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Eduardo Mahon

Editor Geral

EDITORIAL
EDITORIAL

 

Não é de hoje a exigência pelo engajamento político na arte. Na virada do século XX, o maior escritor brasileiro teve muita paciência com o histrionismo de Silvio Romero que era um azougue na mídia. O jornalista e crítico literário encheu a paciência de Machado de Assis, acusando-o abertamente de abstenção quanto à política republicana que era retratada nos contos e romances com desconfiança, mordacidade e ceticismo. O Bruxo do Cosme Velho ignorou. Foi o melhor que podia fazer. Sabia que não é o escritor que precisa se posicionar politicamente através da literatura. Do alto de sua perspicácia, entendia que essa tarefa é dos leitores que se sucederão no tempo a imprimir múltiplos significados à mesma obra, variando de acordo com a própria realidade. 


Desconfio que Machado não teria a mesma sorte hoje em dia. Parece que Silvio Romero se multiplicou em inumeráveis patrulhas Para os fiscais da arte, o escritor precisa se posicionar de forma engajada. Deve “condenar” ou “absolver” determinado personagem pelo que “ele representa” na estrutura da narrativa. O escritor precisa, enfim, subir na caixinha de madeira para fazer do texto um palanque. Até mesmo Shakespeare, coitado, já foi pichado nas cátedras universitárias por não ter promovido uma crítica aberta ao absolutismo elizabetano, por não ter condenado o racismo, a misoginia e todos os demais preconceitos que assombram a humanidade. No último grito dos estudos culturais, o dramaturgo inglês seria o embaixador da elite burguesa.


Flaubert é machista. Tolstói idem. Machado não foge à regra. Criaram personagens femininas retratadas como traidoras. Quem pode esquecer o olhar oblíquo de Capitu? Bernardo Guimarães foi processado, julgado e condenado em tribunais ideológicos por ter escrito sobre uma escrava branca. Castro Alves romantizava a escravidão. Gonçalves Dias promovia patriotadas hiperbólicas em sua poesia. Euclides da Cunha sofreu uma esculhambação por ser racista, mesmo dizendo que o sertanejo é, antes de tudo, um forte. Já Monteiro Lobato fez uma referência condenável à Tia Nastácia e pagou o pato por causa do Jeca. Nabokov foi acusado de instigação à pedofilia por não ter condenado expressamente a paixão do velho escritor por Lolita. Hemingway responde à denúncia de ser misógino. 


Imaginem um personagem como Raskólnikov de Dostoievski. O sujeito era ganancioso e matou uma velhinha indefesa para furtar-lhe as joias. Ponto final. O russo merece ser reprochado em público pela crítica. Não deixou claro a condenação moral do personagem, fazendo os leitores amarem o assassino e suas angústias. A traidora Luísa faz de Eça de Queirós um incorrigível misógino. A um só tempo, esculacha a imagem de duas mulheres. Enquanto temos um modelo de marido, bem apanhado, funcionário zeloso, homem alheio à vida noturna e dissoluta, pensa numa frívola mulher loira que se entrega à própria fraqueza e outra, uma megera em pessoa, empregada sem qualquer escrúpulo que faz chantagens horríveis. 


O que Eça quer nos dizer? Ora, está claro! O homem é sempre enganado por mulheres caprichosas que se merecem em sua torpeza feminina. O que mais poderia ser? Machado vai no mesmo prumo. A mulher não merece crédito e atormenta o marido honesto com seus trejeitos maliciosos. Bovary e Karenina são duas traidoras que cederam à fraqueza inerente ao caráter feminino e meteram um chifre nos maridos sisudos e trabalhadores. Até Jorge Amado criou uma traição post mortem! Dona Flor não aguenta a bonomia do honesto Teodoro e mete um chifre no marido correto com a alma penada do ex-marido, jogador, alcoólatra e mulherengo. 


Julgar a obra pelo viés ideológico da época é a escola de pensamento que Silvio Romero nos legou. Exigindo engajamento político, bateu em Machado de Assis que escreveu Esaú e Jacó que ironizava a polarização radical dos inimigos que não se tocavam sobre a própria proximidade. Foi essa mirada de incredulidade, de desconfiança, de pessimismo e, sobretudo, de distanciamento que fez de Machado de Assis o que é e sempre será Machado de Assis. Provou-se que a suposta abstenção machadiana não era  um “isentão”. A ambiguidade humana, trabalhada por ele com fina ironia, nos ensina três lições: literatura pode contemplar todos os temas, mas será tanto mais longeva quanto enfrente os sentimentos humanos descolados de rótulos ocasionais; o escritor só sobreviverá ao tempo se tiver generosidade de deixar a interpretação aos leitores; críticos são importantes, mas a literatura de qualidade sobrevive a todos eles.

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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