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Eduardo Mahon

Editor Geral

EDITORIAL
EDITORIAL

Para que serve a literatura? Parece uma pergunta gasta de tão repetida. Contudo, passados dois milênios, se está posta ainda hoje, a questão tem força. É importante não ignorá-la, não menosprezá-la e de todo recomendável que não nos cansemos de respondê-la. Até aqui, foram levantadas as seguintes objeções à poesia e à ficção: a literatura não diz a verdade, não conduz à moral, não é útil e não ajuda a sociedade. São críticas severas, feitas por gente do mais alto gabarito, de Platão a Sartre. Claro que desequilibrados de todos os gêneros embarcaram nessas teorias. É o caso de Savonarola que reuniu em praça pública obras de arte e livros para a sua fogueira das vaidades. 
Das artes, a literatura é um alvo clichê. De quem é a autoridade para narrar? Dos poetas ou dos filósofos? Estes últimos foram impactados por Platão cuja república ideal exilaria os poetas que eram contumazes mentirosos. A poesia era o símbolo da imitação, uma percepção defeituosa e ilusória da realidade. Cá entre nós, esse camarada de largos ombros deveria ser um porre. Felizmente, o maior discípulo não foi contaminado pela metrofobia platônica. Ao contrário – Aristóteles escreveu um dos pilares para o estudo da poesia. O discurso antiliterário transformou-se. Depois do classicismo, o problema passou a ser a religião. Se os poetas deveriam ser proscritos por distorcer a realidade, com o aumento do poder da Igreja, deveriam ser exterminados por paganismo.
Com a sociedade burguesa, a questão moral foi uma nova estocada que recebeu a literatura. Sejam os escritores, sejam as obras, tudo ligado ao meio artístico representava a corrupção. Noutras palavras – a expressão da realidade nas obras literárias não só era falsa como passível de corromper a sociedade civil. Maridos e mulheres que se traem mutuamente, filhos que matam ou roubam os pais, padres que abusam dos fiéis incautos – afinal, que tipo de exemplo é esse? O caso de Quixote é emblemático – ficou louco de tanto ler. A literatura inocularia no leitor uma doença silenciosa. E mais: a literatura também não é padrão de comportamento na vida política. Golpes, conluios, traições, revoluções – tudo o que há nos livros não se recomenda para a vida cívica. 
Finalmente, a literatura passou a ser vista como um artefato de elite. Medir o conhecimento de alguém com base na leitura seria o suprassumo de uma visão elitista, reservada a uma ínfima camada de leitores que se dão ao luxo das leituras frugais. Quem lê livros de poesia? Quem tem tempo para romances? Forma-se uma casta que forja padrões de autolegitimação e o conhecimento artístico é um desses elementos de distinção. Tocar piano, assistir balé, frequentar vernissages e declamar poemas é um luxo exclusivo para afetados da classe alta. O povo quer algo de útil. Somente a ciência ofereceria a redenção, jamais a literatura. O discurso científico reencarna o fantasma de Platão. Trata-se agora de utilidade. Além de falsa, a literatura seria inútil.
Nem a sociologia deixou de tirar uma casquinha da literatura. Poemas e romances se resumem a fenômenos, artefatos artificiais passíveis de análise como quaisquer outros. Não é mais importante do que estudar tatuagens, piercings, cortes de cabelo e moda. Os estudos literários eram exclusivistas demais e precisavam ser reposicionados para abranger todas as demais expressões, sob pena de se confirmar a velha desconfiança elitista. Se a sociologia relativizou a literatura, a psicologia a colocou no divã e a antropologia pretendeu estudá-la fora dos livros. Aliás, o texto passou a ser um coadjuvante nos estudos literários que, de tão híbridos, deixaram de ser essencialmente literários. 
Portanto, é muito válida a pergunta – para que serve a literatura? Se não soubermos responder e contrapor a antiliteratura, prevalecerão todos os discursos que, de uma forma ou de outra, atacam a arte. De certa forma, a despeito do olímpico desprezo que os clássicos rendem a todas essas babosas teorias, está se consolidando a impressão de que somos incapazes de responder a uma pergunta tão simples.

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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