momento na vida de uma mulher, da comunidade. Sob a proteção de um enorme jacaré mítico, morador de uma lagoa sagrada, a menina-moça é resguardada da luz do sol. Diariamente, o corpo da menina é preparado por mulheres, quando untam com tintura de urucum, até que troque de pele para, ao término da reclusão, sair revigorada, apta à vida a dois, junto ao seu marido.

Em uma Lua, período que corresponde a um mês, a cantoria durante a noite celebra a vida que se renova. Vozes reproduzem cantigas recentes e ancestrais, passadas de geração a geração. Tempos misturam-se, trazem lembranças dos donos das músicas, sentem saudades daqueles que não estão mais ali, comemoram a visita dos espíritos de seus antepassados que atendem aos convites em cantos apelativos.

Os índios acreditam que se enfeitar indica um dos caminhos para obter a proteção contra os maus espíritos. Embelezam-se com brincos de madrepérola, adorno plumário de cabeça, colar de coco tucum, braçadeiras, jarreteiras e tornozeleiras para satisfazer a vontade dos espíritos.

Os adornos e a boa música enaltecem os convidados que chegam para privilegiar a moça homenageada. Preocupam-se em levar às letras musicais seus modos de viver, entrelaçados aos sons oriundos de instrumentos musicais e de vozes de homens e mulheres que perpetuam e ressignificam um repertório de composições, de extraordinária grandeza.

Algumas lagoas dos grupos Mamaindê e Negarotê que estão fora dos limites da Terra Indígena Lagoa dos Brincos correm risco de secar em consequência do desmatamento desmedido. Os índios pedem, sem sucesso, a revisão da área de ocupação ancestral para proteger águas e seres míticos das lagoas que protegem meninas-moças.  Enquanto isso, o jacaré mítico continua em estado de alerta para que as águas das lagoas não sequem, os moluscos das conchas não morram e possam continuar a enfeitar homens e mulheres que celebram a vida.

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O percevejo e as duas cigarras

 

Buriti, palmeira-dos-brejos de frutos saborosos, tão abundante nas regiões do Pantanal, Cerrado e Amazônia, alimenta gentes, bichos e insetos. Contam os índios da etnia Nambiquara, habitantes de terras a Oeste de Mato Grosso, que o percevejo-do-mato, também conhecido como Maria-fedida ou fede-fede, derrubou um pé de Buriti para obter seus frutos tão cobiçados. Por não estar na época da madureza dos frutos, que acontece nos meses de novembro e dezembro, sorrateiramente, reservou um lugar no chão para apressar seu amadurecimento. A vontade de Buriti era tanta...

Tempos depois, o percevejo-do-mato retornou ao local onde havia deixado sua reserva de alimento. Para sua surpresa, encontrou a terra remexida e quase todos os cocos descascados e roídos. Furioso, voltou à sua malcheirosa colônia de percevejos para contar o que havia acontecido.

Sem imaginar a autoria do desditoso acontecimento, na madrugada do dia seguinte, o percevejo-do-mato resolveu dar uma incerta na sua reserva de alimentos, já que ainda restaram algumas frutas inteiras. Pouco tempo esperou, até que duas cigarras, uma gorda e uma magra, pousaram nos cocos restantes. Chegaram carregando pedaços de beiju, uma iguaria à base de mandioca, apreciada também por gentes e bichos. Por exalar odor tão fétido, o percevejo-do-mato logo foi descoberto pelas cigarras. Como quem não quer nada, aproximou-se dos insetos de asas transparentes. Pediu beiju à cigarra gorda, que lhe ofereceu um modesto pedaço. Zangado por ter comido seus cocos de Buriti e por sua mesquinhez, o percevejo-do-mato atingiu a cigarra gorda com um tapa em sua barriga, fazendo-a cair morta entre os galhos de uma árvore próxima. Por esses galhos, escorreu uma substância amarelada do coco do Buriti que havia se fartado.

A cigarra magra, pousada no chão, próxima ao local onde estavam enterrados os cocos de Buriti, testemunhou a tudo. Num voo surpreso, o percevejo-do-mato chegou perto da cigarra magra para matá-la. Mas, o inseto alado de canto estridente estava imóvel, como se tivesse morrido. Bem próximo à cigarra magra para certificar-se de que estava mesmo morta, os olhos do inseto fedido foram atingidos pela urina da cigarra que o enganara. O percevejo-do-mato, deitado de patas para cima, esperneou de dor. A cigarra magra alçou voo, escapando da morte.

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Amor de índio

 

Relações sexuais entre humanos e inumanos ou com espécies da fauna e da flora são comuns nas crenças e nas narrativas mitológicas de diversos povos indígenas. Na sociedade Nambiquara, humanos, especialmente os do sexo masculino, podem manter relações sexuais com plantas, animais e seres sobrenaturais. Um pajé Nambiquara tem duas mulheres: uma mulher humana e outra inumana. Na puberdade, desposa uma jovem, união arranjada entre seus pais e os da nubente; mais tarde, quando estiver de posse de seus poderes xamanísticos, uma mulher-espírito o procurará para casamento. Das relações sexuais, nascerão crianças-onças e uma grande variedade e quantidade de frutas que abastecerá a aldeia naquele ano.

Ao se unir a uma mulher-espírito, o pajé acumula mais poder. A mulher-espírito tem liberdade de procurar pajés para casar-se.  Como são espíritos da natureza, não possuem laços de parentescos com nenhum Nambiquara e, por isso, estão desapegados às regras que direcionam a teia matrimonial.  Acham-se livres para escolher aquele que mais lhes agrada e permanecer em sua companhia enquanto estiver enamorada.  Mas, se o esposo-pajé e os moradores da sua casa lhes causarem alguma dor, a mulher-espírito poderá ir embora, quando procurará outro o pajé.

