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Eduardo Mahon

Editor Geral

EDITORIAL

Parece que o brado antropofágico de Oswald de Andrade não foi forte o suficiente para acabar com a literatura de salão, essa viscosa sensaboria que emula o passado. Os escritores menores, incapazes de inovar e parir uma obra de fôlego, sobrevivem da memória alheia e de macaquear o que os outros fizeram. O prestígio da tradição é manipulado sem cerimônia a fim de chancelar a obra presente. Como se identificam tais tipos? Elementar! Antes de abrir um livro ruim, é possível sabê-lo com dois dedos de prosa com o escritor. No papo, é possível ouvir as máximas da mediocridade: a literatura tem a função de... aí está a chave, ou melhor, o chavão. A frase será sempre completada com algum clichê. Em geral, a arte é usada como justificativa para alguma coisa – da mais pueril noção de beleza à tormentosa revolução social. Não importa qual seja a pauta que queiram empurrar goela abaixo da literatura, interessa apenas que um escritor ruim terá sempre uma boa justificativa para escrever mal.


Queremos dar o caminho das pedras. Um curso rápido para descobrir esses fanfarrões. Basta seguir as pistas deixadas aqui e ali. Acontece em todas as profissões: o enorme anel de rubi na mão direita do jurista, o estetoscópio enrolado no pescoço do médico, o capacete que abafa a cabeça do engenheiro, a constelação de estrelas nos ombros dos militares, enfim, o arsenal simbólico da autoridade. Pois são justamente os piores a exigir silêncio e reverência – “me chame de doutor” – pedem aos cerimoniais. É que, à míngua de talento, o argumento de autoridade é invocado como compensação. Por isso, os símbolos são tão caros ao escritor medíocre. Nas apresentações, o sapo apresenta um curriculum enorme, tão grande quanto desimportante. Repare bem: os adereços curriculares pesam nas orelhas dos livros. Medalhas e distinções de toda a ordem adornam a obra medíocre porque o suporte simbólico é indispensável para granjear algum respeito. Quanto mais curriculum, menos talento. É batata!


No mais das vezes, é comum encontrar – logo abaixo do nome do escritor – a que instituição pertence. Eis aí o suprassumo da mediocridade. O sequestrador de símbolos chega a gritar – “Hei! Olhem pra mim! Faço parte dessa entidade. Portanto, devo ser respeitado”. O leitor atento e o crítico experimentado conseguem sacar esse botox editorial para turbinar um livro. A edição fica siliconada com apresentações, prefácios e posfácios, mas não engana ninguém. E não adianta mendigar comentários favoráveis – quem pauta o fazer artístico no moralismo ou no utilitarismo usa-se da justificativa ideológica para autoproclamar-se escritor. Os sapos de sempre continuam nas lagoas acadêmicas repetindo o monótono coaxar – Sou poeta! Sou poeta! Sou poeta! Não, caros leitores, a poesia nunca foi a praia dessa saparia.


É por isso que Oswald errou redondamente ao acreditar que o parnasianismo havia morrido com a Semana de 22. Ao contrário do que pensava o autor de Serafim Ponte Grande, o velho time das les belles letres sobrevive do prestígio institucional que confere entidades literárias certificadoras. Pelos salões abarrotados de vazio, saraus de poemas desimportantes são organizados ao som do mal executado Chopin com a triste Waltz Op. 69. Não há ninguém ali que não seja espectro literário passado. Adeus! – é o que prometem os sapos a cada encontro. Mas persistem os rebuscados anfíbios a coaxar de uns para outros citações antigas e sem sentido, fazendo questão de exibir menções honrosas em colunas sociais. Até quando conviveremos com literatos sem livros? Até quando as letras carecerão de literatura? Até quando bula de remédio e manual previdenciário serão tomadas por literatura? Não há de ser nada. Cada edição da Revista Pixé vem temperada com sal a gosto. Os sapos que se cuidem!