11.jpg

Edson Flávio 
É cacerense, doutor em Estudos Literários pela Universidade do Estado de Mato Grosso (PPGEL/UNEMAT) e pesquisador na área de Literatura. É autor de Aldrava (2020) e escreve desde quando descobriu seu amor pela poesia.

PIXÉ – Você não escondeu a emoção ao ler Torto Arado, um lançamento que ganhou os principais prêmios literários nacionais. O que você viu nele? O que te emociona ao ler uma obra contemporânea: a surpresa, o drama, o enredo, as personagens? É possível antever que um determinado livro nasceu para o cânone ou é precipitada essa análise?

EDSON FLÁVIO – Torto Arado é um romance fácil de ler. Só isso asseguraria minha predileção. Essa simplicidade favoreceu a acolhida das personagens e dos narradores. A minha emoção ao ler o livro do Itamar Vieira, assim como outros livros que me emocionaram e ainda me emocionam, vem exatamente dessa linguagem que “transmite” um sentimento particular de cada personagem. Quando eu li Torto Arado, em janeiro de 2020, virei um grande incentivador da leitura dele porque percebi que era um livro fascinante. Não sei se foi premonição, até porque não acredito nisso, mas eu senti que estava diante de um romance admirável, o qual mereceu todos os prêmios que ganhou. Parabéns, Itamar!

 

PIXÉ – O alvo dos seus estudos acadêmicos foi Casaldáliga. Gostaria que você fizesse uma reflexão sobre a obra do espanhol e mirasse num autor brasileiro. Manoel de Barros, por exemplo. Não há em Barros o conteúdo engajado de Casaldáliga, o compromisso prévio com a denúncia social. Talvez haja evasão, muito embora as imagens de Barros sejam belíssimas. O que é mais importante, na literatura contemporânea: olhar para si ou olhar para a realidade?

EDSON FLÁVIO – Pedro Casaldáliga foi um grande escritor que utilizou sua habilidade de escrever – não apenas literatura – como plataforma de seus ideais. Esse modelo é conhecido e não vejo nada de ruim nisso, até porque havia uma preocupação formal e literária em Casaldáliga quando ele se utilizava da literatura para comunicar-se. E a palavra chave para isso está aí: comunicação. Cada autor escolhe, lucidamente, sua maneira de comunicar algo ao mundo. A literatura, a cada tempo, sempre exigirá equilíbrio e compromisso dos autores. No entanto, a decisão sobre o que dizer e como dizer é sempre muito particular. Resta saber se a História Literária os perdoará.

 

PIXÉ – Escrever para quem? Temos um público leitor reduzido, cuja influência é desprezível na pauta nacional. Não fica parecendo que os escritores vivem uma bolha de autorreferência? Você acredita que a literatura possa influenciar alguma coisa nas opções de política social? Aliás: esse papel é reservado à cultura ou se trata apenas de um discurso bonito?

EDSON FLÁVIO – Quando eu publiquei meu primeiro livro, Aldrava (2020), nunca imaginei que os adolescentes iriam gostar tanto. Não escrevi para um público específico. A obra trilha seus caminhos. Considero uma falácia dizer que o autor não tem alguma intenção quando escreve. Tem sim! Limitar o livro para este ou aquele público me soa como um tipo de censura prévia e isso não me agrada – salvo alguns infantis. Eu acredito que a literatura pode influenciar e gerar debates em diversas pautas, inclusive nas sociais. Pode até apresentar-se como discurso bonito para alguns, mas os temas político-sociais não devem, e nem pretendem, ser algo exclusivo da cultura. O segredo está em como fazer esse discurso virar prática.

 

PIXÉ – Você é professor. Foi para isso que se preparou. Vamos fazer um exercício. É sua responsabilidade indicar 20 livros de literatura para serem lidos no Ensino Médio. Qual seria o seu critério? Como fazer? Ordem cronológica? Clássicos? Contemporâneos? Romances ou contos? Prosa ou poesia? O que pretendemos é a saber o que você privilegiaria na abordagem com o jovem leitor.

EDSON FLÁVIO – Vou seguir um exemplo muito prático que tenho por perto: meu sobrinho. Entrou em minha biblioteca e puxou da prateleira o livro “A biblioteca à noite”, de Alberto Manguel. Logo ele me indagou sobre o que era aquele livro. De imediato contei que o livro versava sobre diversas bibliotecas ao redor do mundo. Nisso, a que ele mais se encantou foi a “Biblioteca do Capitão Nemo” que ficava a bordo do Nautilus. Resultado: ele está lendo “Vinte mil léguas submarinas”, de Julio Verne, um romance escrito em 1870 motivado pela história que ouviu sobre a biblioteca do submarino. Não há uma receita. Com o meu sobrinho eu pude oferecer o meu acervo e ele escolheu o que desejou. Quando essa escolha recai sobre os ombros do professor é, e sempre será, arbitrária. Isso é um problema. Disse tudo isso para ilustrar que o gênero literário ou a ordem cronológica não teriam tanta relevância. Eu procuraria privilegiar aquelas obras que eu percebesse que poderiam contribuir para despertar o gosto pela leitura e o desejo pela literatura. Indicaria os vinte, mas, se eles conseguissem ler pelo menos a metade, já me daria por satisfeito.

 

PIXÉ – A virada do século XX foi marcada pela febre das vanguardas. O rompimento era a palavra de ordem entre os escritores e artistas plásticos. Contudo, no começo do século XXI não percebemos o mesmo impulso criativo ou, pelo menos, a mesma vontade de questionar padrões literários vigentes. O que aconteceu, na sua opinião? Os jovens escritores estão preocupados com novas demandas? Ou se tornaram mais pragmáticos?

EDSON FLÁVIO – Eu comecei a entrevista falando do Torto Arado. Posso considerar o tema de Itamar Vieira novo? Posso considerá-lo pragmático? Certa vez o autor disse que demorou anos escrevendo esse romance. Talvez aí esteja um fator que sirva para delinear o perfil dos jovens escritores: o tempo. Há uma leva muito intensa de produção que parece não esperar a maturação do próprio texto. Essa turma, na qual eu encaixo muitos escritores – inclusive eu – tem uma urgência em falar do agora, do instante. Não é ausência da busca por “novas demandas”, acho que não é isso. Ninguém quer ser cópia de outro. Nessa tentativa de criar o seu próprio modelo, muitos acabam sendo “mais do mesmo”. Eu não vejo problema nisso. Recebi muitas críticas sobre o Aldrava (2020). Uma delas dizia que o livro era muito ligado à segunda geração romântica – o mal do século. É lógico que eu não quis reproduzir uma escola do século retrasado, mas alguns poemas, é bom frisar, atraíram para si essa pecha. É uma urgência falar daquilo que o outro cala ou daquilo que não quero calar dentro de mim. Seja sobre mim, sobre o outro ou sem relação nenhuma comigo ou com o outro. Todos os escritores querem escrever e querem ser lidos. Eu reafirmo o que disse anteriormente: cabe à História Literária dizer se fizemos o certo ou o errado.