Nos rituais de cura, mulheres-espíritos auxiliam o pajé no diagnóstico da doença e indicação medicamentosa à base de plantas medicinais ou mesmo, em menor escala, de animais (caldo de caninana e de perdiz). Assim como a esposa-humana do pajé permanece ao seu lado nas sessões de cura, para abastecer de chicha o caldeirão e para acompanhá-lo na cantoria, sua esposa-espírito, também representada por uma onça, coopera no processo de cura e ensina-lhe novas cantigas.  Dona de ornamentos mágicos, moradora das cavernas, sua imagem assemelha-se à da mulher humana, mas de beleza superior. Ela conta com a colaboração de outras mulheres-espíritos, suas irmãs, para abastecer a mata e o cerrado de frutos e tubérculos, resultado das relações sexuais com o pajé.

O pajé deve cultivar com astúcia um ambiente familiar harmonioso para sua esposa-espírito, a fim de que ela permaneça ao seu lado, junto a sua família. Todos usufruem da união do pajé com uma mulher-humana e com uma mulher-espírito, pois podem contar com sua proteção contra espíritos sobrenaturais que sempre estão à espreita, à espera do momento oportuno para fazer-lhes mal. Mulher-humana e mulher-espírito são parceiras.

Sem os poderes de uma mulher-espírito, que pode se metamorfosear em onça, o pajé jamais terá a credibilidade dos demais moradores de sua aldeia. Ele precisa ter muita habilidade com sua esposa humana e com sua esposa-espírito para que possa usufruir de suas companhias por tempo duradouro, a engrandecer seus poderes, sua notoriedade como pajé. 

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De quem é o fogo?

 

Adalberto Holanda Pereira, um etnólogo cearense que conviveu muitos anos junto ao povo indígena Nambiquara, ouviu ao redor da fogueira que, no tempo de antigamente, aquele que não se conta, homens e mulheres, ao saírem da grande montanha de pedra preta, passara a conviver com os animais, a conversar entre si, a disputar alimento. Os animais, há tempos a céu aberto, sabiam dos hábitos da natureza.

  Na aldeia, infalivelmente, Dikilisu, um tamanduá, bem cedinho, visitava seus amigos índios. A hora era sempre a mesma: quando as mulheres preparavam a massa para o beiju, uma espécie de pão à base de farinha de mandioca. Também, com seu poderoso olfato, era muito fácil chegar na hora certa. Outros animais visitavam a aldeia, mas esporadicamente. Nunca com a frequência do enorme mamífero. Como de hábito, todo alimento deve ser dividido entre todos, gentes e bichos. 

Até aí, tudo certo. O que começou a intrigar os moradores da aldeia foi o fato de o tamanduá-bandeira nunca comer beiju junto aos índios. Inventava desculpa qualquer para levar para sua casa. Desconfiados, seguiram Dikilisu. E, na aldeia dos tamanduás, todos se deliciavam com beiju assado. Como assavam os beijus?

No dia seguinte, na fartura de beijus crus, ansiosos aguardavam a chegada do tamanduá-bandeira que sempre chegava na hora certa. Diferentemente das outras visitas do mamífero, fartaram de beiju seu cesto-cargueiro. Prazenteiro, voltou a aldeia sem perceber que estava sendo seguido.

Ao colocar o cesto-cargueiro no chão, cuidadosamente Dikilisu recebeu dois pauzinhos de sua mulher. Ao friccionar um no outro, mesmo de longe, os homens avistaram uma fumacinha que, junto às folhas secas, ateou fogo para assar o alimento. De tanta porção de beijus assados, em torpor ficaram, hora fácil para os homens levarem o cobiçado fogo.

Homens e animais geraram fogo.

Os homens descobriram que o fogo vive forte quando sobre ele carnes de animais assam e seu caldo escorre para alimentá-lo. Sem carne de caça para assar, o fogo é baixo, amuado e tem vida curta.

 

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A cura das enfermidades

 

No tempo de antigamente, ab initio, a pessoa do pajé não existia entre os grupos da etnia Nambiquara do Cerrado. Mas, houve um dia na aldeia em que um menino adoeceu seriamente, deixando todos em grande tristeza.  A gravidade da saúde do indiozinho levou o pai, que era pajé, mas não conhecia suas virtudes sobrenaturais por nunca terem sido reveladas, a caminhar a ermo pelo cerrado.

   Já afastado do círculo da aldeia, avistou uma montanha muito grande. Sem entender, conseguiu entrar naquele lugar e encontrou muitas almas.  O dono da casa, um espírito, entregou uma planta ao homem e recomendou a preparar banhos para a criança.  O pajé acatou o que foi determinado e voltou para casa.  Ao chegar, explicou a sua mulher como obter o remédio. Seu filho foi tratado com aquelas raízes, quando, depois de alguns dias, recuperou plenamente sua saúde. 

O pai do menino lembrou da casa das almas e construiu uma para ele e sua família com o mesmo formato arredondado.  Passou a morar na casa para ter sempre a lembrança da montanha sagrada e de seus antepassados.  Numa tardezinha, após a cura da criança, o pajé chamou os moradores da aldeia para revelar seus poderes sobrenaturais. Desse dia em diante, passou a responsabilizar-se pela boa saúde de todos.

