Eduardo Mahon

Editor Geral

EDITORIAL

Pixé chegou com o diabo no corpo! A literatura mais parece um pacto, uma espécie de contrato não escrito onde se convenciona que o leitor vai se submeter à ficção proposta pelo autor. Coisa do belzebu, do diabo, do capeta, do tinhoso, do sem-nome, ou ainda, do capiroto, arrenegado, coisa-ruim, como preferia Guimarães Rosa. O leitor, para participar do jogo da literatura, obriga-se a ler. Pode perguntar à vontade, mas o autor não está ao lado para responder. Dessa forma, a ficção é uma realidade pactuada, por mais insanas as criações literárias. O diabo concede conhecimento, entretenimento, faz rir e faz chorar, revela as artimanhas da criação real e irreal. Em troca, rouba o que de mais precioso tem o ser humano: tempo. 


Para fazer esse pacto, ninguém precisa ir a uma encruzilhada ou procurar o Dito Cujo no rodamoinho. Basta passar na biblioteca ou acessar o site da Revista Pixé. Em troca do seu valioso tempo, oferecemos a você a nossa fantasia, a nossa emoção, as nossas mentiras mais sinceras. Não temos a intenção de testar a paciência do leitor com a mesma tenacidade com que Lúcifer fustigou o coitado de Jó, nem tampouco exigimos o sacrifício da sua lucidez como foi o caso do incauto músico Leverkühn, criado por Thomas Mann. Hoje em dia, para se entregar ao estranho mundo da literatura, não é preciso preencher com sangue o contrato AT 756B, basta um clique para encontrar tentações da literatura e muitas outras, menos nobres. 


A arte de Gonçalo Arruda é o nosso combinado do mês com o leitor. Essas formas infernais, saídas do obscuro território psíquico do nosso artista homenageado nesta edição, já foram vistas em Hieronymus Bosch. Do que se trata a caricatura demoníaca? O que pretende expressar? Não coloquemos as artes plásticas num divã. Queremos apenas chamar atenção para a transformação do que era, até então, conhecido como anormalidade. Aberrações foram pintadas em hipérboles para inspirar terror, exatamente da mesma forma que a divindade foi expressada pela harmonia simétrica. É que, para pautar o comportamento social, era preciso forjar um padrão de normalidade. E hoje? O que dizer sobre o anormal?


O desafio do contemporâneo é a inclusão. As ciências sociais desvendaram muitas estratégias das narrativas excludentes, seja na arte, seja na política. Até o século XXI, o poder elegia, classificava, excluía e esmagava a divergência. Quem ficava de fora da estética do poder, era varrido do mapa. Isso mudou. E, se não mudou completamente, precisa mudar. É tempo de um novo pacto, portanto. No contrato contemporâneo, todos são considerados normais, há espaço para a divergência, a minoria não é esmagada. A arte de Gonçalo Arruda não retrata propriamente seres demoníacos, antes serve de espelho para as nossas próprias dificuldades. Não será resultado de uma sofisticada ironia o delicado equilíbrio do homem musculoso? Não serão os piores demônios as nossas vaidades, os nossos egoísmos, as nossas arrogâncias?


Vivemos um tempo de ampla consciência e, por isso, de duro questionamento. A Revista Pixé põe em xeque algumas convenções: as fronteiras esmaecidas, os regionalismos dissolvidos, as instituições literárias que caducaram. O tempo do agora, o espaço do aqui, a identidade por filiação são os novos demônios que muitos conservadores pretendem exorcizar. Podem tirar o cavalo da chuva. Não estamos dispostos a celebrar missas negras, mas podemos celebrar os negros na missa. Os negros, as mulheres, os gays, os periféricos, os anônimos e apagados em geral, os considerados pobres-diabos sem oportunidade. Então, vamos fazer um pacto? 

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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