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Eduardo Mahon

Editor Geral

EDITORIAL
EDITORIAL

Diante da urgência da inclusão social, o que fazemos nós com a bagagem que nos constituiu e que excluiu tanta gente? O que fazemos com a literatura que aprendemos a admirar, desde a dramaturgia grega? Aquelas estátuas, todas muito brancas, aquelas pinturas de mulheres, todas muito loiras, aqueles rompantes romanos de raptos e firulas francesas amaneiradas? O que fazemos com a cultura que nunca deixou de ser elitista: Bach, Chopin, Brahms? E as antigas lições de etiqueta com direito a talheres de prata e guardanapo de linho branco? Muita gente acredita que tudo isso deva ser deletado do contemporâneo. Uma vez banida essa cultura considerada excludente, abriremos espaço para outras formas de expressão, inclusiva, democrática, popular. Será mesmo?
Talvez seja esse o maior dilema de nossa época. Ao olhar para trás, é impossível que qualquer intelectual minimamente sensível não se mostre indignado. Não convém aqui fazer uma lista das injustas exclusões e odiosos apagamentos. Qualquer publicação seria insuficiente. No entanto, como viver sem passado? Como pensar o mundo sem ajuda das bibliotecas que nos influenciaram até aqui? Como desapegar do “gosto” construído desde a infância? Sem qualquer dúvida, a preferência estética é uma construção, porque não existe obra de arte que seja intrinsecamente boa ou ruim. Os padrões de julgamento mudam tanto que até mesmo o desejo muda com eles. O mundo variou tanto de opinião sobre o que é bom e mau que é dispensável provar o óbvio. 
E agora? Viveremos sem culpa amando Flaubert e os dramas pequeno-burgueses?, Proust e os paradoxos da high society?, Dostoievski e seus espíritos atormentados? Parece válido o questionamento. A tradição de rupturas definiu a modernidade. Tomando distância no tempo, entendemos que todas as pequenas e grandes revoluções estéticas não partiram senão de uma pequena elite. O conservador, mesmo travestido de liberal ou de revolucionário, de fascista ou de socialista, de cubista ou de surrealista, enfim, de todo e qualquer “ista” dos muitos “ismos” disponíveis, nunca deixou de ser um conservador. Como cantava Cazuza, o que observamos não passa de um museu de grandes novidades. Sim, novidades que rapidamente envelhecem.
O intelectual que queria mudar o mundo sempre gostou de se deleitar com croissants quentinhos. Aliás, parece que pouco mudou de lá para cá. Não é de agora a pretensão de pensar a periferia a partir de autores europeus, de olhar para o pobre a partir de um bangalô de vime, de pontificar rebeliões ao lado do samovar. Então: o que fazer? Parece-nos que uma violência não justifica a outra. A lei de Talião é a pior solução para os dilemas culturais que se apresentam num mundo que reclama por equidade. Queimar livros, esquecer autores, banir do repertório formativo os clássicos é repetir o mesmo crime que o passado impingiu. Dessa vez, curiosamente, quem busca a revanche são intelectuais beneficiados por essa mesma matriz que se quer silenciada. 
Muito ao contrário do que possa parecer, a valorização do cânone não exclui experimentalismos. Somente a vanguarda mais enfurecida imaginou que, para o novo vir ao mundo, seria preciso matar o passado. Ora, devemos conviver todos. O velho de hoje já foi o novo de ontem e nós, novíssimos em folha, vamos ficar podres de velhos em pouco tempo. Esse dilema é movido por uma enorme insegurança. Que insegurança? Freud explica. Como toda criança, o intelectual inseguro quer adular os coleguinhas, se enturmar na tribo de eleição. Portanto, publicamente renega tudo e todos o que possam constranger essa unanimidade artificial. Suspeitamos, contudo, que debaixo do travesseiro sobre o qual dormem, Shakespeare repousa escondido a sussurrar durante a noite...