Além de se premunir e aos demais indígenas de diversos infortúnios, outras atribuições cabíveis aos pajés distinguem-no dos outros membros de seu grupo.  Possuem poder visionário, estabelecem relações com os espíritos dos mortos e da natureza (de quem aprendem novos remédios, quando benfeitores), falam com animais, transportam objetos mágicos em seu corpo, sabem colocar ou desfazer feitiços e fazem retornar a alma que tenha se retirado do corpo dos enfermos.

Aos poucos, outros pajés foram surgindo e aprendendo a fazer uso de remédios extraídos de folhas, raízes e cascas vegetais, também a usar a técnica da sucção, a sugar pontos dos corpos adoentados das pessoas. Ao repetirem várias vezes esse ato, levam a mão à boca para a retirada de algum objeto em decomposição do corpo do paciente. Esses objetos são arremessados para longe, quando o pajé profere palavras consideradas poderosas e decisivas para a cura da doença. Seu canto e vasto repertório musical preenchem os procedimentos milenares de cura, transmitidos de geração em geração.

Mas chegaram, igualmente formigas, os kwajantisu, comedores de feijão, como o povo Nambiquara do Cerrado chama os não indígenas. Com eles, muitas moléstias desconhecidas trouxeram. Os indígenas conheceram doenças infectocontagiosas como o sarampo e a gripe que os levaram quase ao extermínio. E os pajés vêm associando suas práticas de cura às do kwajantisu...

 

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Coisas de bichos

 

É tempo em que homens e animais conversam entre si e bichos vivem como gentes. A confusão começa quando a cascavel morde o pé da filha do gavião. Não resistindo ao veneno da cobra, a ave faleceu para grande infortúnio de seu pai. Inconsolável, ele chorava todas as manhãs. O queixume triste da ave de rapina chama à atenção da lagartixa que se aproxima intrigada com aquela nênia dolorosa.

Depois de saber do ocorrido, o pequenino réptil sai à procura da cascavel, sua amiga, para ter a certeza de que foi ela mesma quem matou a filha do gavião. Encontra um buraco onde moram um homem, uma mulher e seus tantos filhotes. No chão, próximo à família, uma flecha com a ponta manchada de sangue. A lagartixa não tem dúvida de que o malfeitor é mesmo a cascavel.

Levado à morada da família pela lagartixa e acompanhado do beija-flor, chega a vez da vingança do gavião, que empunha uma flecha fisga trifurcada e uma lança. Sondam o movimento ao redor da casa e permanecem, os dois, à espera da cascavel malfeitora que matou a menina. A função do pássaro beija-flor, uma mulher-espírito, é a de se achegar, em voos rasantes, bem pertinho da entrada da casa, a bater fortemente suas asas, provocando um estrondo semelhante ao do trovão, um espírito muito temido. Mas, somente os filhos curiosos da cascavel saem para olhar o céu que, ao contrário, não anuncia chuvas. Claro! É tempo da seca. A chuva está muito longe dali.

Outro beija-flor, de porte avantajado, chega ao local, levado pelo som do trovão. Ao saber do que está acontecendo, junta-se à beija-flor para aumentar ainda mais o estrondo da trovoada. E, novamente, as crianças intrigadas saem para verificar a cor do céu, que continua sem nuvens.

No dia seguinte, as três aves retornam à casa da cascavel. São incansáveis. Precisam vingar-se da morte do filhote de gavião. Os beija-flores, ritmados, batem com vigor suas asas que fazem o casal de cascavel impressionar-se com o vozeirão do espírito do trovão. O gavião, armado de flecha e lança, ataca fatalmente a mulher cascavel.

O corpo da cascavel jaz à frente da casa, enquanto o pai e as crianças permanecem acuados num canto escuro da casa. Os beija-flores, em voo de retirada, olham para trás e avistam o gavião fazer a cascavel em pedaços.

Contam os índios que do sangue da cascavel empoçado no chão nasceram a aranha, o rato, a lacraia e a cobra de duas cabeças.

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A imagem da alma refletida nos olhos do outro

 

A morte impinge à aldeia Nambiquara um clima de tristeza extrema, não só durante o rito funeral, mas também nos dias subsequentes, sob a vigília constante do pajé. Todo e qualquer tipo de sentimento é interiorizado, guardado dentro de seus corpos, num sofrimento mudo, somente perceptível através da expressão de seus semblantes. As lamentações e os choros, presentes desde o momento da morte, quando a alma deixa de habitar o corpo, podem durar dias.

Esses dias de luto são preenchidos com diversos afazeres desempenhados pelos familiares mais próximos da pessoa morta: o choro ritual, a queima dos pertences do morto, a abertura da sepultura por homens adultos, o preparo do alimento dos participantes diretos da cerimônia. Os entes mais próximos, após o sepultamento, queimam a morada do falecido, bem como aqueles poucos pertences pessoais que não foram levados à sepultura, a fim de que a alma não reconheça mais seus familiares. Assim, poderá seguir com certa tranquilidade os caminhos que conduzem à Montanha Sagrada, localizada além do espaço que envolve a vida na aldeia.

Para o povo Nambiquara do Cerrado, estar morto é também libertar-se de tudo aquilo que diz respeito à sua vida cotidiana. A fronteira que separa os mortos dos vivos nem sempre é transposta de forma tranquila, pois a passagem da alma de um lugar para outro não se dá de maneira súbita. A trajetória percorrida pela alma até à Montanha Sagrada ocorre gradualmente, ao longo de um perigoso período em que os entes mais próximos ao “quase-desaparecido” ficam vulneráveis e, até mesmo, ameaçados pela alma de ter idêntico destino. Expostos às constantes convocações para seguir o destino da alma do morto, os índios acham-se na obrigação de dissipá-la, numa espécie de esquecimento forçoso para que possam auxiliá-la a deixar a vida aldeã.

