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Eduardo Mahon

Editor Geral

EDITORIAL
INFECÇÃO

Quem olha de cima das nuvens, não vê sofrimento algum. Das alturas estratosféricas, o planeta não passa de um imperfeito olho azul, turvado pelo glaucoma de nuvens. Um pouco mais de perto, nenhuma novidade para a geografia. Há muita água e alguma terra; florestas e montes e rios e cidades, uma espécie de craca que se prega à pele terrosa do planeta como mexilhões em cascos de navios. No interior desse miasma, milhares de ruas e praças e parques e incontáveis telhados envelhecidos. Até então, os leitores não enxergam mais do que um mapa turvo sem ninguém à vista e, portanto, podem largar a narrativa porque já estamos todos fartos de aulas de geografia. Porém, ao furarmos uma dessas lajes comuns, vemos um homem subir uma escadaria com jeito de culpado. Do escuro e sujo teto do sobrado, vê-se o início da calvície que lhe abre uma clareira em meio ao cabelo castanho, a gola puída da camisa azul, o sapato úmido de quem quis fugir da cidade. Opera-se então inesperadamente uma espécie de mutação. Os leitores de simples alunos de uma enfadonha lição de cartografia, transformam-se em milhares de partículas invisíveis carregadas pelo vento que, coincidentemente, chega até às bordas das narinas desse desconhecido e acabrunhado sujeito que sobe a escada. Desse ângulo em que o miramos, não há mais cenário além do próprio homem que sofre a ruminar consigo um sofrimento. Do que se trata? Verdadeiramente não sabemos ainda. Já somos, nessa altura, parte integrante do organismo de Nicandro Moraes. Corremos livremente por suas veias, infectando pulmões, rins, fígado e coração que nos impulsiona para cima da carótida até encontrarmos o recôndito hipocampo onde o gerente de banco guarda várias lembranças que nem ele mesmo suspeita. Ao nos instalarmos neste cérebro de meia idade, assumimos o controle dos olhos para ver o que ele vê. Em seguida, tomamos de assalto os tímpanos, a língua, as mãos e os pés. Em meia hora, colonizamos Nicandro tão completamente que o temos como simples hospedeiro, um ente vivo que verá por nós, falará por nós e decidirá o que decidirmos antes. O segredo, porém, é não sermos notados. Convém não fazer alarde e provocar febre, tremores ou alucinações. Não queremos que o hospedeiro desconfie que ele já não convive somente consigo mesmo em sua inexpugnável privacidade de gerente de banco. O que faria se cogitasse havermos nos instalado nas retinas a decorar as senhas do cofre, nos ouvidos a saber das dificuldades financeiras dos clientes, e na ponta dos dedos que empunham o pênis flácido dos divorciados de meia idade? Nicandro procuraria um médico que o encaminharia ao laboratório para exames e, inevitavelmente, acabaria por nos encontrar esparramados entre seus glóbulos brancos e vermelhos. Para que evitemos o desagradável expurgo medicamentoso, pedimos a colaboração de quem nos acompanha nessa infecção generalizada. Dentro em breve, afrouxaremos o nó de um dos miolos desse camarada. Uma vez extraída a verdade da nossa acabrunhada vítima, podemos enfim abandoná-lo. O plano é sair rápida e discretamente, da mesma forma que entramos. Um espirro seria suficiente para podermos voltar ao ambiente natural a fim de vagarmos pelo vento morno até encontrarmos outra vítima. Por enquanto, fiquemos com Nicandro. O homem tem boa saúde, um salário gordo, uma casa razoável. Anda de carro novo e tem plano de saúde. Por que vive tão sozinho? Terá filhos? Por que chora antes de dormir? Saberemos já. No quarto, ele pousa no colo um livro do qual relê pela undécima vez a história de um certo Nicandro que lê ou é lido pelos olhos alheios.