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Eduardo Mahon

Editor Geral

EDITORIAL
EDITORIAL

Enquanto todas as outras ciências lutam pela sobrevivência, a crítica literária insiste em abrir mão do seu campo de atuação. Os críticos fazem de tudo para exterminar a crítica, o que parece uma manobra suicida ou, no mínimo, pouco estratégica. Alguns estudiosos afirmam que a obra literária não deve ser interpretada, apenas contemplada. O ato hermenêutico seria uma violência e uma usurpação. Outros entendem que a crítica classifica e emoldura a expressão literária conforme um ponto de vista dominante e, portanto, reduz o julgamento à maior ou menos aproximação deste padrão. Finalmente, há os que consideram a própria disciplina – crítica literária – como um rebotalho de outras tantas: linguagem, história etc. Parece que estão se penitenciando através da mortificação profissional. O que pretendem os críticos, afinal?
Se o texto literário não pode ser investigado em sua estrutura, não pode ser relacionado a outros, não pode ser classificado, não pode ser avaliado com os instrumentos disponíveis, para que existem os programas de estudos literários? É difícil entender como, em meio às lutas pelo poder de dizer, a crítica entregue tão facilmente suas armas e confesse abertamente sua própria incompetência. Se toda a expressão humana pode ter um conteúdo de “literalidade”, quem faz literatura pode muito bem prescindir do texto. A grassar esse entendimento, outra não pode ser a conclusão de que o culpado pelo jardim é o jardineiro. Não me assusto com a inversão proposta. Há quem diga que a literatura é uma erva daninha pacientemente cultivada na modernidade. Será? Talvez essa desconstrução nos leve a cultivar pedras. Ou ossos...
Diante desse risível recalque crítico, temos em pé de igualdade todos os textos. Até mesmo as expressões que não são textos. O clã intelectual ultracrítico não percebe que o pensamento da “literalidade” padece do mesmíssimo problema que denunciam: o autoritarismo. Sequestrar textos religiosos, políticos, jurídicos e jornalísticos para fins de escrutínio literário é tão autocrático quanto prescrever uma hierarquia interna. Descontextualizar o grafite, a propaganda do biotônico e as tabuletas de caminhão é tão violento quanto emparelhar textos de diversas tradições literárias. Desse jeito, não se chega a lugar algum. A explicação é simples – quando tudo é arte, nada mais pode ser. A valorização do aleatório é a morte do empenho artístico. 
Vejamos a arte do nosso convidado desta edição, Edward Povey. A expressão artística é uma simulação do real, uma deliberada ficção. Valorizar o trabalho agregado do pintor britânico é menosprezar a flauta de sopro feita de ossos? Afirmar que esse realismo-irreal de Povey dialoga com a sedimentada tradição artística ocidental desmerece o colar de conchas do mar? O que distingue uma coisa da outra? Estaremos sendo demasiadamente eurocêntricos ao destacar Povey e ignorar a expressão artística maori? Tudo indica que uma e outra linguagem não só é concebida de forma diversa como divulgada e recebida diferentemente. Por dia diabos há críticos que procuram colocar tudo num mesmo balaio? Não nos parece justo com o artista e também com o povo maori que, aliás, não deve estar nada contente com a usurpação de seus traços ritualísticos em tatuagens e decoração do happening alternativo.
O crítico de arte contemporâneo está assombrado pela culpa. O exercício da crítica passou a ser uma forma de sacrilégio. O profissional lê e avalia quase pedindo desculpas, pedindo licenças, ajeitando-se para sentar e falar. São muitos os melindres, tantos e tais que se tornou mais fácil abdicar do julgamento. Diante do texto literário (e da obra de arte em geral) o melhor não é raciocinar, relacionar, entender e opinar. Essa seria uma atividade colonizadora, ultrapassada, arrogante. O crítico contemporâneo deve manter-se siderado, contemplativo, absorto. Se possível, ajoelhar-se e fazer uma oração para que encontre no transcendental as palavras certas para não ofender ninguém. Que lorota é essa?