Os parentes usam disfarces para iludir a alma do corpo falecido, ainda despreparada para deixar seus familiares e amigos. Durante o luto, todos têm muito cuidado para não deixar sua alma adoecer. Pelos vivos, a temporalidade do luto é atravessada com muita cautela. Encontrar-se saudável, caçando, pescando, coletando frutos e tubérculos, confeccionando artefatos são procedimentos que contribuem para a manutenção da boa saúde da alma. O estado saudável da alma dos vivos pode ser visto. Os índios acreditam que “a imagem de sua alma é refletida nos olhos do outro, nos olhos de quem olham fixamente”.

Para a obtenção da boa saúde, uma nova vida se inicia para os entes da pessoa falecida. Constroem uma nova casa, trocam seus nomes, cortam seus cabelos, vestem-se de urucum e adornos. É aconselhável não pronunciar o nome daquele que se foi, pois este pode estar à espreita, entender como um chamado e resistir a seguir seu caminho até à Montanha Sagrada.

A Montanha Sagrada ou Casa das Almas é o lugar das almas do povo Nambiquara do Cerrado. Acha-se distante das aldeias, longe de barulhos e deve ser preservada dos transeuntes. Pelo pajé, a alma é levada até à montanha e, em sua ausência, por pessoas mais velhas, pois são aptas a fazer essa derradeira condução para a nova morada. Nesse local, a alma do morto passa a ter aparência jovem, bonita, saudável. Seu corpo nu, por inteiro, recebe a vestimenta de tintas e de adornos corporais. Com essa aparência, em estado de felicidade, encontra seus antepassados.

 

 

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Tetésu, a jararaquinha-dormideira

 

No tempo de antigamente, as gentes do povo Nambiquara não conheciam o sono. Não dormiam de jeito nenhum. Dia e noite acordados. Crianças, jovens, adultos, velhos. Homens. Mulheres. Sempre acordados. Curiosos, foram visitar a jararaquinha-dormideira do cerrado, a dona do sono, para ensinar como dormir.

Não quiseram entrar na casa de Tetésu, a jararaquinha-dormideira e, do lado de fora, gritaram muitas vezes seu nome, até que acordasse. A algazarra interrompeu o sono da serpente que, ao contrário de suas peçonhentas primas jararaca e jararacuçu, era tão dócil. Ainda sonolenta, saiu de sua casa para ver o que estava acontecendo.

Os homens explicaram à jararaquinha-peçonhenta que gostariam de conhecer o sono. Queriam dormir como ela. Queriam sonhar. A serpente prontamente dispôs-se a ensinar seu segredo. Antes, a jararaquinha-dormideira do cerrado alertou os homens que, ao dormirem, sonhariam. E que sonhos contam história boas e tristes. Assim mesmo, não desistiram. Queriam aprender a dormir para sonhar.

Em uma panelinha de barro acinzentado, Tetésu cozinhou sementes de urucum, até virar uma pasta bem cheirosa. Depois misturou cera. Aquela poção mágica faria o povo Nambiquara dormir. Aconselhou os homens a não passarem a pasta amarelada durante o caminho de volta, porque poderiam dormir antes de chegar à aldeia.

Desconfiados, obedeceram. Na aldeia, mostraram a todo mundo o presente da jararaquinha-dormideira e esperaram à noite chegar para passar ao redor dos olhos. Aquela noite foi silenciosa. Nada se ouviu. Com os olhos besuntados dormiram. Sonharam. E nunca mais esqueceram de Tetésu por conta da remela nos olhos, ao acordar, lembrando da pasta mágica da amiga serpente.

 

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Reclusão da menina-moça

 

Vem do tempo mítico, aquele que não se conta, o hábito de reclusão da menina-moça quando ocorre a menarca. Na aldeia, mãe e filha não se entendiam. Preguiçosa, avessa aos afazeres domésticos, nada fazia com que a menina atendesse aos apelos da mãe em acompanhá-la ao córrego para pegar água, lenha na mata, tubérculos na roça. Gostava mesmo era de ficar deitada, ao redor do fogo, a observar a movimentação do dia.

Enfezada, a mãe resolveu castigar severamente a filha. Prendeu a menina em uma casa de palha, só para ela. Por vários dias, muitas vezes, entrava na casa para dar banho na filha. Nem bem o corpo secava, outro banho, outro banho, outro banho... O corpo não dava conta de esquentar. A mãe continuava a dar banho na filha que, aos prantos, queixava-se de frio. Depois de algum tempo, a casa em silêncio chamou a malvada mãe. Lá estava, sem vida, o corpo da menina.

Foi a partir desse fato que o povo Nambiquara decidiu prender as meninas quando ficassem menstruadas pela primeira vez. Mas, diferentemente, a reclusão não as levava à morte. Com uma casa específica para essa finalidade, a menina em reclusão recebe tratamento cordial, boa comida, bons conselhos para a vida de mulher adulta. Nesse espaço, a jovem permanece por um período de uma lua, apenas se ausentando ao entardecer para participar das festividades, quando dançará, de mãos dadas, entre seus padrinhos, os escolhidos para acompanharem-na durante a comemoração. O tucano, yalansu, de plumagem excepcional, foi o criador do ritual. A fim de trazer alegria à aldeia, ordenou ao pajé que se responsabilizasse pela grande festa.  Para isso, ensinou-lhe cantos e a confecção de adornos para vestir a menina com belezura. Todos acreditam que a festividade traz boa saúde à homenageada.

