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Eduardo Mahon

41, é carioca da gema, advogado e escritor. Mora em Cuiabá com a esposa Clarisse Mahon, onde passa sufoco com seus trigêmeos: José Geraldo, João Gabriel e Eduardo Jorge. Autor de livros de poemas, contos e romances, publica pela Editora Carlini e Caniato.  

O CENTRO E A MARGEM

Dia desses, ouvi uma senhora que falava sobre centros. Procurava centros. Queria centros. E, para ela, havia muitos centros por aí: centro da cidade, centro do país, centro de convenções, centro de umbanda, centro de zoonoses, qualquer centro que atraísse para si a convergência. É claro que me veio à mente o centro de gravidade que é uma espécie de rebojo cósmico, para o qual são tragados planetas, estrelas e até a própria luz. O centro é o equilíbrio, o centro é uma espécie de consenso, de destino inexorável. 


Mas que chato é o centro, convenhamos. Nada mais insuportável do que uma pessoa muito centrada. Pior é o camarada que se coloca no centro da conversa. O centro é um porre! Nem lá, nem cá, nem sal, nem açúcar. O centro odeia divergências. Aliás, para falar em termos de física, a força centrífuga não serve apenas para secar as roupas na máquina de lavar, mas atrai também o pensamento. Num dado momento histórico, é muito comum uma manada de bois mansos seguir bovinamente o líder seja lá pra onde for. Criam-se doutrinas centrais. O totalitarismo é o centro absoluto no umbigo de alguém. O centro sempre quer se manter firme, único, total. Um centro de consumo, um centro de pensamento, um centro de arte, um centro de qualquer coisa não aceita concorrência. É por isso mesmo que se chama centro: o mundo é pequeno demais para dois.


Qual seria, no entanto, o antônimo de centro? Talvez a margem. A margem cria o marginal, o que não está contemplado, o inovador, o divergente. O centro quer cooptar o que está à margem ou expulsar tudo logo de uma vez. É um bolero. São dois pra lá, dois pra cá, numa contradança eterna. O que está no centro geralmente não vê a margem. Por isso, é pouco criativo. A margem – divergente – cria o novo, parindo o que o núcleo ainda não viveu, ainda não pensou, ainda não experimentou. A margem traz uma certa poeira cósmica com novos elementos ainda não estudados ou simplesmente desprezados pelo centro. Então para que se encafifar com os centros? Não sei. Talvez porque qualquer centro é confortável. É um consolo estar no centro. Ser o centro das atenções infla o ego que, por sua vez, é o um centro egoísta. 


Ocorre que atravessamos uma fase de descentralizações. Ao longo do tempo, desapareceu aquela antiga igrejinha no centro da cidade e, com ela, foram sumindo as teorias centrais que davam conta de tudo. Perdeu-se o referencial central e isso não é tão mal assim. O pensamento sem centro é o que se convencionou chamar de pós-moderno, onde mais vale olhar para as abas, para as regiões limítrofes. Hoje em dia, as atenções estão nos bárbaros, os viventes do além-muro. No centro, a gente perde muita coisa. Nenhuma surpresa. Tudo o que é sólido desmancha no ar. O antigo centro já não é mais o centro de verdade, o lugar confortável das certezas, o templo das missas de domingo. Arrastaram o centro pra fora e a margem pro centro, quem diria?! 


É fato que os “homens descentralizados” sofrem de angústia pela incerteza contemporânea, essa sensação de vagar sem rumo, sem um condutor complacente, sem aquele velho mapa de algibeira. Desgraçados dos cientistas que conseguiram relativizar até o tempo. No fim, sumiram todos os centros conhecidos. Faliu o centro cultural, fechou o centro de comércio, acabou-se o centro de convívio. O centro espírita já não recebe mais nenhuma entidade importante. Nem a Terra é o centro do universo, nem nós somos o centro de nada. Eu mesmo nunca me senti bem no Centro-Oeste. Que eu saiba, nunca houve um Centro-Leste. 


Coitados daqueles que teimam em querer viver num centro, centrados, sentados, tudo medido nos mínimos detalhes: centésimos, centavos, centígrados! Centrifugados em si mesmos, apegam-se em certezas que não descolam após o enxague. Mamãe ensinava: não misture roupa lisa com listrada, vai manchar. Manchou! Não há alvejante na vida contemporânea. Misturou-se tudo, tudo pode ser o centro de atenção ou deixar de ser. Adeus, bússola! Adeus, compasso! Os núcleos passados eram densos demais, pesados demais, acabaram implodindo. Meu Deus, que papo aranha! Coisa de gente sem centro. É assim que se chamavam os doidos, cuja loucura passou a ser considerada uma convenção. E não é? Eu mesmo sempre fui um desconcentrado. Ah, o centro... Essa invenção arrogante.