Texto - Edson.jpg
Edson Flávio.png

Edson Flávio Santos 
É cacerense, doutor em Estudos Literários, pesquisador e docente do Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários PPGEL/UNEMAT. É autor de Aldrava (2020) e Utopias e resistências na obra de Pedro Casaldáliga: escritos escolhidos (2021). Escreve desde quando descobriu seu amor pela poesia.

DIAFANIA

Às amigas
Divanize Carbonieri
Marli Walker

enterrei-te hoje. joguei a última rosa. a derradeira pá de cal. 
pedi aos coveiros que selassem bem as placas de concreto de sua campa.

agora que sei de tua verdade, gozas do sono da eternidade.

enterrei-te hoje. ajuntei tuas mãos frias. beijei a testa macilenta.
levei todas as coroas fúnebres para o cemitério. 
livrei-me do cheiro de morte que me trouxeste.

despedi os convivas enquanto suspirava aliviando-me em cada condolência:
foi livramento, disseram.

enterrei-te hoje. depois de um velório sem fim. 
centenas de velas consumindo-se ao sabor das horas, inutilmente.

noites em claro acreditando que ressuscitarias. outra grande mentira tua. 
orações em vão. 
Tu que nunca merecestes nenhuma.

enterrei-te hoje. sem esforço, como se enterra um bicho.
e o dia terminou de súbito 
como tua jornada no terreno do meu corpo.

enterrei-te hoje com ajuda de outrem.
mas escolhi as roupas largas,
as flores e as cores do forro cafona de cetim

enterrei-te hoje, já sem lágrimas vertendo.
ansiava por esse dia sem nunca acreditar. 
já sem vontade de ficar inerte ao lado do esquife. 
queria apenas ter a certeza que se foi.

enterrei-te hoje. sem remorso algum. 
agora que estás só e com medo, 
quem irá fazer-te os teus gostos?
quem irá ouvir-te? 
acreditas que alguém quer saber de tuas histórias?

enterrei-te hoje, enfim.
paguei todos os credores dessa relação.
quitei todas as dívidas morais 
e as imorais também.

enterrei-te agora
e para sempre.
amém.