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Educação Menstrual Nambiquara

 

Mulheres da etnia Nambiquara, desde pequeninas, seguem com rigidez os ensinamentos da educação menstrual. Passam a saber que devem proteger-se de espíritos malignos que ficam à espreita para atacá-las. Amedrontadas por seus hábitos antropofágicos, cuidadosas, protegem-se em reclusão no interior de suas casas até o término do ciclo menstrual. O temor por essas criaturas é tão grande que, durante esse período, comunicam-se por meio de sussurros. O trabalho diário, especialmente aquele desenvolvido ao ar livre, é suspenso. Ausentam-se dos rios, córregos, lagoas, nascentes d’água, cachoeiras, lugares preferidos desses seres que, sempre vigilantes, cobiçosos por sangue, aguardam pacientemente suas vítimas.

A água dos rios e suas proximidades são a morada de muitos espíritos do mal, sempre dispostos a atacar. Mesmo com interferência dos espíritos ancestrais e sobrenaturais benfeitores, esses seres inumanos criam circunstâncias propícias para cruzar seus caminhos. O simples fato de vê-los pode levar uma pessoa à morte, caso não seja um pajé.

Somente o pajé tem propriedades para ludibriar espíritos. Por isso, cabe-lhe indicar lugares inapropriados à presença humana, assim como ensinar seus nomes, sua aparência física e seus hábitos, incluindo os alimentares: cadáver putrefato, sangue, tubérculos coletados no fundo dos rios. 

Meninas-moças, ao menstruarem pela primeira vez, permanecem em reclusão por uma Lua, mais ou menos. O estado catamenial deixa-a extremamente vulnerável aos ataques dos espíritos maus. O odor catamênio é sentido de muito longe pelos espíritos do mal. É no interior da casa edificada especialmente para esse fim que meninas-moças aprendem com as mulheres mais velhas da aldeia os ensinamentos da educação menstrual, tornando-as mais confiantes e responsáveis. Nesse período, do tempo existente entre o ocaso e o nascente do Sol, o festival de iniciação à puberdade feminina entoa cantigas para fortalecer a menina, a espantar espíritos que aguardam qualquer momento para o ataque.

Dauptadahsu, um dos habitantes da Haluhalunekisu, a grande figueira suspensa no firmamento, é um dos seres mais temidos. Por se apresentar na aparência de gavião, deixa os galhos do enorme vegetal para, rapidamente, estar onde desejar e encontrar facilmente mulheres menstruadas para beber seu sangue. Logo depois, leva sua vítima até à árvore, onde serão mortas. Após se alimentar de todo o sangue menstrual de suas mulheres, mata-as, levando-as até o céu, capturando suas almas e não as deixando seguir para a Casa das Almas, para onde deveriam ir após a morte para encontrar com sua ancestralidade.

 

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O fumo da casa das almas

 

Homens da etnia Nambiquara não ficam sem fumo, etsu, envolto em folha de samaneira, yokawisu. Fumam durante todo o dia, mas longe da lida, principalmente da caça e da pesca. O descanso, a conversa, a prática de rituais são envolvidos pela fumaça e baforada de seus cigarros.

Raramente um cigarro é fumado de uma única vez. Ao apagarem o cigarro para ser aceso mais tarde, guardam-no preso à braçadeira de fios de algodão ou fibra vegetal amarrada na altura do bíceps, para as próximas pitadas. O fumo, depois de cuidadosamente preparado, é armazenado em um recipiente de cabaça, vedado por uma rolha de sabugo de milho. Ainda que raro, não com a repetição amiudada dos homens, mulheres casadas e mais velhas fumam no espaço reservado de suas casas.

É essencial que entre os vegetais cultivados nas roças haja muitos pés de fumo, que, outrora, no tempo mítico, originou-se das lêndeas grudadas nos fios de cabelos do menino que se transmutou em plantas úteis e comestíveis.

Para o Nambiquara, fumar nos rituais de cura, coloca pajés em contato com espíritos ancestrais e da natureza – seres não humanos e extra-humanos, respectivamente. Seres humanos vinculados a uma forma específica de contato com os domínios da natureza e da sobrenatureza, na consubstanciação do fumo, uma planta xamânica que, pelo cigarro, aciona a fluidez do princípio vital do enfermo. Fumar também dá ao pajé poderes para afastar espectros de gentes mortas que precisam deixar a aldeia e ir para a Casa da Almas, seu lugar.

O fumo, ainda que usado por todos os homens, é concebido como um dos elementos constituidores da pessoa do pajé. Creem que pajés têm capacidades de cruzar barreiras corporais e de enxergar seres não humanos, até mesmo, manter diálogos com eles. Não somente o fumo, mas a fumaça produzida por ele faz ver o invisível, faz espantar espíritos indesejáveis que importunam o cotidiano aldeão.

Na Casa da Almas, morada para onde vão as almas após a morte, tem quatro pés de fumo, de folhas avantajadas. Certa vez, em um tempo longínquo que não se pode contar, faltou fumo na aldeia. Um espírito, ao ver a tristeza do pajé por estar sem fumar, levou-o até a Casa das Almas. Lá chegando, abriu a porta com sua espada de madeira. Em seu interior, nada havia além de gentes bonitas e saudáveis. Não havia arcos, flechas, cabaças, cestos. Não havia comida. Havia fumo. Havia alegria.

