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Eduardo Mahon
44, é carioca da gema, advogado e escritor. Mora em Cuiabá com a esposa Clarisse Mahon, onde passa sufoco com seus trigêmeos: José Geraldo, João Gabriel e Eduardo Jorge. Autor de livros de poemas, contos e romances, publica pela Editora Carlini e Caniato.

APOCALIPSE

No carro da Clarisse não tem puta-que-pariu. Ela me disse que passou a ser um item opcional. Um absurdo. Toda vez que eu entro no veículo, procuro o diabo da alça. Me dava segurança. Estabilidade, percebe? Para quem não sabe do que estou falando, o puta-que-pariu, também conhecido como puta-merda, é um pequeno puxador que vinha instalado na lateral do carro, quase no teto. No caso de uma freada, derrapada, batida ou inopinado cagaço, aciona-se o puta-que-pariu. Sim, é verdade: é o cinto que previne os acidentes. Mas o puta-que-pariu impede piripaques. Sim, é verdade: freios abs, air bag e outros que tais são responsáveis pela vida do motorista. Contudo, há de se dar o devido valor ao puta-que-pariu. É ele o responsável pela paz de espírito. Imaginem o que é enfrentar um engarrafamento sem balançar o braço com ajuda da alça de plástico. Portanto, é de pasmar que um item de tanta relevância tenha se tornado opcional. Além do mais, no tempo em que podíamos andar de vidro aberto, sem fumaça e sem malabaristas nos semáforos, eu segurava no puta-que-pariu e abria a asa. Era um alívio para o sovaco. O cotovelo funcionava como um quebra-vento que, aliás, também acabou. O fluxo de ar desviava-se pelo cotovelo, seguia pelo braço, ombros e descia para o tronco todo. Hoje em dia, temos ar condicionado. Ninguém se pergunta o que acontecerá no caso de cecê. Cinco pessoas aboletadas num engarrafamento com aquela nhaca debaixo do braço. Tranca-se o carro e joga-se a chave fora? Onde está aquele ventilador natural que era o puta-que-pariu? Ficamos eternamente submetidos à parte elétrica. Se pifar, a vida acaba. E a embreagem? Demora para coordenar um pé com outro, vamos e venhamos. Pior do que tocar harpa. Alguém já viu como vão e voltam os dedos dos harpistas? Era a mesma coisa nos carros de antigamente. Pé esquerdo na embreagem, pé direito no acelerador. E o freio? O freio, dizia o instrutor, é acionado retirando-se o pé do acelerador. E o pé esquerdo, caralho? Esse só se usa ao passar a marcha. E se eu usar o pé esquerdo no freio? Nesse caso, vai dar acidente, meu jovem. Muita informação, com licença. Um tempo depois do primeiro motor que afoguei na partida, lançaram o câmbio automático. A minha expertise entrou pelo cano. Não foi bolinho. Duas décadas de treino diário, anos de tratativas entre o pé esquerdo que levantava e o pé direito que abaixava, além da mão direita que encaixava o câmbio na marcha correta, enquanto a esquerda mantinha o volante estável. E a chave? Até chave acabou! Basta se aproximar e o carro se abre como porta de shopping. Alguém se lembra do pino? Como vou saber se a porta está aberta ou fechada? Ó tempos! Mas eu resisto. Tento resistir. Me recuso a olhar na câmera interna quando vou estacionar. Sou mais eu, ora! Vou mirando o retrovisor até alinhar o carro, torço e contorço, calculo a distância entre uma lataria e outra. Tudo no olhômetro. Bons tempos de baliza! Vou me adaptando como posso, não deixo por menos. Na falta do puta-que-pariu, enfio a mão para fora, abro a asa e refresco o meu sovaco. Gente, é sério. Isso aqui é muito sério. Estou desconfiado de que vão acabar com o porta-luvas. O porta-luvas! Onde vou guardar o rolo de papel higiênico? Eu vivi no tempo em que o porta-luvas vinha com fechadura. Juro por Deus. Adianta essa lembrança, esse conhecimento, essa ciência morta? Vai mudar tudo. Já mudou, aliás. O acendedor de cigarro, o cinzeirinho, a seta do limpador de para-brisa, o esguicho de água no vidro, a manivela da janela, eu, você, todo o nosso tempo e as nossas velharias. É o pós-moderno, me disse um amigo. Não querido, respondo convicto, sem o puta-que-pariu é o apocalipse…