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Eduardo Mahon

Editor Geral

EDITORIAL

A crítica literária é uma atividade humana. Feliz ou infelizmente humana, porque nela há tudo o que pode ser generoso e mesquinho, coerente e contraditório. Ao criticar o cancelamento da cultura russa, movimento global contra a guerra do autocrata Putin, Julián Fuks elabora um consistente questionamento sobre a validade dessa perseguição cultural. Enfoca, sobretudo, a contradição em banir das rodas de leitura autores como Dostoievski que, em vida, foi vítima do czarismo. A reflexão final remete ao próprio autor russo cujo esforço teria sido proporcionar perfis além de suas redutoras circunstâncias. Se é ou não verdadeira a visão sobre a sublimação da vida real, não tenho espaço para o velho debate. O que de objetivo fica de Fuks é sua militância contra o cancelamento do mal. Sou todo aplausos para a lucidez com que o escritor brasileiro defende o que nos parece óbvio – separar alhos de bugalhos.
Tudo ok? Por supuesto que si, pero no mucho. Pode ser que o fetiche vire contra o feticheiro. Mais recentemente, Fuks escreve sobre outro antigo dilema dos leitores e, sobretudo, dos críticos: a tentativa de separar a obra de seus autores. Ao comentar o apoio de Vargas Llosa ao viés autoritário brasileiro Fuks se ressente. Cita livros considerados “consistentes, eloquentes, bem constituídos” e se pergunta como pode o autor alinhar-se com posicionamentos políticos tão estapafúrdios. Mais à frente, afirma que tudo ficou esclarecido durante o doutorado. Os pensamentos equivocados de Vargas Llosa sempre estiveram em seus livros, formados a partir de uma visão caótica de mundo. É que nosso contexto latino-americano seria paternalista, demandando intervenção contra o atraso. Um bom escritor com ideias sórdidas, em resumo. Por fim, Fuks chama atenção para o dever da crítica, ao se desapontar com o autor.
Fiquei a me perguntar sobre como deveriam ser lidas as opiniões de Fuks, se colocadas lado a lado. Em qualquer contexto, há um certo e um errado. O certo precisa ser aplaudido e relevado e o errado, vaiado e criticado. Onde estaria a sublimação das circunstâncias na ficção? É curiosa essa leitura especular romance/biografia e sem-cerimônia como se coloca a obra no mesmo divã. Não poderiam os escritores pensar num mundo ficcional para sugerir o contrário? Não seria uma forma de denúncia de visão atrasada o que estariam buscando com personagens broncos, agressivos, ignorantes? Minha surpresa é com a insistência desse velho inquérito sobre a “intenção do autor” ao escrever um texto. Afinal de contas, a escolha do tema, a forma de narrar, a complexidade das personagens, suas ações na trama, o desfecho, enfim, o universo de um livro foi deliberadamente pensado, projetado para ser como é. O que o autor quis nos dizer? Trata-se de um outro departamento, talvez um brechó da crítica literária. 
Após a publicação, o livro nunca mais deixará de ser como foi no início. O que muda com o tempo é o olhar e, portanto, a interação pode tirar a obra de uma estante superior para colocá-la em outra, mais abaixo. Escritores podem mudar completamente. De ateus a crentes, de carnívoros a veganos, de boêmios a madrugadores. Tem gente que troca de uniforme muitas vezes durante o jogo. Mas e o que passou? Cancelamos os gols? Noutras palavras, o quão válida é a leitura filtrada por afetos e desafetos ideológicos? Não seria uma forma de cancelar Mario Vargas Llosa ao rotular sua escrita como “uma visão preconceituosa e caduca que distorce tempos, espaços e identidades”? Fico me perguntando o que Fuks diria se o peruano comungasse com ele das mesmas perspectivas, se votasse nos mesmos candidatos, se militasse no mesmo campo ideológico. Quem será que caducaria primeiro: a obra ou a leitura?, o livro ou o leitor? Francamente, tenho dúvidas se possa existir um cancelamento do bem.