 

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O velho louco

 

Uma expedição de caça, composta exclusivamente por homens, deixou a aldeia, permanecendo apenas dois velhos irmãos, ambos do sexo masculino, junto às mulheres e crianças. Um dos irmãos, queixoso, demonstrou sua insatisfação por não ter sido chamado ao trabalho.  Seu irmão justificou a atitude dos caçadores por serem velhos e ele, especialmente, por estar sempre doente. Inconformado, vociferou: “Não posso ficar em casa! Vem bicho!”, bradou ao irmão.

Aquela conversa não tinha fim. Até que tomaram uma decisão: saíram à caça. No caminho, encontraram uma colmeia da abelha manduri, grande produtora de mel. Ainda que tenham se esbaldado com o melado, o irmão doente, de ranzinzice, não aceitava o nome da abelha – sisu – e chamava-a de tyealisu. E por mais que seu irmão explicasse que não era tyealisu, mais ele teimava. Sem chegarem a um acordo, continuaram a caminhada pela trilha.

No caminho, outra espécie de abelha foi encontrada: arapuã. E os dois irmãos deliciaram-se com o sabor do mel, mas novamente discordaram em relação ao nome da espécie do inseto. Continuaram a andar até que uma colmeia da abelha borá-cavalo foi avistada por eles. Ainda que seu mel seja azedo, fartaram-se do caldo. Quanto ao nome da abelha, mais discordância por parte do irmão doente que já começava a demonstrar agressividade. Ele mudava o nome de todas as espécies de abelha e justificava pertencer a outro povo.

No percurso, mais outra colmeia da vespa enxu, muito confundida com abelha por também produzir uma geleia doce, semelhante ao mel de abelhas. E, saciados com tanta guloseima, ainda discutiam o nome da espécie. O irmão doente, irritado, resolveu voltar para a aldeia.   

Em silêncio, os dois seguiram para a aldeia. Por que o índio rabugento disse, repetidamente, pertencer a outro povo? Por que discordar dos nomes das espécies de abelhas? Em casa, junto à família, contou que seu irmão era louco.

 

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O roubo do machado de pedra

 

Na aldeia, os trabalhos agrícolas paralisaram por falta do machado de pedra. Dois irmãos do grupo Siwaysu, também conhecidos por Manduca, tomaram coragem e foram até a aldeia de gentes bravas que comiam gentes. Eram também os donos dos machados de pedra. Com seus arcos e flechas, caminharam, caminharam, caminharam até que, próximos à aldeia, gritaram para anunciar que estavam chegando.

De longe, os comedores de gentes começaram a atirar bolas feitas de leite de mangaba para que os recém-chegados agarrassem-nas, sem que as deixassem cair no chão, como anunciado. Caso os visitantes não conseguissem agarrá-las, seriam comidos. Ainda que velhos, os irmãos ágeis passaram a maior parte do dia a se jogar em todas as direções, assustados com seus destinos.

O sol deixou o dia. Uma mulher saiu de sua casa. Os homens comedores de gentes pararam de atirar bolas na direção dos visitantes. Um dos irmãos Manduca aproveitou e, com força, arremessou uma das bolas no peito da moça. A pancada da bola jogou-a ao chão, causando sua morte. Os comedores de gentes entraram na casa de onde saiu a moça. Lá ficaram. Em silêncio. Os irmãos Manduca entraram na casa. Pegaram uma grande quantidade de machados de pedra, tão cobiçados. 

De volta, os velhos e corajosos irmãos distribuíram machados de pedra para os homens de todas as aldeias. Depois da morte dos irmãos Manduca, ninguém teve coragem de roubar machados de pedra.

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Tempo de chuva

 

A libélula, matitisu, moradora da Figueira sagrada suspensa no céu, possui o poder da chuva. Há muitos e muitos anos, o espírito Dawasunusu encarregou o inseto para distribuir chuvas para as gentes lá debaixo. Ao seu talante, com seus minúsculos pés a bater um no outro, fazia chover com as águas da lagoa celestial.

As gentes debaixo não gostavam nem um pouco do trabalho de matitisu, porque ora chovia demais, ora chovia de menos. Dificilmente, acertava a quantidade de chuva necessária ao trabalho da caça, do plantio, da coleta. Somente um homem velho conseguiu sobreviver à desordem do inseto voador.

O homem velho só tinha uma saída: descobrir onde estavam as raízes da Figueira sagrada para subir e encontrar com a libélula para ensinar-lhe corretamente o tempo e a quantidade de chuva. Mas, onde estavam as raízes suspensas da Figueira? Desesperançoso, sentou-se.

As almas, que lá de cima assistiram a todo o esforço do homem velho, jogaram um cipó, alertando-o para segurá-lo firmemente e fechar os olhos durante o percurso. As bondosas almas puxaram o cipó para que o homem atingisse a copa da Figueira sagrada para conversar com matitisu. Assim que chegou, foi prevenido a não dirigir a palavra ao colérico gavião.

Ao encontrar com matitisu, o homem velho ensinou que, quando uma florzinha amarela desabrochasse no cerrado, não poderia fazer chover. Ela avisava que havia chegado o tempo de cuidar da terra para os trabalhos da roça; participava também as abelhas o momento de produzir mel. Deveria fazer chover somente com o estrondo das trovoadas e a cantoria das cigarras. E assim se fez. Matitisu aprendeu a lição dada pelo homem velho que veio das terras debaixo da Figueira sagrada.

 

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A anta e a mulher

 

Era o tempo em que gentes conversavam com animais. Às vezes, pareciam todos gentes... Aquele período venatório levou, bem cedinho, um casal Nambiquara à caça. O homem seguiu mata adentro, enquanto sua mulher sentou-se à espera do marido que seguiu com o cesto-cargueiro pesado às costas. Na mata, a proximidade de uma anta fez-se na vegetação abatida, nos rastros e nas fezes do animal. Sua pegada revelou ser um enorme e pesado animal, bem próximo do caçador. O homem caçador seguiu o assobio da anta.

