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Eduardo Mahon

43, é carioca da gema, advogado e escritor. Mora em Cuiabá com a esposa Clarisse Mahon, onde passa sufoco com seus trigêmeos: José Geraldo, João Gabriel e Eduardo Jorge. Autor de livros de poemas, contos e romances, publica pela Editora Carlini e Caniato.  

CÚMPLICES

Adélia sufocou o choro no travesseiro de penas de ganso. Quando se viu metida embaixo dos lençóis com um homem que não conhecia quase gritou. Calçou os chinelos que estavam perfilados ao lado da cama, vestiu o robe bordô e saiu aflita do quarto. Ao deparar-se com a escadaria, percebeu a dimensão superlativa do lugar em que nunca esteve. Forrado de mármore, o piso da mansão refletia a um só tempo os candelabros de cristal e as obras de arte que Adélia só vira em programas de televisão. Antes de chamar a polícia, mirou-se no luxuoso espelho emoldurado em rococós de prata. Vestia uma camisola cujas bordas estavam delicadamente arrematadas pelo pesponto de renda. Nos pés, a mulher calçava o chinelo de feltro bordado com letras douradas A.S, coincidentemente as iniciais de seu nome – Adélia Souza. Tudo o mais estava melhor do que de hábito: os cabelos mais brilhantes, a pele mais viçosa e os músculos mais rijos. Adélia percebeu que, além das unhas pintadas com esmero, aparentava estar com a silhueta mais fina. Na cozinha, uma mulher de uniforme virava a omelete que exalava um cheiro apetitoso. Bom dia, dona Adélia! Usei o presunto de parma e aquele queijo que a senhora gosta – foi o que disse a empregada sem se virar. Frente ao fascínio que sentia pelo novo cenário em que se viu mais jovem, mais magra e mais rica, desistiu de precipitar-se para fora dali até que entendesse o que se passava. Sentou-se à mesa e passou na torrada a geleia de figo que nunca havia provado melhor. Enquanto Adélia avançava no desjejum, Eurico espreguiçava-se demoradamente no lençol macio de algodão egípcio. Resistia a acordar porque seu corpo quente era abraçado pelo grosso edredom de matelassê. Ao abrir os olhos, a primeira coisa que reparou foi na enorme televisão em frente à cama. Em uma fração de segundo, Eurico pôs-se de pé assustado. Percebeu os lençóis desarrumados e o travesseiro ao lado ainda decalcado por alguém que acordara antes dele. Passou a culpar-se pelo abuso do álcool, hábito que o conduzia a situações constrangedoras como aquela. Mareado pela incredulidade, correu ao banheiro do qual saía a luz amarelada que contornava o espelho diante da pia. Tomou um choque ao perceber que uma barba grisalha crescera sobre o rosto com o qual estava acostumado. De resto, Eurico continuava sendo ele mesmo: um homem de meia idade que ainda apresentava o priapismo matinal, alegria das parceiras ocasionais. Depois do divórcio, Eurico não dispensava o gozo fácil com as mulheres das boates que frequentava. Ao perscrutar seu corpo, pelo espelho admirou também a banheira de louça branca equilibrada sobre pés de bronze em forma de patas de leão. Tudo ali era como nas casas de revista: piso de ardósia aquecida, luz modulada por sensores e descarga automática no vaso sanitário. Perambulou zonzo pelo quarto à procura de alguma roupa que pudesse vestir. Não demorou para encontrar no armário tudo o que precisava. Nos pés, usou o chinelo de couro tamanho 41, seu número exato. Curioso com o cofre aberto no interior do armário, Eurico conferiu o conteúdo. Além da bolada de notas estrangeiras que se empilhavam ao fundo, dos relógios de ouro de marcas importadas, encontrou dois passaportes. O primeiro pertencia a ele. Completamente carimbado de entradas e saídas, atestavam um Eurico barbudo, viajado e rico. O segundo era de uma tal Adélia cuja foto não reconheceu. O homem saiu do quarto desconcertado. Desceu timidamente a escadaria de mármore, atravessou a sala principal e chegou à cozinha de onde saíam os risos de duas mulheres que pareciam se conhecer há muitos anos. Não quis ser deselegante. Respondeu o bom dia da desconhecida de robe bordô e aceitou o café oferecido pela outra que lhe preparava as panquecas de que tanto gostava. Adélia e Eurico passaram a quarentena assim, próximos por cumplicidade. 
 

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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