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Eduardo Mahon
Editor Geral

EDITORIAL

É provável que o “grito de independência” de Pedro I esteja mais para lenda do que para realidade. Todo país precisa de seus mitos fundadores e nós, brasileiros, temos o nosso pintado na tela de Pedro Américo. Como o desligamento metropolitano não passou por traumas além de resistências pontuais, a verdadeira independência foi iniciada na literatura antes mesmo do cavalo, da espada e da barbicha do primeiro imperador. Nos periódicos da época, travava-se um debate sobre a identidade nacional que iria se arrastar até o século XX – teríamos elementos culturais capazes de nos identificar como um povo independente? Naquela época, quem poderia responder a essa pergunta?


Claro que a questão identitária não era uma preocupação na vida comezinha das “gentes de baixo”, da ralé, do populacho. O incômodo com as ligações portuguesas dava comichão em uma elite pensante que falava três ou quatro idiomas e cuidava de terras e escravos, quase sempre radicada na Corte banhada pelo mar. Ninguém perguntou às etnias indígenas, aos refugiados aquilombados e aos moradores dos cortiços cariocas se ali haveria ou não identidade. Ainda assim, construiu-se uma imagem. Aquela geração de bravos nativistas pariu uma bricolagem de “tipos regionais” cuja reinvindicação de nacionalidade dava-se pela expressão romântica. Com o tempo e a crítica, os escritores perceberam que o país era completamente desconhecido e, portanto, poderia ser descoberto e redescoberto a cada romance. Mas como se daria essa descoberta? É aí que a porca torce o rabo.


Durante muito tempo, permanecemos com a noção mimetizada de “conquista”, reprisando a mesma mentalidade colonialista introjetada pela metrópole. Era preciso avançar, ocupar e conquistar o grande vazio brasileiro, levando civilização à barbárie. Esse padrão de pensamento demonstrava (e ainda demonstra) uma visão paradoxal de liberdade e dominação, de autonomia e hegemonia, isto é, de velhas repetições sob o manto da novidade. Falou-se sobre o “mestiço”, mas o mestiço não disse nada. O mesmo se diga quanto ao indígena, ao negro, ao sertanejo, à mulher. O monopólio narrativo afigura-se, desde sempre, uma enorme contradição. Sobretudo quando os autores pretendem alcançar a realidade. Aí as narrativas ganham contornos patéticos e são, quase sempre, motivo de escárnio para as gerações seguintes. 


Não pretendemos sustentar críticas simplistas que almejam destruir o passado, passando a borracha na literatura que seria uma espécie de “rascunho identitário”. Essa posição é de uma arrogância indescritível. Julgar o mérito da arte do passado é instalar uma bomba-relógio que explode geração após geração, anulando qualquer esforço realizado até o eterno presente que não quer despregar do imaginário intelectual contemporâneo. A expressão artística do passado não é melhor, tampouco pior. Como manifestação de uma época, terá sempre uma importância vital para compreender a nossa própria produção, assinalando as viradas estéticas significativas de cada momento histórico. Não fosse assim, deveríamos simplesmente abolir do nosso cotidiano as tragédias gregas, onde a escravidão, a xenofobia, o racismo e a misoginia (os gregos não eram fáceis) compunham um cenário absolutamente natural.


Portanto, o que se busca nesta edição da Revista Literária Pixé não é o revanchismo. Ao contrário: é preciso incluir, abraçar, oportunizar outras vozes. Vozes que formam uma identidade pouco considerada pelo cânone. Vozes que não são meras projeções de terceiros. Vozes que representam a si próprias. São melhores? São piores? O julgamento estético quem fará é o leitor e o crítico do presente e do futuro. O que importa, aqui e agora, é expor as nossas raízes. Mas não se enganem! As raízes do Brasil não estão apenas debaixo da terra. São visíveis nas folhas, nos frutos e, por que não?, nas flores. Não vamos cair na esparrela de monopolizar a visão sobre identidade. A ninguém pertence esse direito e, ao mesmo tempo, é um direito que pertence a todos.