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Eduardo Mahon

Editor Geral

EDITORIAL
EDITORIAL

O pior que podemos fazer para a literatura nacional é dizer o que ela deva ser. A crítica brasileira colocou essa camisa de força nos autores desde as primeiras críticas publicadas nos jornais. Na época, ditava-se a pauta da nacionalidade. Era essencial que os autores se descolassem das letras portuguesas. A manobra só poderia ser realizada com sucesso se o texto dedicasse integral atenção à descritividade geográfica, aos acentos locais, aos costumes interioranos e, talvez, rumasse pelas veredas linguísticas regionais. Com os antolhos da crítica engajada, os escritores incumbiram-se na ingrata tarefa de mateiros, narrando as picadas em meio às selvas amazônicas, atravessando pantanais mato-grossenses, caatingas cearenses e campos gelados do sul. 
Por isso mesmo é que a literatura brasileira precisa compartilhar com a crítica a responsabilidade de ser como é. A crítica impôs uma ortopedia moralizadora, temática e estética aos autores do século XIX, fundando uma escola da recepção condicionada. O que é nacional, alfinetava Machado, não precisa estar adstrito à descrição pitoresca. O bruxo do Cosme Velho, no entanto, foi voz isolada. Os intelectuais que pretendiam a independência literária foram sucedidos por intelectuais que se colocaram contra imperialismos de toda a ordem. Tudo num curtíssimo espaço de tempo. Não houve tempo para outras discussões de outros temas. Ao nativismo indianista, seguiu-se o manifesto regionalista e o modernista, sempre buscando uma refundação mítica de um Brasil profundo e autêntico.
Por todas essas razões, estaria correto Antonio Candido ao afirmar que a literatura brasileira é fraca e pobre? Ou seria apenas um preconceito de um positivista tardio? Há quem diga que Candido estava contaminado com o complexo de vira-lata, tão comum às culturas que olham para si mesmas com pincenê estrangeiro e passadista. De outro lado, há quem o apoie e diga, sem pudor algum, que a inversão de valores no Brasil é tão radical que se costuma aplaudir o que é, em toda a parte, considerado ruim. Estamos diante de uma perplexidade, considerando que há duas posições conflitantes: o abuso da cor local seria um ato de resistência ou um exotismo descritivo para saciar o gosto do público que se concentra nas grandes cidades? 
Tudo indica que a polêmica ficou sem conclusão porque o alvo mudou. Uma boa parte da crítica mira outras pautas, mas prossegue com a ortopedia ideológica sobre os autores. Ser contemporâneo seria explicitar uma posição política no texto, ou melhor, fazer do texto uma oportunidade para reposicionar o leitor, dando-lhe instrumentos para discernir o que é certo do que é errado. Não basta que os enredos cotejem a notória desigualdade, mas que concluam e prescrevam, responsabilizem e julguem, identifiquem e condenem os culpados. De certa forma, não conseguimos escapar do atoleiro funcionalista que premia com reconhecimento um novo tipo de naturalismo. 
Olhos de viajante, olhos de médico, olhos de jornalista. A narrativa brasileira está centrada no olhar, não no refletir. Enxerga aspectos externos porque tematiza o cenário, o que é possível ver a olho nu. O mergulho psicológico é um déficit constante na nossa produção, pressentia Machado o que, mais tarde, Candido explicou. Parece que é a alma brasileira é rasa e, por isso, não compensa mergulhar nas angústias, depressões e contradições que formam a nossa psique. Nada mais equivocado. Do meu ponto de vista, o sistema de premiação simbólica estabelecido pela crítica nacional induz os autores a continuar fugindo dos ambientes interiores. Esse novo engajamento é tão pernicioso quanto o antigo. Uma literatura do dever-ser, em geral, não será.