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Eduardo Mahon

Editor Geral

EDITORIAL

Um famoso ator, Peter Dinklage, publicou nota opondo-se veementemente ao remake da Branca de Neve e os Sete Anões que o estúdio Disney pretende relançar. Ele mesmo, Dinklage, é anão ou, melhor dizendo, portador de nanismo. De pronto, reagiu o sindicato dos atores com a síndrome, alegando que os papeis de anões estariam sendo furtados no escasso mercado cinematográfico. De outro lado, a atriz negra norte americana Whoopi Goldber declarou que o Holocausto não se deu por racismo, já que se tratava de morte entre brancos. Muito provavelmente, em ambos os casos, não se anteviu o tamanho da polêmica e a indignada reação do público.
Se qualquer olhar é um olhar engajado, a militância é um olhar deliberadamente distorcido. Não estamos sequer tratando do mérito, se a causa é justa, injusta, relevante ou irrelevante. Antes, porém, estamos lidando com o método. Como se vê a realidade e dela o que se extrai para o trabalho artístico. Já estamos carecas de saber – este editor, sobretudo – que a objetividade científica é um dos mitos da modernidade. Toda crítica parte de um ponto de vista, mergulhado em valores, ritos, hábitos profundamente cunhados na personalidade humana. O que fazemos com relação a isso? De pior, é assumir uma postura de negação e reafirmar uma pretensa isenção. Ironicamente, quanto mais reforçamos o mito da pureza, mais engajados nele ficamos.

Mas, então, qual o problema do engajamento explícito? É justamente a explicitação. Nada mais redundante. Se a arte é um anteparo, uma forma de proporcionar múltiplas leituras, a explicitação das posições autorais faz com que se transforme num catecismo, o romance vire um manual, a tela se transforme em mero cartaz e a música em discurso de praça. Noutras palavras, o leitor fica subordinado a uma conclusão prévia e, claro, autoritária. Afinal de contas, quem se expressa é o artista e dele é a fala. Muitos artifícios são usados para camuflar esse ímpeto. Eis aí a melhor arte porque generosa com o público. Os artistas, porém, estão se curvando ao dirigismo orwelliano. Que o diga Chico Buarque que vetou a própria canção Com Açúcar e Com Afeto.
Os olhos de Capitu talvez sejam a nossa versão brasileira para o sorriso da Mona Lisa. O que terá pensado Machado de Assis? E Leonardo da Vinci? A incerteza compõe a estrutura da obra de arte. Tivéssemos às mãos uma trena, quanto mais certeza houvesse, menor seria o alcance artístico. O que terá pensado a atormentada Anna Karenina? O arrependimento de Raskólnikov foi autêntico? O quão sofria Policarpo Quaresma? Que tipo de prazer se mistura com rancor e amargura em Juliana? Por último: que pedra é aquela que Drummond enfiou para sempre no meio do caminho? Quanto mais teorias, polêmicas, desencontros e quizilas, maior será a obra. A recíproca é verdadeira: quanto mais explícitas forem as intenções autorais no texto, além de ruim, terá vida breve.
O texto engajado tem um lugar. Esse lugar é uma espécie de gaveta. Quando é preciso, o pesquisador se lembra dele, abre a gaveta e o retira para usar. Sim, a literatura adquire uma funcionalidade. No discurso político, a fim de reforçar a imagem de liberdade, usam o texto x ou y, por exemplo. É mais fácil. Basta lembrar daquele texto em datas especiais: carnaval, independência,
proclamação da república, natal ou réveillon. O texto não demanda muita interpretação, cai como uma luva porque está já pronto. Trata-se de um pacote completo, um combo literário – estilo e ideologia, tudo bem embrulhado e pronto para o consumo. Não por outra razão, em uma literatura engajada comumente se constrói a óbvia relação com a biografia do autor. Porque, lá no fundo, o texto pode assumir muitos gêneros, mas dificilmente será literatura.