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Edson Flávio 
É cacerense, doutor em Estudos Literários pela Universidade do Estado de Mato Grosso (PPGEL/UNEMAT) e pesquisador na área de Literatura. É autor de Aldrava (2020) e escreve desde quando descobriu seu amor pela poesia.

BELA VISTA

Não tinha espaço para mais nada ali naquele chão. Nem no apartamento apertado em que vivíamos, nem nas nossas vidas. Não havia mais espaço para nada. Peguei o título de eleitor e saí. Ao fechar a porta atrás de mim senti o vento frio da solidão me alcançando. Nem me lembrei de despedidas. Tantas noites esperando você voltar do seu trabalho medíocre, cheirando a gordura. 
Me aliviava quando a fresta de luz avançava o quarto e me alcançava deitada na cama. Tesa e alerta. Quando seu corpo tocava no meu, despertava em mim incontáveis sensações. Eu era sua mulher. 
Era gostoso te esperar, contar dos meus sonhos, de como estavam sendo as aulas da pós. Do corre-corre no metrô. Eu me sentindo orgulhosa por me virar sozinha na cidade selva. Ríamos sem pressa madrugada a dentro. O dia nascia e a gente fazendo planos da vida, do rolê do final de semana. Aquela maratona etílica pela Augusta. 
Eu e você apostamos as nossas fichas num jogo que nem sei como começou. Quando dei por mim já estava nele. Era cedo demais para desistir da partida. Jogamos. 
Quando a roda da vida seguiu seu ritmo. A espera nas noites frias de São Paulo parecia penosa e o tesão deu lugar ao sono, a prontidão às desculpas. Não queria mais ter tempo.
Os dias passavam lentos e a louça se acumulando pela pia, suas roupas íntimas, sujas, pela casa misturando-se às bitucas de cigarro que se espalhavam pelos cantos, no vaso sanitário, no beiral da janela, sobre os pratos, dentro dos copos... seu desleixo contínuo era uma afronta a minha salubridade. Eu não suportei ser a dona de casa que você queria que eu fosse. Não havia sido preparada para aquilo. Não daquele jeito.
Eu não me encontrava naquele mundo doméstico. O que era para ser uma vida a dois passou a ser uma via para dois. Mas não cabia nós dois. E um de nós precisava partir. 
Como estrangeiros em terra estranha tínhamos o mesmo norte. Mas eu não queria só o norte. Eu queria as direções que o vento soprasse e aquele aperto do dia a dia não me deixava mais respirar. Eu queria ar. Queria voar. Precisava. 
Naquela fatídica quarta-feira, enquanto jogávamos os livros pelo chão, eu e você íamos nos despindo da imagem de casal feliz que construímos e nos desfazendo dos fardos que carregamos ao longo dos anos. Estávamos nos desconstruindo para então nos refazermos livres e, agora felizes.

CONSOLAÇÃO

Aquele dia ela estava decidida a encontrar seu título de eleitor. Sabe-se lá o motivo. Ela tinha disso, queria e pronto. Minha cabeça estava cheia. Minha vida se dividia entre ela, meu trabalho e aquele apartamento minúsculo. Acordei com o barulho dos livros batendo no chão. E depois de abrir e jogar todos eles, pegou o documento e saiu sem se despedir. Fato que só percebi quando ouvi o barulho da porta se fechando. Queria tê-la visto antes de sair. Olhar nos seus olhos, ver o tremor das suas bochechas quando ficava irritada. 
Aquele final de junho custaria a terminar. O próximo mês era o que eu mais trabalhava e, por isso, no tempo que sobrava eu sempre queria arrumar a casa, já que ela nunca conseguia fazer muita coisa. Muitas vezes, enquanto eu trabalhava, ela saía com os amigos para se divertir e quando eu voltava cheirando a gordura e cansado, ela estava me esperando vendo tv ou estudando. Uma cena que se repetia cotidianamente.
Eu corria para o banho porque desejava aquele momento durante o dia todo. Mas nem depois de um bom banho ela me procurava, então eu também deixei de procurar. Eu não ganhava muito, somado à bolsa de estudos que ela tinha dava para pagar as contas da casa. Nesse sentido a gente se dava bem. O que fudeu com a nossa vida foi a porra da velocidade.
Ela tinha pressa para tudo. Ligada nos 220v. No começo eu gostava da ideia. Gostava dessa agitação toda. Uma independência que urgia na vida dela. E que ela lutava a todo custo. Eu curtia pra caralho quando ouvia suas histórias dos apuros no metrô, da ralação no doutorado. Mas com o tempo isso foi cansando. Enquanto eu fumava, ela contava história. Passávamos a madrugada assim. Diversas vezes saíamos juntos e voltávamos com sol nas costas. Saindo da Estação Trianon a gente ia cantando, de mãos dadas confundindo as letras das músicas. Era engraçado a cara do povo e a gente nem aí. Era uma rota meio que automática nossa. 
Eu gostava demais daquela garota. Ainda gosto. Sonhamos muitas coisas juntos. Pena que ela não soube esperar. Esse foi o problema. Sua pressa de ganhar o mundo fez com que ela me perdesse.
Perdi o gosto pela casa, o que me fazia ficar mais tempo do que o necessário no trabalho. Perdi o tesão em ser o homem dela. Perdi a minha vontade de seguir daquele jeito quando ela saiu porta a fora naquele dia. Por isso não fui atrás. 
Enquanto eu olhava aqueles livros jogados no chão, vi quanta coisa joguei fora com meu orgulho bobo. Dava-me conta de como fui egoísta e só pensei em mim. E já era tarde demais para voltar. Estava quase na hora de ir para o trabalho e, naquele dia, eu sabia que quando eu voltasse ela não estaria mais no apartamento. 
Eu não fui o homem que ela queria que eu fosse e nunca quis que ela fosse a mulher ideal. Apenas levávamos o barco. A vida tinha um prazer especial singrada ao lado dela. Sempre compreendi que tudo aquilo era pequeno demais para uma jovem cheia de força, vinda do interior. Ter sobrevivido aquele mundo novo já era uma vitória. Não lhe dei alforria porque nunca esteve acorrentada. Eu abri caminhos, fiz de tudo para que ela entendesse isso. Eu a amei, isso sim.
Ao retornar do trabalho uma parte de mim acreditava, piamente, que ela não estaria no apartamento, mas, para minha surpresa, lá estava ela. Linda, como sempre. Empoderada. Seus cabelos cacheados, cheirosos. O apartamento um brinco. Cama arrumada, louça lavada. Roupa guardada. O cheiro era de casa nova, mas por dentro o sentimento ainda estava velho tanto para mim, quanto para ela.
Não houve beijo, não houve briga. Rimos muito tomando um último vinho juntos em copos de massa de tomate. E descobrimos, depois de tudo que passamos juntos, que nossas vidas começavam ali, naquele instante, onde nos sentíamos livres e, também, felizes.