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Eduardo Mahon

Editor Geral

EDITORIAL

Como posso, sendo branco, escrever um editorial de uma revista inteiramente dedicada a autores negros? A questão não é verdadeiramente difícil, mas se tornou uma espécie de tabu contemporâneo após equivocadas construções do conceito de “local de fala” aplicado diretamente à produção artística. Convém, portanto, não misturar alhos com bugalhos. Uma coisa é subtrair a identidade alheia, tomando o espaço do outro. Este editor é branco. Portanto, nunca enfrentou pessoalmente nenhuma das agruras que o preconceito racial impõe diariamente contra a majoritária população negra. 
Daí que posso apenas imaginar e me solidarizar com quem acho historicamente injustiçado. Nesse quesito, não há espaço para o meu testemunho pessoal, o meu relato de caso e, portanto, ao tratar de experiências reais, nunca poderei substituir alguém que seja negro. Tenho para mim clareza quanto ao tal “local de fala”, incluindo aí a questão feminina, por exemplo. Toda iniciativa em sentido contrário seria uma espécie de rapto de uma voz que não é minha. Portanto, silenciamento. São premissas que precisam estar muito claras para um editor que promove um número especial especialmente dedicado ao que lhe é diferente. 
Contudo, todavia, entretanto, a produção artística não está jungida a nenhum tipo de exclusivismo. Seria não só ingênuo, mas autoritário demais delimitar que apenas negros têm direito de escrever histórias sobre negros, mulheres sobre mulheres, gays sobre gays, gordos sobre gordos e homens sobre homens. Ingênuo, autoritário e intelectualmente pobre. Porque a literatura não é só espelho, mas também projeção; não só contexto, mas também desejo; não só mimetismo, mas também negação. Aliás, a “troca de pele” é um recurso dos mais eficientes para provocar a sensibilização do público. Podemos criar heterônimos como Pessoa, optar por sermos anônimos como Elena Ferrante, e até mesmo autobiográficos como Santo Agostinho e Anne Frank. 
Tratando-se de arte, nada é real, muito embora sirva-se livremente da realidade. E se não é real uma autobiografia, repleta de acréscimos metafóricos, eufêmicos ou hiperbólicos, como colocar cabrestos raciais e de gênero na ficção? O busílis é enxergar que os autores respondem pela obra, mas a obra não responde pelos autores. Do contrário, poderíamos aplicar em livros o mesmo teste às cegas que um especialista faz com vinho: risca-se o nome de quem escreveu a obra e o leitor-sommelier saberá se foi negro ou branco, mulher ou homem, alto ou baixo, gay ou hetero. Em vez dos tons cítricos e notas de madeira nos vinhos, perceberemos se os autores são ricos ou pobres, têm olhos verdes ou castanhos, são velhos ou jovens. 
A Revista Literária Pixé quer oferecer espaço. É uma política editorial. Aliás, não é a primeira e nem será a última vez que faremos isso. O que precisam os escritores de grupos sociais injustiçados é de visibilidade. Eis o caso dos escritores negros que, por inúmeras razões, não conseguem publicar em periódicos, não são considerados por grandes editoras e sequer comentados pela crítica. 
“Assinaturas Negras”, edição especial cuja curadoria é do escritor Wuldson Marcelo, conta com ilustrações de Patty Wolf. São dois artistas que foram convidados para somar nessa política editorial. Por outro lado, da mesma forma que entendemos que seria mais uma limitação se negros estivessem jungidos a tratar apenas da própria negriture, também não podemos buscar exclusivismos literários de base congênere. Por quê? Porque lugar de fala não é argumento de autoridade. Na vida – sobretudo, na arte – todo mundo se inventa e, nesse sério brincar, quem não tem talento, não se estabelece. Mas quem tem, só precisa de espaço. Um deles está aqui, nesta edição.