Dito e feito! Estavam homem e animal, cara a cara. Mais rápida do que a flecha, a anta escapou e raptou a mulher, em atonia com o corre-corre. E, por um longo percurso, animal e mulher correram juntos. A mulher presa às costas do animal. Distantes do caçador, ainda assim, a anta não deixou a mulher soltar-se. Nem para urinar. Nem para defecar. E, com a noite a separar aquele dia de fuga, a anta dormiu com a mulher.

O novo dia não trouxe descanso à mulher. Logo ao acordar, foi colocada às costas da anta que saiu em marcha em busca de alimento. Chegaram debaixo de um pé de caju. O cheiro dos cajus madurinhos afrouxou a anta a atender a súplica da mulher que queria comer da fruta.

E a anta, em agrado à mulher, subiu no pé de caju a chocoalhar os galhos, a fazer descer tantas frutas maduras e cheirosas. E a mulher a pedir: – sobe mais, anta, há mais frutas no topo da copa da árvore.

E a anta subia, subia, subia... A mulher, fora do alcance da anta, deixou-a no mais alto galho do cajueiro. Seguiu em direção à aldeia. Mas, a mulher deixou rastro na areia fina e branca do cerrado. A anta, que correu mais rápido do que a mulher, chegou logo em seguida, quando viu seu filho acabar de nascer. A anta aproximou-se da família, mas a mulher não o reconheceu como marido. Os homens cercaram o animal. Conversaram com o animal. Adularam o animal. Serviram folhas de mandioca ao animal. Em gratidão, saciado, ensinou aos homens a caçar anta. E os segredos revelou: – no braço, no fígado e no bucho, a flecha não dá conta de matar. Mas, na banda da costela, é fatal se usada a flecha jurupará!

De posse do segredo e vingados, assistiram estendidos no chão aos corpos flechados da anta e de seu filho.

