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Eduardo Mahon
44, é carioca da gema, advogado e escritor. Mora em Cuiabá com a esposa Clarisse Mahon, onde passa sufoco com seus trigêmeos: José Geraldo, João Gabriel e Eduardo Jorge. Autor de livros de poemas, contos e romances, publica pela Editora Carlini e Caniato.

PEDÁGIO


Mau sinal – ele comentou ao diminuir a velocidade – Ninguém deveria pagar pedágio no começo da viagem. Ronaldo odiava dirigir. Na estrada então, parecia guiar com um limão na boca. Torcia o nariz e guiava amargo durante todo o caminho. Diante da cabine do pedágio, tentou ser agradável. Em vão. A mulher, uma gorda de cabelos castanhos, lábios finos e olheiras arroxeadas não devolveu o bom dia que Ronaldo espremeu com esforço. Ao partir, o motorista tentou contemporizar. São milhares e milhares de bons dias, boas tardes, boas noites – comentou – Deve ser um inferno. O passageiro ao lado, sócio de Ronaldo, concordou como de costume. A viagem seguiu monótona entre espaços vazios e bovinos que pastavam sem propósito. Aqui e ali, pequenas manchas verdes na imensidão deserta. A maçada ia crescendo no peito do impaciente motorista quando as placas avisaram a proximidade do segundo posto de pedágio. Sem automóveis à frente, Ronaldo escolheu uma cabine vaga e encaixou o carro. A mulher recebeu o dinheiro, retornou o troco, abriu a cancela e voltou a fechar o vidro embaçado que a protegia do vento quente que soprava na estrada. Como milhares de outros motoristas, Ronaldo agradeceu mecanicamente sem ouvir resposta. Mais adiante, porém, deu-se conta de que a gorda senhora de olheiras superlativas era a mesma da primeira parada. Tal e qual! – cutucou o sócio que ensaiava um cochilo. Como se sabe, quem está de carona não tem o mesmo tirocínio dos motoristas e só restava ao passageiro concordar. Muito parecida mesmo – o outro disse molemente. Ronaldo, contudo, sabia que o companheiro de viagem assentia para livra-se da discussão. Era assim que aquele inerme fazia na empresa e assim continuava a fazer diante daquela situação embaraçosa. Daí que o motorista desconsiderou a opinião do sócio e mascou sua dúvida até o terceiro pedágio que chegaria poucos quilômetros adiante. Acorda! – Ronaldo chamou o carona enquanto se aproximava da cabine – Ponha os óculos e presta atenção! Ao abrir a embaçada janela da cabine, uma mulher gorda de olheiras pronunciadas recolheu o dinheiro das mãos de Ronaldo, voltou o troco e liberou a cancela. Boa viagem – disse maquinalmente. Ronaldo rejubilava-se – Eu não disse? Não falei que era a mesma pessoa? Aí está! É a mesma. A mesmíssima! O homem que acompanhava incrédulo o destempero do motorista não havia prestado atenção nem na primeira, nem na segunda mulher do pedágio e, portanto, não poderia emitir uma opinião segura sobre essa terceira. Enquanto isso, batendo as mãos no volante, Ronaldo repetia para si mesmo – Não pode ser a mesma pessoa! No íntimo, sentiu subir no peito uma vontade de fazer o retorno para voltar ao primeiro posto e, depois, seguir o mais rápido possível para o segundo e o terceiro pedágio. Era a única forma de confirmar que ele, um contador de meia idade recém-divorciado, mantinha intacta a higidez mental. Ainda assim, manteve o itinerário. Ao se aproximar do destino, Ronaldo decidiu acordar o sócio que havia engrenado um sono despreocupado. Ao virar-se para o carona, viu roncando uma mulher, a mulher do pedágio. Sem qualquer explicação, o sócio, dez anos mais novo, jogador de tênis, casado com suas duas filhas, ganhara o corpo, o rosto e as olheiras da cobradora. Era ela. Indubitavelmente, era ela com o rosto rotundo e cansado. Ronaldo ficou com medo de acordar a desconhecida e guiou o carro até o acostamento. Assaltado pela dúvida sobre a própria lucidez, o motorista estacionou o carro e virou o retrovisor para si. A mulher gorda refletida no espelho olhava Ronaldo com uma cara de horror e ojeriza.