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Eduardo Mahon

Editor Geral

EDITORIAL

Calcem suas botas porque vamos entrar no brejo! A Revista Pixé deste mês é dedicada integralmente ao estudo de uma curiosa espécie de anfíbio letrado. Não se trata de um pântano qualquer, mas do alagadiço literário onde coaxam os sapos que metiam medo no cururu de Manuel Bandeira. Da tenaz fauna estética que teima em resistir nas letras nacionais, já foram classificados os mais variados bichos: sapo crítico, sapo músico, sapo alexandrino e, talvez, a mais feroz de todas as espécies – o sapo togado. Essa gama interminável de sapos vaidosos coaxa nas lagoas acadêmicas de todo o país, evitando a todo custo sair ao sol. Não se tem notícia de brejo que tenha superado a infestação. Pelo contrário: pelo que se vê nas livrarias, a praga vai aumentar.


Nos antigos salões mal arejados, o mofo estilístico atrai as inocentes moscas, curiosas mariposas e os incautos pirilampos para o banquete da saparia. O que querem? O público pensa que verá uma apresentação literária, algo que os inspire a ler e refletir. Qual o quê! Desprevenida, a plateia é alvo do ronco retórico, um veneno usado para anestesiar suas vítimas. Os sapos acadêmicos sacam da língua a gosma erudita que impele os convidados ao sarau anfíbio. Aqui e ali, a fala empostada vomita um caco latino para impressionar o público, entorpecido nesse brejo iluminado. Por mais que ronquem alto e grave, sapeando o profundo sentido do belo, do ético, do cívico e outros moralismos, nem o beijo das musas os transformará em príncipes. Uma vez sapo, sempre sapo.


Mas segurem-se que os sapos pulam! É preciso ter muito cuidado com eles. Quando estão acuados, saem da pachorrenta inatividade para reiterar os velhos catecismos. Recomendamos manter distância. Do contrário, começam a exibir títulos, medalhas, comendas, menções honrosas e, talvez, troféus. Sem dar chance ao caçador, passam a falar de si, dos cargos que ocuparam, das celebridades com as quais fingem intimidade, dos livros que escreveram, das matérias de jornais e das colunas sociais. O sapo é um bicho enganoso: sem livro, se diz escritor e, sem poesia, se diz poeta. As letras do sapo, em resumo, não são literatura. Não desconhecemos que todas as formas de escrita são importantes: a científica, a jurídica, a médica, a jornalística, a historiográfica, enfim, a infinidade de expressões humanas que envolvem a palavra são relevantes. Mas não são literatura e ponto final.


Não sirva esse editorial de manifesto. Longe disso! De forma alguma pretendemos inaugurar uma nova estética. Já foi o tempo das paranoias vanguardistas. Talvez, no máximo, almejemos a uma nova mentalidade sobre o que já temos. Vejamos o bê-á-bá do nosso raciocínio: se para ser diretor clínico de um hospital é preciso ser médico, se para presidir um tribunal é preciso ser jurista, se para desenhar um projeto de uma casa é preciso ser arquiteto, se para receber santo é preciso ser médium, nada mais natural do que esperar escritores nas academias de letras do país. É o locus próprio do ficcionista e do poeta. Não sendo assim, as academias hão de permanecer ensimesmadas e pouco legitimadas a representar a literatura como já acontece na maioria dos Estados brasileiros. 


O que esperamos ao visitar uma academia: uma palestra de direito previdenciário ou um debate sobre poesia?, um colóquio sobre cirurgia óptica ou uma apresentação de romances?, uma exposição sobre paleontologia ou um comentário sobre contos? Esse debate já foi travado na Academia Brasileira de Letras que continuou aceitando estranhos à literatura e, por isso, é sempre criticada pela ala machadiana até que sofreu com a renúncia de Érico Veríssimo da secretaria-geral. Graça Aranha bateu-se sozinho em favor dos amigos modernistas. Adiantou? Não. Os sapos imortais são surdos. Continuam com os arranjos que desmobilizam e enfraquecem a literatura, em favor do compadrio. Freud explica o doentio ritual do beija-mão do qual necessitam para massagear o ego. Talvez seja demais esperar a reforma nos brejos iluminados. Em todo o caso, continuamos resistindo à falácia de que literatura é o conjunto de todas as letras. Não é e não será. Literatura é arte. Por isso, um viva a Manuel Bandeira, o nosso cururu maior!