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A árvore da Vida

Conheci o povo Nambiquara do Cerrado na primavera de 1982. Como professora da Fundação Nacional do Índio, deixei o Rio de Janeiro, minha cidade natal, para viver em uma aldeia indígena. A atribuição recebida foi a de implantar um programa experimental de educação escolar indígena direcionado às suas necessidades emergentes, principalmente àquelas decorrentes do asfaltamento da rodovia Marechal Rondon, BR-364. Esperava-se que a estrada atraísse um enorme contingente de trabalhadores de diferentes partes do país, e sua abertura atingiria vários territórios indígenas, dentre eles, o Nambiquara. Como um dos condicionantes do Banco Mundial, instituição financiadora, as populações que viviam às suas margens, indígenas e não indígenas, deveriam receber atenção para amenizar os prejuízos decorrentes do impacto que a movimentação da estrada traria às suas vidas. 
Naquela época, para mim, a vegetação do cerrado formava uma paisagem desconhecida, distante daquela presenteada pela Mata Atlântica. Ansiava por conhecer os campos cerrados, com suas árvores retorcidas, a exuberância das matas ciliares ao longo dos rios e as veredas orladas de buritis. Confirmaria o que a literatura me fez acreditar ao percorrer Os sertões: campanha de canudos, de Euclides da Cunha, e sentir porque “a travessia das veredas sertanejas é mais exaustiva que a de uma estepe nua”. Ou, com João Guimarães Rosa, em Grande sertões: veredas, quando minha imaginação foi aguçada ao evidenciar, no decorrer da narrativa, a beleza das veredas banhadas com a “água azulada” do buritizal, associada à sua geografia imaginária. Também a arte de Percy Lau, peruano de Arequipa, me conduziu às baixadas inundáveis dos buritizais, de solo brejoso, e ao campo cerrado. Seus desenhos a bico de pena juntaram-se ao cenário desenhado à aldeia onde passaria a morar. Havia aprendido com nas páginas dos livros que para que as veredas tropicais possam ser entendidas é preciso viver no cerrado e saber do esforço dos arbustos e seus revestimentos espessos que, como armaduras naturais, os protegem das chamas do fogo e se retorcem para vencer a aridez do solo e dos longos períodos de seca; conhecer idênticos vigores da fauna e dos homens e entender a interdependência que os entrelaça no bioma do Cerrado.  Assim vivem os Nambiquara do Cerrado, parte integrante da paisagem. 
Na aldeia, o dia a dia ensinou-me a importância atribuída ao buriti, vegetal mantenedor do sagrado. Nos primeiros meses, a convivência com o Indigenista José Eduardo, a Atendente de Enfermagem Maria Nalva e especialmente as famílias de Anita e Lourenço Kithãulhu, Carlinda e Eutímio Kithãulhu, Madalena e Orivaldo Halotesu foi de um oferecimento para a minha adaptação à vida aldeã. O aceite dos indígenas e a vontade de desvendar parte daquele mundo incumbiram-se pela minha inserção no espaço tribal. Nesse período, entendido como de adaptação, novas aprendizagens desmontaram visões de mundo que havia levado na bagagem.
Na aldeia, no interior de minha casa, tive a impressão de que o mundo exterior desaparecia e nada, além do espaço do meu quarto, continuava a existir. A luz da vela, única iluminação de que dispunha, não me deixava ser engolida pela dimensão do escuro. Quando não ocorriam festividades e cerimônias de cura, a noite era reservada à leitura. Havia trazido do Rio parte de meus livros e logo organizei uma “biblioteca”, onde acomodei os exemplares em prateleiras de madeira, intercaladas por tijolos empilhados. E com uma vela fixa a um castiçal improvisado, percorria lentamente as estantes, a iluminar as lombadas dos livros, tornando-as legíveis. Na aldeia, essa “biblioteca” se atribuía de um novo sistema de princípios orientados a substituir ou traduzir as do universo ao redor. Isso porque os livros passaram a ser representações fragmentadas do que havia deixado na “cidade maravilhosa” e ali estavam entre suas capas, entrelinhas, anotações em papéis deixados entre as páginas; ainda preenchiam os grandes espaços de lembranças de uma vida que parecia estar tão distante dali. Num canto do quarto o toca-discos portátil, movido a pilhas, e um long play a rodar, a lembrança da expedição de 1908 de Cândido Mariano da Silva Rondon, quando instalou no interior de uma habitação indígena um gramofone Odeon, atraindo os indígenas com um fonógrafo a tocar Wagner; também em fins da década de 1930, na vitrola de Claude Lévi-Strauss e Luiz de Castro Faria durante a expedição à Serra do Norte, em território Nambiquara. 
Com o passar dos dias, sentia que a barreira invisível que me confinava à categoria de estrangeira e que me deixava ainda à margem do espaço da aldeia dissolvia-se pouco a pouco.  Preocupava-me o risco do uso de uma palavra, de um gesto fragilizar a acolhida que os indígenas me confiavam. Estranhei na aldeia o caráter da vida cotidiana a céu aberto e suas normas de procedimentos de convívio social.  Está ali a seguir regras de acesso diferenciado para homens e mulheres. Na condição de não indígena, muitos espaços abriram-se para mim; outros permanecem irremediavelmente fechados até hoje.
Adotei, principalmente, o escutar, o participar de conversas e um sem fim de observações direcionadas aos seus encargos cotidianos. Interrogar os indígenas não os deixava à vontade. Pelo contrário, importunava-os, quando se fechavam em silêncio, respondiam de maneira evasiva ou tornavam-se escapadiços. Por inúmeras vezes meu aprender desenhava-se de forma súbita, sem que o buscasse. Entretanto, o trabalho coletivo transformava esse processo de adaptação menos árduo, já que eu e José Eduardo compartilhávamos constantemente nossas impressões, incertezas, desfrutando de interpretações minuciosas que contribuíram para elucidar inúmeras questões.
Nossa casa despertava muito cedo com a luminosidade solar a penetrar pelas frestas entre as tábuas da parede e com os indígenas à porta, prontos para a atividade combinada no dia anterior, conversar, contar seus sonhos, saber dos meus ou motivados por alguma situação imprevista que implicasse uma ruptura na costumeira sequência dos afazeres. 
Nossos alimentos eram compartilhados com os indígenas, que passaram a conhecer nossas preferências e horários das refeições. Assim, muitas de suas visitas ocorriam à hora da mesa. Dificilmente, entre os Nambiquara, aquilo que se cozinha é consumido por uma única família. Ao visitá-los em suas casas, também partilhávamos do que comiam, quando tentavam nos agradar com seus quitutes tão estranhos a nossa dieta habitual. A reciprocidade na aldeia é um dos princípios de boa convivência. A falta de generosidade indica má educação, avareza.  Estar em uma aldeia implica em permutar constantemente.
Em 1988, deixamos os Nambiquara. A política indigenista, até então na confluência das questões dos direitos humanos e da proteção ambiental, desviava-se desses propósitos, especialmente nas áreas indígenas onde havia abundância de riquezas minerais e vegetais. Em 1989, depois de morarmos com o povo Potiguara, retornamos aos Nambiquara, com residência em Vilhena, Rondônia. Dessa vez para finalizar os estudos sobre a relação entre narrativas míticas com a cultura material e imaterial, sustentada nos trabalhos de campo desenvolvidos de 1982 a 1988.
Desde então, minha experiência no “país dos Nambiquara” torna-se manifesta em vivências pessoais e acadêmicas. Sob as imensas raízes de Haluhalunekisu, a Árvore da Vida, descortinam-se as práticas cotidianas de homens, mulheres e crianças, concomitante às dos espíritos ancestrais e sobrenaturais. O dia a dia na aldeia interpõe-se ao dos espíritos, com base nas representações que estabelecem com eles, fundamentada nas intervenções do pajé. São tantas as histórias contadas pelos mais velhos... 
Junto à sabedoria indígena, passada de geração a geração, para estar ainda mais próxima aos Nambiquara, àqueles que tanto me deram ensino, também revisito os clássicos da etnografia Nambiquara: Rondon, Edgar Roquette-Pinto, Desidério Aytai, Claude Lévi-Strauss, Kalervo Oberg, Paul Aspelin, Adalberto Holanda Pereira, David Price, dentre outros. Com certa ingenuidade, consiste em uma forma particular de usufruir dos conhecimentos de um povo que traz consigo, nas palavras de Lévi-Strauss e imortalizadas em Tristes Trópicos, a “expressão mais comovente e mais verídica da ternura humana”. 
Os textos aqui reunidos foram escritos especialmente para Pixé Revista Literária. As narrativas míticas Nambiquara revelam tanto sobre sua crença em inúmeros espíritos ancestrais e sobrenaturais e suas moradas, como suas maneiras de estar no mundo: como se organizam, se expressam, direcionam suas vidas. Oportunizam conhecermos a Árvore da Vida, suspensa na abóboda celestial, onde habita o deus supremo Nambiquara, aquele que tudo vê.

 

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Bibliografia

 

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